Apesar da redução de 5,2% no preço da gasolina, anunciada pela Petrobras em janeiro, o desconto ainda não chegou até as bombas dos postos de combustíveis de Santa Catarina. Especialistas revelam que alguns fatores, como o aumento de imposto estadual, podem explicar a situação.
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O desconto oferecido pela Petrobras engloba uma das etapas de produção da gasolina. O desconto de 5,2% passou a valer, a partir de 27 de janeiro deste ano, para o produto saindo das refinarias para as distribuidoras. O anúncio gerou expectativa nos consumidores catarinenses, mas a cadeia não seguiu a redução.
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Algumas cidades chegaram a registrar alta no preço nas últimas semanas. Pesquisas realizadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram um aumento de R$ 0,16 no preço médio da gasolina comum no maior município do Estado, Joinville.
O primeiro levantamento, que registrou o menor valor, foi realizado entre os dias 28 de dezembro de 2025 e 03 de janeiro de 2026. Já o segundo, e mais atualizado, foi feito entre 15 e 21 de fevereiro de 2026 — quase um mês após a redução da Petrobras passar a valer.
Itajaí, no Vale, teve um aumento de R$ 0,11 no preço da gasolina comum no mesmo período. Já o combustível aditivado teve uma alta de R$ 0,13.
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As únicas cidades que registraram uma pequena queda no preço da gasolina foram Mafra, no Planalto Norte catarinense, e São José, na Grande Florianópolis. O primeiro município, por exemplo, teve redução de R$ 0,13 no período comparado.
Por que o preço da gasolina não baixou
O presidente do Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro PR/SC), Alexandro Guilherme Jorge, explica que diversos fatores contribuíram para que o preço da gasolina não registrasse queda em Santa Catarina no início deste ano. Segundo ele, o principal motivo foi o aumento do ICMS anunciado pelo governo do Estado.
O ICMS é um reajuste anual cobrado em todos os estados por meio de um valor fixo sobre o litro do combustível. O valor fixo, que até o fim do ano passado era de R$ 1,47 por litro, passou para R$ 1,57 no início de 2026.
— Desde 2022, o ICMS tem uma alíquota fixa para todos os estados e tem subido sistematicamente 10 centavos por ano. Essa decisão é tomada pelos secretários de fazenda dos estados. Então, o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) definiu pelo aumento pelo terceiro ano consecutivo. Isso explica parte desse não repasse: ao mesmo tempo que se diminui o preço, aumentou o imposto — explica Jorge.
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Jorge ainda esclarece que o desconto nas bombas poderia ser ainda maior por conta da composição da gasolina nas bombas, que tem 30% álcool (etanol anidro). Na avaliação do presidente do Sindipetro, a redução da Petrobras também tem efeito indireto para queda do preço do álcool, porque as usinas acompanham as oscilações do preço da gasolina.
— Se você pensar que diminuiu R$ 0,14 e o restante dos custos são proporcionais, a gente deveria estar vendo algo em torno de R$ 0,40 de diminuição. Esse seria um resultado médio esperado. O que a gente percebe é que a cadeia acaba não acompanhando. É um evento muito rotineiro: a refinaria baixa e demora para acontecer o repasse ao consumidor. Mas como isso se deu em 27 de janeiro, e já estamos em fevereiro, é tempo mais que suficiente para que todos os estoques tenham sido renovados — diz Jorge.
Já o economista Enio Coan explica que a análise é bastante complexa, já que são muitas as variáveis que impactam diretamente no preço do combustível.
— É o preço do petróleo, que é uma comoditie internacional, é a nossa inflação interna, o preço do dólar, o câmbio interno brasileiro e mais a política de lucros a custos da Petrobras. E também os impostos do governo. Esse pacote de custos faz o preço da gasolina — afirma Coan.
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No entanto, o presidente da Sindipetro afirma que aguarda uma mudança nesse cenário nos próximos meses.
— Há também uma expectativa de manutenção do preço do petróleo a nível mundial, e até uma uma redução. Além disso, a refinaria que abastece o Paraná e Santa Catarina bateu todos os recordes de produção no ano passado. Então, você tem aumento de produção do petróleo, aumento da produção das refinarias, isso também é uma tendência da redução de preço. Mantida essa lógica, a tendência é sim de redução — pondera.
Investigação em SC
O Procon de Santa Catarina informou que acompanha a variação de preços da gasolina. O órgão irá formalizar um acordo com a Secretaria de Fazenda para ter acesso mais facilitado aos preços praticados pelos postos do Estado.
Em 2025, oito estabelecimentos foram autuados pelo órgão por praticarem preços abusivos.
Veja variação do preço em SC desde 2025
Como o valor da gasolina é calculado em SC
A produção do combustível inicia a cerca de 300 quilômetros da costa brasileira. Profissionais nas plataformas em alto mar precisam extrair o petróleo que está a até sete mil metros de profundidade, conforme relata a Petrobras. A partir daí, o petróleo é enviado à terra firme e chega até às refinarias.
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Nessa etapa, é necessário investimento a partir do trabalho de diversos profissionais qualificados e tecnologia de ponta. É nas refinarias que é feito o processamento do petróleo, transformando-o em derivados como a gasolina. O preço desse combustível na refinaria, correspondente à parcela da Petrobras, é de R$ 1,82, tendo como referência a semana de 8 a 14 de fevereiro.
Depois da refinaria, a gasolina é vendida aos distribuidores, etapa onde os tributos são incluídos ao preço. Segundo a Petrobras, a tributação federal sobre a gasolina é formado por CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), PIS/PASEP e COFINS. Além deles, é adicionado também o imposto estadual, o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). O preço com as tarifas sobe para R$ 4,07, sendo R$ 0,68 de tributos federais e R$ 1,57 de ICMS.
Já sob responsabilidade dos distribuidores, é necessário adicionar etanol à gasolina. Esse processo é uma obrigação legal, previsto na Lei n° 8.723 de 1993. A legislação determina que é preciso ter 30% de etanol anidro na gasolina comum, e 27% na gasolina premium. Com a parcela do etanol anidro, o valor da gasolina sobe mais R$ 1,02, chegando a R$ 5,09.
Com a mistura feita, os distribuidores passam a comercializar a gasolina para os postos de combustível. Nessa etapa, tanto os distribuidores quanto os postos adicionam os seus próprios custos e sua margem de lucro, já que, segundo a Lei do Petróleo, a precificação em todas as etapas da cadeia é livre. Assim, o preço sobe mais R$ 1,45, chegando a R$ 6,54, conforme estimativa da Petrobras, também para a semana de 8 a 14 de fevereiro.
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*Com colaboração de Walter Quevedo, NSC TV.






