Quem caminha pelo Cemitério do Itacorubi, o mais antigo de Florianópolis, logo percebe que alguns túmulos não recebem orações e flores apenas de amigos e familiares. Entre os centenas de sepultados, Rosemary Koerich, Jane Koerich e Vida Machado são homenageadas por devotos que não as conheceram em vida.
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Elas são consideradas “milagreiras de cemitério”, ou seja, embora não tenham passado pelo processo de canonização do Vaticano são, popularmente, compreendidas como santas. Elas são um fenômeno no Estado e até viraram tese de doutorado.
A estudante de História na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Julia Massucheti Tomasi explica que é comum perceber uma relação afetiva entre os visitantes e as santas:
— Os devotos visitam as sepulturas, fazem pedidos, intercessões, placas de ex-votos, dão oferendas, alimentos, objetos pessoais. Mesmo que muitas pessoas visitem os túmulos, outras negam essa forma de regionalidade porque os “milagreiras de cemitério” não passaram por processos de beatificação do Vaticano. Mas isso não impede que quem é devoto visite. Pelo contrário, tem muita relação afetiva. Trata-se de pessoas que morreram de forma trágica, então há muita relação de afetividade — explica a pesquisadora.
Seu próprio interesse pelo tema fúnebre passa por esse caminho de memória e afeto, já que ela perdeu o pai ainda criança:
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— Eu vivi um luto traumático e não me recordo da minha infância até os dez anos. Apaguei da memória. Quando eu entrei na faculdade História então tive contato com um pesquisador do tema da morte. Meu TCC é sobre rituais fúnebres em Urussanga, a minha dissertação de mestrado foi sobre as práticas de morte na rede social Orkut, que mais tarde se tornou livro, e a minha tese de doutorado foi sobre milagreiros do cemitério — diz Julia.
Quem são as “milagreiras de cemitério” no Itacorubi
Vida Machado, a “milagreira dos estudantes”
Vida Machado foi adotada por Nilson Nelson Machado, o Duduco, aos três meses de idade. Ela conviveu por quase dez anos com o vírus HIV. Conhecida pela resistência, Vida ela faleceu em 2002, pouco antes de completar 10 anos.
Segundo Julia Tomasi, o túmulo de Vida Machado é um dos mais visitados do Itacorubi e chama a atenção pelas duas esculturas em tamanho real próximas à sepultura: uma que representa Vida no caixão e outra que replica a imagem da menina na festa de 15 anos, antecipada pelo pai antes de sua morte.
— Essas estátuas foram encomendas pelo Duduco, pai da vida, ao artista plástico Plínio Verani. Tem uma escultura com a imagem da Vida no caixão e outra de quando ela festejou o aniversário. Essas esculturas chamam muito a atenção, se destacam de longe, tanto de dentro quanto de fora do cemitério — conta.
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Hoje, Vida é invocada principalmente por jovens que buscam aprovação em vestibulares e concursos, mas também por pessoas que pedem intercessão para recuperação de saúde e melhorias de condição financeira. A fama de “milagreira dos estudantes” aconteceu, de acordo com o pai da santa, por conta da primeira pessoa que teve uma graça alcançada após interceder no túmulo:
— A primeira pessoa que colocou uma placa de ex-voto, logo depois da morte da Vida, foi uma menina aprovada em Medicina. A estudante pediu à falecida para passar no vestibular e conseguiu. Depois levou uma placa no túmulo de graça alcançada. Desde então, muitos são os casos de placas de agradecimento relacionadas às pessoas que passaram em vestibular e concursos — explica a pesquisadora.
As Irmãs Koerich e tragédia da Transbrasil
A devoção às irmãs Rosemary e Jane Koerich nasceu de uma tragédia que abalou Santa Catarina: o acidente aéreo da Transbrasil no Morro da Virgínia, no norte de Florianópolis, em 1980. As irmãs, que estavam no voo que retornava de São Paulo, morreram junto com outras 53 pessoas.
A memória das irmãs é mantida viva por um fenômeno espiritual: as psicografias enviadas através de médiuns como Chico Xavier e Divaldo Franco. Nessas cartas, as jovens descreviam o “parque-cidade-jardim” onde estariam vivendo após a morte, trazendo conforto aos pais, Antônio e Ony Koerich.
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Atualmente, o túmulo das irmãs possui 33 placas de ex-votos. Elas são procuradas por fiéis que buscam intercessão em problemas de saúde e questões familiares.
Um retrato da fé manézinha
A historiadora Jullia Tomasi enfatiza ainda que estudar as santinhas do Itacorubi é entender como Florianópolis compreende o luto e a saudade. Com Vida e as irmãs Koerich, o cemitério deixa de ser apenas um local de tristeza e se torna um espaço de afetividade, confiança e gratidão.
Além disso, Julia considera que as milagreiras de cemitério evidenciam o sincretismo religioso que há em Florianópolis:
— Eu encontrei muitas oferendas, doces, balas, cartinhas, açúcar espalhado nos túmulos. Isso é um grande exemplo do sincretismo religioso de Florianópolis. Pessoas de várias religiões vão a essas sepulturas para pedir e agradecer — analisa.
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*Sob supervisão de Nicoly Souza







