Santa Maria é uma cidade que respira juventude desde sempre. A universidade é o que faz muita coisa movimentar por lá: as pessoas, a economia, a política e as causas sociais. A Santa Maria que eu levo na memória, depois de ser moradora por 8 anos, é colorida, cheia de gente, com artistas nas ruas, um chimarrão na praça e desconhecidos que viram família. Naquele dia 27 de janeiro, e por muito tempo depois, ela perdeu o brilho e a cor.

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Cheguei para morar na cidade quinze dias depois da tragédia da Boate Kiss para terminar o Ensino Médio e fazer faculdade. Até então, passava algumas férias por lá na casa de minha avó. Nada parecia igual. O silêncio gritava. Ninguém conseguia sorrir nas ruas. A falta era um elefante invisível e gigante que esmagava a cidade conhecida como o “coração” do Rio Grande do Sul. Quando Daniella Arbex escolheu Todo Dia A Mesma Noite para nomear o livro sobre o assunto, parece que ela descreveu em uma frase o que foram os primeiros seis meses depois daquela noite que parou o tempo.

Mesmo recém-chegada, senti a tristeza como se fosse minha. Isso porque praticamente todo mundo ali tinha perdido ou conhecia alguém que morreu no incêndio. Lembro-me que, na época, todas casas de festas e muitos bares fecharam. As opções de lazer eram praticamente inexistentes. Todos os lugares precisavam de obras e escancaravam o fato que a Kiss deixou evidente: a fiscalização estava largada às traças há muito tempo. Aos poucos, a renovação constante de quem passa por Santa Maria para estudar foi sendo combustível para a comunidade lidar com o luto. Mas claro, sem nunca esquecer as 242 pessoas que faltavam.

Um estande da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes (AVTSM) na praça central da cidade exibia o rosto de cada um e lembrava a todos de algo para não se esquecer. Eles lutavam diariamente por justiça. Nunca vi aquele local vazio. Sempre tinha alguém “velando” aquele espaço, que se tornou um ponto conhecido. Foram anos acompanhando cada passo do processo da Kiss. A sensação de injustiça era agoniante. Ano ia e ano vinha e nada acontecia. Ninguém era responsabilizado. Quando já não morava mais na cidade que me proporcionou tantos amigos e conquistas, finalmente, parecia que a luta incansável chegava a um desfecho: o júri popular.

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Chorei assistindo aos relatos, chorei lembrando da universidade e me identifiquei com muitas histórias de pessoas que, assim como eu, saíram da cidade natal para estudar em Santa Maria. Na mesma proporção, fiquei feliz com o resultado, com os quatro condenados, mesmo sabendo que aquilo não era nada perto da perda. Pelo menos o sentimento era de justiça. Não durou muito. Júri anulado, réus soltos, pais chorando vendo aquele curativo que tapava parte da ferida ser arrancado. Revolta. E então, uma década se passou. Sem responsáveis, sem julgamento válido, com mais sobreviventes morrendo por sequelas do incêndio.

Em Santa Catarina, como jornalista, tento falar com familiares das quatro catarinenses vítimas da tragédia. Muito difícil. Alguns se aliviam em lembrar da filha, outros não conseguem. Tem quem ache que a justiça nunca vai punir o suficiente ou encontrar os verdadeiros responsáveis. Tem outros que acreditam que só vendo os envolvidos presos vai ter o alívio e o descanso necessário depois de tanta luta. O luto e o que deve ser feito depois desse crime são percebidos de diferentes maneiras. Mas uma coisa é consenso: a mudança para que tragédias como essa nunca mais aconteçam são necessárias e ainda enfrentam longo caminho pela frente.

Por pouco tempo esses cuidados estiveram mais à tona e, 10 anos depois, eles parecem distantes. É preciso lembrar o que aconteceu, quem se foi e a falta que causam para que as práticas não voltem a ser as mesmas e não levem à negligência que ceifou a vida de 242 jovens.

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