Poucos imaginam, mas o Parque da Luz, um dos principais refúgios verdes do Centro de Florianópolis, guarda em seu solo quase dois séculos de histórias que atravessam a memória da cidade. Localizado em frente à Ponte Hercílio Luz, o espaço já foi cemitério, terreno baldio e alvo da especulação imobiliária antes de se transformar em área de lazer e contemplação, graças à mobilização da comunidade.

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De 1840 até a década de 1920, o morro que hoje abriga o parque — conhecido na época como Colina da Vista Alegre, Morro do Estreito ou Morro do Barro Vermelho — funcionou como o primeiro cemitério público de Desterro, como Florianópolis era chamada. Até então, a prática comum era enterrar pessoas nas igrejas, hábito proibido por motivos sanitários em 1843. Estima-se que cerca de 30 mil sepultamentos tenham ocorrido no local.

O historiador Reinaldo Lohn explica que a escolha foi marcada por controvérsias desde o início.

— Em 1840 havia uma tentativa de atualizar a cidade e esse local, visto como longínquo [do Centro], acabou sendo usado para usos que se consideravam indesejáveis no Centro — afirma.

A construção da Ponte Hercílio Luz, inaugurada em 1926, foi decisiva para a transferência do cemitério para o bairro Itacorubi. Situado no topo do morro, o campo santo era visto como uma presença “triste” para quem chegava de barco. Com a ponte, tornou-se inviável manter sepultamentos na principal entrada da cidade.

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— Nos jornais da época, provavelmente apareciam queixas sobre a inconveniência do cemitério. Era a primeira visão que os visitantes tinham ao chegar de barco — conta Reinaldo Lohn.

Abandono do Parque da Luz

Depois da transferência do cemitério, a área entrou em longo período de desuso. Serviu como terreno baldio, abrigo para passantes e até fonte de material para aterros. Relatos orais indicam casos em que estudantes de Medicina e Odontologia recolheram ossadas para estudo, e até de crianças que brincavam com os restos encontrados no morro.

— Minha vó já me contou essa história uma vez, nunca descobrimos se era verdade ou não. Como ela tinha colegas que passavam muito pelo Centro, ela sempre escutava esses relatos delas — relembra João Araújo, de 24 anos, e residente do bairro Agronômica.

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Nos anos 1980, o fechamento da Ponte Hercílio Luz também intensificou o isolamento.

— Nos anos 1980, a desocupação virou abandono. O fechamento da ponte [1982] reduziu a circulação e a área ficou isolada. Foi nesse cenário que movimentos comunitários começaram a disputar o futuro do espaço — diz o historiador Reinaldo Lohn.

Mobilização comunitária

A virada veio com a organização popular. Em 1997, moradores criaram a Associação dos Amigos do Parque da Luz, responsável por articular a defesa do espaço. No site oficial, a entidade define:

“O Parque da Luz é uma área verde criada a partir da conscientização comunitária e ambiental e da necessidade de se preservar e manter a beleza cênica e histórica da cabeceira insular da Ponte Hercílio Luz.”

Segundo a associação, o movimento começou em 1986 com a luta pelo tombamento da ponte e a ideia de um parque. Foram realizados encontros artísticos, debates e plantios simbólicos até que a área fosse assimilada como espaço vital da cidade. Em 1998, após a coleta de 10 mil assinaturas, o local foi oficialmente transformado em Área Verde de Lazer por lei municipal. Apesar da vontade da associação, o processo não foi simples.

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— Foi uma conquista obtida meio na marra. Plantava-se árvores e no dia seguinte alguém destruía. As palavras-chave são democracia, cidadania e movimento social. O Parque da Luz simboliza o choque entre a indústria da construção civil e a ideia de cidades com espaços públicos — afirma o historiador Reinaldo Lohn.

Parque da Luz em 2006 (Foto: James Tavares, Arquivo NSC)

O presente do Parque da Luz

Atualmente, o Parque da Luz é ponto de encontro para piqueniques, caminhadas, atividades culturais e contemplação da paisagem. Para a população, o local é essencial.

— Pelo menos umas duas vezes por mês viemos aqui, em família. Não sei o que seria de nós sem esse local aqui no Centro, já que tem parquinho, área verde e campo de futebol — afirma Marilsa Silveira, de 42 anos.

No próprio site, a associação resume a importância do espaço:

“O Parque da Luz preserva os horizontes do mar, da ponte e das almas que encarnam sua história. Temos que conter a sede de concreto para que a cidade esteja viva e saudável no século XXI.”

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A reabertura da ponte em 2019 reforçou o valor turístico do local, mas também trouxe novos desafios.

— Há uma dinâmica de turismo e negócios no entorno. É contraditório: quem tentou impedir o parque acaba se beneficiando da valorização que ele trouxe. Mas vale acentuar: o Parque da Luz representa uma cara mais democrática da cidade — diz o historiador Reinaldo Lohn.

Veja fotos do Parque da Luz

*Sob supervisão de Luana Amorim

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