Superar preconceitos para conquistar um lar, receber amor, projetar a vida e não deixar que os sonhos caiam no esquecimento. Jovens e adolescentes a partir dos 14 anos que estão em abrigos de adoção precisam, diariamente, encarar desafios para ter o básico: uma família. Em Santa Catarina, 546 pessoas acima desta idade moram em casas de acolhimento e aguardam o momento de poder criar laços familiares. 

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De acordo com informações do Cadastro Único Informatizado de Adoção e Acolhimento (Cuida), do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC), cinco cidades catarinenses têm mais de 20 adolescentes e jovens na fila para adoção. No topo da lista está Florianópolis, com 34 pessoas, seguido por Joinville e São José (ambas com 31), Blumenau (28) e Gaspar (20). Os números representam que 32% dos jovens em situação de acolhimento estão próximos da maioridade, quando a tendência é de que eles devem deixar os abrigos. 

Uma das pessoas a passar por um desses locais é Rayza Fernandes Piccini, de 20 anos. A assistente de técnica de estilo ficou cerca de dois anos no abrigo de Gaspar. A garota foi adotada em 2018, quando tinha 15 anos, pelos avós paternos e atualmente mora em Blumenau. Ela conta que se surpreendeu quando chegou no abrigo e destaca a importância do espaço. 

— Falam que você vai apanhar, que vai ter briga, mas é um lugar de acolhimento que vai ajudar a criança e o adolescente a trilhar um novo caminho e “reconstruir” uma família nova — explica. 

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Ainda no abrigo, Rayza conta que já nos primeiros dias conseguiu uma vaga de emprego como jovem aprendiz. Com foco no trabalho e em concluir o ensino médio, ela ressalta que já não tinha mais expectativas de ter uma nova família. Entretanto, a notícia de que seus avós iriam adotá-la a preencheu de esperança. 

Com a adoção concretizada, a chance de abrir mais portas para trilhar o futuro foi acompanhada de diferentes reflexões e pensamentos.  

— Foi um sentimento de dúvida. Lá tive várias histórias, um vínculo com essas pessoas. Saí no fim do ano, em época de confraternização, foi um momento bem sentimental. No começo, na casa dos meus avós, foi bem estranho me adaptar, mas foi passando o tempo e eu consegui me realocar — compartilha. 

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Com formações em cursos técnicos relacionados à área têxtil, a jovem trabalha no setor e neste ano encarou o desafio de morar sozinha. Com rotina intensa de trabalho e estudo, o único dia livre para o lazer é no domingo. O ritmo, para ela, deve ser retribuído no futuro. 

— É bem corrido, mas eu vejo que são situações. Eu sei que futuramente vou estar usufruindo disso. É por uma causa boa — crava, determinada. 

Amor de mãe: um resgate essencial

No outro lado do fio familiar, Adione Paludo, de 52 anos, começou o processo para adotar em janeiro de 2023. Cinco meses depois, já estava habilitada para abraçar a sua nova cria. Motivada pelo filho Arthur, de 18, optou por adotar uma pessoa com idade mais avançada. Foi assim que encontrou Maria Giseli, de 17. A garota foi adotada em Capinzal e, hoje, ambas moram no Paraná.  

A trabalhadora da área da educação conta que Giseli a encantou em um vídeo de “apresentação”, no qual mostrou ser uma menina meiga e grata. Carregada de dúvidas, ela confirmou o destino quatro meses depois, com a inspiração em trazer ainda mais amor, proteção e carinho para casa. 

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— Ela é uma menina meiga, alegre e disposta. Está no ensino médio integral, faz academia, gosta de ir à igreja. Aos sábados, trabalha em um salão de festas cuidando de crianças. Ela gosta de ter uma renda para comprar o que quer e está guardando dinheiro para uma viagem da escola. Ela é muito esforçada — conta orgulhosa. 

Mesmo que mãe e filha não estivessem juntas no parto, a força sentimental fez com que elas sejam parecidas. Adione destaca que ambas têm gostos parecidos, devotas da fé e gostam de ajudar pessoas. No futuro, a servidora quer contribuir para a formação acadêmica de Giseli. 

— Ela quer fazer faculdade de estética, pois é vaidosa, gosta de se cuidar e cuidar dos outros. Faz unhas, mexe nos meus cabelos. Mas também cogitou a ideia de fazer psicologia. O tempo mostrará o que se encaixa melhor — comenta. 

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Com a crença guiando o futuro, Adione diz que dará apoio nas escolhas da filha, já que o mais importante entre as pessoas é o ser, não o ter. 

— Acredito que era para ser ela, que Deus havia preparado e usou meu filho para me mostrar o caminho, pois até fisicamente somos parecidas — finaliza. 

Trabalho e família: uma história de mudanças

Entrar no mercado de trabalho está entre os principais desafios de quem está ou acabou de sair dos abrigos de adoção. Dentro da empregabilidade, Bruno Corrêa de Oliveira, de 24 anos, conseguiu superar essa barreira. Morador de Joinville e trabalhando no setor de propagandas, ele ficou em um abrigo dos 9 aos 16 anos, quando foi adotado e viu sua vida ser transformada. 

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Ainda criança, ele afirma que o nada era o seu futuro, sem ter sequer perspectivas e planos entre as possibilidades. Após a família o adotá-lo, Bruno foi morar com eles em uma casa própria, fez cursos e arrumou um emprego, fazendo que o jovem possa dizer que agora tem orgulho de si mesmo. 

— Se não fossem eles, acho que eu não seria o que eu sou hoje. Consegui realizar alguns sonhos, trabalho registrado, não tenho nada contra ninguém, ninguém tem nada contra mim. Ter pai e mãe presente é outra coisa, muda a história da pessoa, muda a vida — celebra.  

Bruno lembra que o menino que vivia na rua, bagunçando e aprontando, agora consegue visualizar um trajeto de construção e conquistas. 

— Para o futuro, pretendo continuar trabalhando. Aprender mais, fazer mais uns cursos, criar minha própria empresa — decreta. 

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Juíza destaca importância de programas pró adoção

A ideia de um “perfil ideal” é um problema que acompanha os abrigos e pessoas que estão à espera de adoção. Para Daniela Morelli, juíza da Vara da Família, Infância e Juventude, Idoso e Sucessões da comarca de Jaraguá do Sul, os interessados em adotar uma pessoa preferem, na maioria, crianças pequenas, de até 7 anos, sem problemas de saúde. 

— Essa é, de fato, a razão pela qual permanecem muitos anos aguardando concretizar a adoção. Casais ou pretendentes com perfis mais amplos, que se abrem para a possibilidade de adotarem crianças mais velhas, adolescentes e grupos de irmãos, permanecem períodos mais reduzidos — explica. 

Na maioria das vezes, a juíza conta que os acolhidos chegam aos abrigos com defasagem escolar e abalados emocionalmente, por conta das violências e disfuncionalidades enfrentadas na família de origem. A partir disso, é preciso um trabalho intenso da rede de proteção, atendimentos psicoterapêuticos e reforço escolar para minimizar o sofrimento, devolvendo a autoestima e a esperança aos jovens.

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De acordo com a juíza, com a proximidade da maioridade e a falta de retorno a uma família adotiva, a Justiça busca oferecer empregabilidade às pessoas que estão nos lares de acolhimento. Quando inseridos no mercado de trabalho, a comarca faz acompanhamento por seis meses após o jovem completar 18 anos. Em casos excepcionais, é possível prorrogar o acolhimento até 21 anos de idade. 

Em Santa Catarina, uma parceira do TJ-SC com a Associação dos Magistrados Catarinenses (AMC) e a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc) criou o Programa Novos Caminhos, em 2013, para oferecer cursos profissionalizantes e vagas de trabalho que proporcionem, ao jovem, melhores perspectivas para o início da vida adulta. 

— Muitas vezes, a proximidade da maioridade é encarada com angústia e ansiedade, justamente pelo receio de se verem jogados à própria sorte. Daí a importância de programas como o Programa Novos Caminhos, que busca a qualificação dos jovens acolhidos e que já passaram pelo acolhimento — destaca. 

Para Daniela, o programa busca por meio de ferramentas uma melhora para o cenário, como as campanhas divulgando a adoção tardia e vídeos de jovens próximos dos 18 anos em lares de acolhimento contanto suas histórias e anseios. 

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— São disponibilizados aos pretendentes à adoção, em todo o território nacional, o que pode possibilitar alguns encontros surpreendentes — finaliza.

Desde que foi implementado em Santa Catarina, o programa Novos Caminhos já encaminhou 1,1 mil jovens para vagas de trabalho e registrou mais de 13 mil matrículas em cursos, oficinas e atividades oferecidas por parceiros. 

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