Santa Catarina celebra, neste mês de abril, os 30 anos da primeira cirurgia bariátrica realizada no Estado. O marco na medicina será lembrado com uma programação especial no Hospital Regional de São José, na Grande Florianópolis. O evento ocorre nesta sexta-feira (10) e no sábado (11) e reúne especialistas para discutir a evolução da técnica, além de promover cirurgias ao vivo para profissionais de saúde.

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O pioneirismo remonta a 1996, quando o procedimento foi realizado pelo cirurgião Nicolau Fernandes Kruel, também responsável por implantar a cirurgia bariátrica pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na unidade hospitalar. Três décadas depois, o médico será homenageado durante a programação.

Programação reúne especialistas e cirurgias ao vivo

As atividades começam na sexta-feira, com uma noite dedicada à memória e à troca de conhecimento. Às 18h30min, ocorre a homenagem ao professor Nicolau Kruel.

Na sequência, às 19h, o cirurgião Nilton Kawahara ministra uma palestra sobre a trajetória da cirurgia bariátrica no Brasil e em Santa Catarina. O dia se encerra com um jantar de confraternização entre os participantes.

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No sábado (11), o destaque fica por conta das chamadas “cirurgias ao vivo”, que permitem a atualização prática dos profissionais da área. Às 7h30min, o cirurgião Felipe Koleski realiza uma OAGB (bypass gástrico com anastomose única) por videolaparoscopia.

Já às 10h, será a vez de um bypass gástrico também por videolaparoscopia, conduzido por Nicholas Kruel e Nicolau Fernandes Kruel.

Da técnica rudimentar à cirurgia metabólica

Cirurgião do aparelho digestivo e bariátrico em Florianópolis, o médico Marcos Túlio Silva acompanha de perto essa trajetória. Ele começou a realizar cirurgias em 1998, apenas dois anos após o primeiro procedimento no Estado, e presenciou toda a evolução da especialidade.

Segundo ele, os primeiros anos eram marcados por limitações técnicas e alto risco aos pacientes.

— Naquela época, os grampeadores eram rudimentares, muitas anastomoses eram feitas manualmente e os fios cirúrgicos causavam reação tecidual. Isso gerava complicações como fístulas e um índice de mortalidade muito alto — explica.

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O cenário começou a mudar nos anos 2000, com a consolidação da videolaparoscopia e o avanço dos materiais cirúrgicos.

— O grande avanço veio com a videolaparoscopia, melhores grampeadores e a evolução das técnicas. Hoje, entendemos que não é só restringir a alimentação, mas provocar uma alteração metabólica e hormonal no organismo — afirma.

Além da tecnologia, a abordagem multidisciplinar passou a ser fundamental no tratamento, incluindo acompanhamento psicológico, nutricional e preparo físico dos pacientes, de acordo com o médico.

Futuro aponta para robótica e novas técnicas

De acordo com o médico Marcos Túlio, o futuro da cirurgia bariátrica já está em curso e envolve inovação tecnológica e novos conceitos.

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— A cirurgia robótica é um avanço importante, principalmente para pacientes super obesos, oferecendo mais segurança e menos dor. Além disso, as técnicas metabólicas vêm ganhando espaço, com melhor controle do diabetes tipo 2 e perda de peso mais eficiente — destaca.

Entre as novidades, estão procedimentos mais recentes aprovados nos últimos anos, como a bipartição intestinal e o OAGB, técnica que será demonstrada durante o evento.

Perfil dos pacientes permanece o mesmo, diz médico

Apesar de todas as transformações, um aspecto pouco mudou ao longo das décadas: o perfil dos pacientes atendidos pelo SUS.

— Cerca de 85% dos pacientes são mulheres entre 40 e 50 anos. Isso se manteve ao longo do tempo e ainda é objeto de estudo — observa o médico.

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O Hospital Regional de São José recebe pacientes regulados pelo SUS de uma ampla faixa do Sul catarinense. Segundo o cirurgião Marcos Túlio Silva, a área de cobertura vai de Palhoça até a divisa com o Rio Grande do Sul, abrangendo municípios como Araranguá, Criciúma, Sombrio e Braço do Norte, além de outras cidades da região Sul do Estado, conforme a regulação da Secretaria de Saúde.

SC tem alta de mais de 500% em cirurgias bariátricas pelo SUS

Santa Catarina registrou um aumento de 550% no número de cirurgias bariátricas em 2025, em comparação com a quantidade de procedimentos feita três anos antes, em 2022.

Dados divulgados pelo governo catarinense em fevereiro deste ano mostram já foram feitas 3.815 cirurgias bariátricas na rede pública desde 2023. As cirurgias ocorrem em pacientes com indicação e em todas as regiões catarinenses.

O secretário de Estado da Saúde, Diogo Demarchi, explica que os números são resultado de uma ampliação no número de instituições hospitalares capazes de fazer o procedimento.

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— Implementamos a Tabela Catarinense de procedimentos, o Programa de Valorização dos Hospitais e a habilitação estadual para que mais unidades pudessem fazer cirurgias. Assim, conseguimos trazer novos hospitais, que antes eram privados, para reforçar a rede pública e acelerar as cirurgias bariátricas. Mas precisamos lembrar que a cirurgia é o último recurso, as unidades desenvolvem um trabalho com equipe multiprofissional, antes de realizarem o procedimento — afirma.

Na rede hospitalar estadual, foram feitas 2.228 cirurgias bariátricas no ano de 2025, número seis vezes maior em relação a 2022, quando foram registrados 343 procedimentos.

O crescimento já era observado nos anos anteriores, com 410 cirurgias em 2023 e 834 em 2024, mas teve o maior salto no último ano. No mesmo período, o número de hospitais passou de seis, em 2022, para nove em 2025, ampliando o atendimento a pacientes de todas as regiões do Estado.

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