O trabalho de restauro de um antigo casarão da Rota do Enxaimel, em Pomerode, revelou detalhes ocultos por décadas que ajudam a contar a história do desenvolvimento da região. Madeiras nobres escondidas no assoalho, a estrutura de uma turbina que gerava energia a partir do Rio do Testo e uma porta que oferece uma nova visão sobre como o imóvel era usado no século passado estão entre as descobertas. A casa renovada agora pode ser visitada por turistas e moradores.

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Quando os novos proprietários adquiriram a casa histórica, em 2022, sabiam que, nos fundos, onde passa o Rio do Testo, existia uma antiga represa. Logo ao lado, encontraram uma estrutura em tijolos que revelou aquele que foi, provavelmente, o primeiro equipamento para geração de energia do bairro Testo Alto, construído em 1951.

A partir de conversas com antigos moradores da localidade, soube-se que uma turbina instalada no local gerava eletricidade para iluminar o casarão e movimentar pequenas máquinas agrícolas. Com a chegada da rede pública de energia, nos anos 1970, o equipamento foi abandonado.

O imóvel onde desde janeiro funciona o Mahlzeit Café Colonial foi construído em torno de 1910. É tombado como patrimônio histórico municipal e estadual, além de estar inserido no conjunto histórico de Testo Alto, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Antes e depois da casa histórica

Porta oculta

No interior da casa, as obras trouxeram outras descobertas. Durante a remoção do reboco interno, que estava desgastado pelo tempo, ficou à mostra uma velha porta, que servia de conexão entre dois ambientes.

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Este detalhe ajuda a contar a história do casarão, onde funcionou uma filial da antiga Casa Comercial Haut. A porta ligava o ambiente íntimo ao espaço de trabalho, unindo duas casas numa só — volumetria incomum na região.

Assoalho em madeiras nobres

O assoalho de madeira reservou uma das descobertas mais surpreendentes e belas. O piso tinha aspecto escuro e uniforme após décadas de uso. O que ninguém esperava era que, sob a grossa camada de ceras e óleos, surgisse uma paginação em madeiras nativas nobres.

Os antigos construtores usaram tábuas de canela-preta e peroba-rosa intercaladas, gerando um efeito visual que sugere capricho extremo. Com a recuperação, o piso agora enfeita o salão de café do Mahlzeit, por onde circulam os clientes.

Caracterização

Para instalar o café colonial no casarão, os sócios procuraram manter ao máximo as características originais do imóvel, mesmo em partes que não eram protegidas por tombamento. Caso do forno de pão existente nos fundos da casa, por exemplo. O velho rancho foi reconstruído no entorno do forno original.

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O mobiliário é inspirado em peças alemãs e da região do Tirol. As cadeiras, em formato característico, foram desenhadas a partir das chamadas de Bauernstuhl (cadeira camponesa) e produzidas especialmente para o café colonial.

Nas paredes do Mahlzeit, quadros pintados à mão apresentam aos clientes alguns dos aspectos arquitetônicos e culturais do casarão. Com uma engenhosa particularidade: as pinturas cobrem lã de rocha, material usado para tratamento acústico, evitando a reverberação do som.

Aliás, a trilha sonora do estabelecimento também ressoa nostalgia. Um realejo eletromecânico instalado do lado de fora toca músicas típicas pré-programadas. O instrumento é único no Brasil.

Mobília, realejo, painéis acústicos, roda d’água… Em todos esses detalhes o sócio Ivan Blumenschein pôs a mão na massa, projetando e, em alguns casos, executando as peças.

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— Ter assumido o restauro da construção e me envolvido na confecção de vários itens que compõem a casa me dão a sensação muito boa de contribuir para renovar um imóvel que guarda tanto da história da região — conta o empresário.

O Mahzleit é um café colonial em que nove em cada 10 itens do bufê livre são produzidos em Pomerode.