A OMS (Organização Mundial da Saúde) enfrenta, neste início de 2026, um novo capítulo na história da Mpox. Após o surto mundial iniciado lá em 2022, que trouxe o Clado IIb para o centro das discussões de saúde pública, o cenário atual exige um olhar mais profundo sobre a evolução do vírus e a manutenção das barreiras de contenção.

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Para nós, médicos e gestores de saúde, o desafio vai além da identificação clínica; reside na compreensão das mutações virais e na adaptação das estratégias de controle diante de um vírus que se recusa a ser erradicado.

O que mudou na evolução do vírus

O vírus da Mpox, um Orthopoxvirus de DNA fita dupla, tem demonstrado uma capacidade de adaptação preocupante. Enquanto o Clado IIb, de menor letalidade, dominou as transmissões globais nos últimos anos, a atenção em 2026 volta-se para a linhagem Ib.

Esta variante apresenta uma transmissibilidade inter-humana sustentada mais eficiente, inclusive por vias que transcendem o contato sexual, como o contato domiciliar prolongado e gotículas respiratórias.

No contexto da virologia e da evolução biológica, o termo clado, refere-se a um grupo de organismos que evoluíram a partir de um ancestral comum exclusivo. Imagine a árvore genealógica do vírus: um clado representa um galho inteiro dessa árvore, englobando o ancestral original e todos os seus descendentes que compartilham as mesmas mutações genéticas específicas.

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Clados revelam comportamento da doença

Diferente de uma simples “variante”, o termo que se popularizou com a Covid-19 para descrever mutações pontuais, a classificação em clados na Mpox indica divisões geográficas e evolutivas mais profundas.O vírus da Mpox é dividido fundamentalmente em dois grandes grupos:

  • Clado I (anteriormente Bacia do Congo): originário da África Central, este clado é historicamente associado a uma virulência mais agressiva, com taxas de letalidade que podem chegar a 10% em populações vulneráveis e maior transmissibilidade domiciliar.
  • Clado II (anteriormente África Ocidental): este grupo, especificamente o sub-clado IIb, foi o protagonista da emergência global em 2022. Ele tende a causar uma doença clinicamente mais leve e está fortemente ligado à transmissão por contato íntimo e redes sexuais.

Para a infectologia contemporânea, identificar o clado circulante em Santa Catarina ou no Brasil é uma necessidade clínica e de vigilância: a presença de linhagens do Clado I, por exemplo, exige uma resposta de saúde pública muito mais eficaz e um monitoramento rigoroso de gravidade hospitalar. Portanto, quando falamos em clados, estamos decifrando o “CPF” do vírus para prever seu comportamento epidemiológico e ajustar nossas estratégias de contenção e manejo clínico.

Sintomas discretos favorecem transmissão

A fisiopatologia permanece centrada na replicação viral nos linfonodos regionais, ou seja, nas ínguas do corpo. O que observamos agora é uma apresentação clínica muitas vezes branda, com poucos sintomas ou com lesões localizadas em áreas genitais e perianais, o que mimetiza outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) como sífilis secundária e herpes simples.

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Essa “camuflagem” diagnóstica é o que permite que o vírus continue circulando silenciosamente entre as redes de contato.

Como a doença se distribui em Santa Catarina

O Brasil mantém um sistema de notificação robusto, mas os dados de 2026 mostram que a estabilidade é frágil. Enquanto o estado de São Paulo continua sendo o epicentro nacional devido à sua densidade demográfica e conectividade internacional, Santa Catarina apresenta uma dinâmica peculiar.

No território catarinense, a distribuição dos casos não é uniforme. Observamos uma concentração histórica e atual na macrorregião da Grande Florianópolis e no Vale do Itajaí.

De julho de 2022 até o dia 21 de fevereiro de 2026, foram notificados 3.307 casos suspeitos de mpox. Destes, 599 (18,1%) foram confirmados. Embora os números de 2026 em Santa Catarina mostrem uma redução superior a 60% em comparação ao pico de 2025, a detecção de casos isolados em municípios como Biguaçu e Palhoça acende o alerta para a circulação comunitária persistente.

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A boa notícia é a baixa taxa de letalidade no estado, que é um reflexo positivo da assistência médica catarinense.

Vigilância e diagnóstico na linha de frente

A perspectiva para Santa Catarina nos próximos meses depende diretamente da nossa capacidade de diagnóstico precoce. O Laboratório Central de Saúde Pública (LACEN/SC) continua sendo o pilar para a confirmação via PCR, única via segura para o diagnóstico diferencial definitivo.

A vacinação, embora restrita a grupos de altíssimo risco e profilaxia pós-exposição (PEP), continua sendo uma ferramenta imunológica estratégica, mas a educação em saúde permanece como a intervenção de maior custo-benefício.

Como infectologistas, nossa missão nesta fase da epidemia é reforçar que a Mpox não é uma doença do passado, nem restrita a um único grupo social. A Mpox é uma patologia reemergente que exige um alto índice de suspeição clínica.

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O manejo adequado das lesões, o isolamento rigoroso até a reepitelização total e a busca ativa de contatos são as únicas formas de evitar que Santa Catarina sofra um surto de grandes proporções.

Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.