Como infectologista, acompanho de perto as ameaças virais emergentes. O vírus Nipah, que voltou a causar alerta na Ásia com novos surtos na Índia, merece nossa atenção, principalmente pela altíssima letalidade. Atualmente, a Índia enfrenta um novo surto no estado de Bengala Ocidental, com pelo menos cinco casos confirmados. Como barreira sanitária, aeroportos asiáticos já reforçaram medidas de triagem de saúde — um sinal claro da preocupação regional. Repito: regional. Sabemos que a Organização Mundial da Saúde classifica o Nipah como patógeno prioritário para pesquisa devido ao seu potencial pandêmico, mas calma.

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O que é o vírus Nipah?

O Nipah é um vírus zoonótico, ou seja, que vem de animais, da família Paramyxoviridae, identificado pela primeira vez em 1998, na Malásia. Seu reservatório natural são morcegos frugívoros, conhecidos como “raposas-voadoras”. A transmissão para humanos ocorre, primeiramente, por contato direto com animais infectados ou pelo consumo de alimentos contaminados por fluidos de morcegos, como urina ou saliva. Além dos morcegos, também há transmissão por porcos.

Essa é a primeira etapa do contágio. Após isso, inicia-se a transmissão entre humanos, ou transmissão pessoa a pessoa, que ocorre por meio de secreções respiratórias e contato com saliva humana.

A infecção pelo Nipah apresenta um espectro clínico característico. Os sintomas iniciais incluem febre, dor de cabeça, tosse, dor de garganta e dificuldade respiratória — sintomas virais inespecíficos. A doença pode evoluir para encefalite (inflamação cerebral) em 20% a 75% dos casos. Nessa fase, surgem sintomas como náuseas, dor de cabeça intensa e confusão mental. O grande problema é a altíssima taxa de letalidade, que varia entre 40% e 75%, dependendo do surto. Não existe tratamento específico nem vacina disponível comercialmente, apenas suporte clínico.

Qual o risco para o Brasil?

Vamos analisar os fatos de forma realista. O Brasil possui fatores de proteção importantes. Primeiro, não temos a espécie de morcego Pteropus, principal reservatório do vírus na Ásia. Segundo, estamos a milhares de quilômetros de distância da região endêmica. Terceiro, o país mantém protocolos de vigilância para doenças emergentes. Quarto, até 27 de janeiro, nenhum caso foi confirmado no Brasil.

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Porém, existem fatores de risco que não podem ser ignorados. A globalização e as viagens internacionais podem, sim, trazer casos importados. A boa notícia é que um estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health (2024) mapeou áreas de risco global e, por enquanto, o Brasil não está em zona de alto risco.

Com base nas evidências atuais, minha avaliação como infectologista é que a probabilidade imediata, em 2026, é baixa. O risco de surto local é mínimo; o risco de casos importados é moderado a baixo; e o risco de transmissão sustentada é muito baixo. No entanto, atenção: a Organização Mundial da Saúde alerta que o Nipah tem potencial pandêmico devido à capacidade de transmissão pessoa a pessoa associada à alta letalidade.

O que o Brasil precisa fazer?

Como país que enfrentou recentemente emergências sanitárias, aprendemos lições valiosas. Precisamos manter vigilância ativa nos pontos de entrada, especialmente em aeroportos internacionais. Devemos garantir capacitação laboratorial, com testes de diagnóstico rápido disponíveis — o que demanda recursos. Além disso, a pesquisa com morcegos deve monitorar a presença de anticorpos em populações de morcegos brasileiros.

Um plano de contingência, com estratégias de isolamento e rastreamento, precisa estar pronto. A educação de profissionais de saúde para o reconhecimento precoce dos sintomas é fundamental.

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Concluindo, o vírus Nipah representa uma ameaça real, mas distante para o Brasil neste momento. Nossa maior preocupação deve seguir sendo doenças já estabelecidas, que causam milhares de mortes anualmente, como dengue e influenza. Porém, na era da globalização, nenhuma ameaça viral pode ser completamente ignorada. O que acontece na Índia hoje pode ser relevante para o mundo amanhã.

A lição da COVID-19 é clara: prevenção e preparação custam menos do que uma resposta tardia.

Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.