Nesta semana, um caso de importunação sexual dentro do BBB 26 reacendeu o debate sobre o crime no país. Em Santa Catarina, a realidade é alarmante: mais de 2,4 mil registros de importunação sexual foram contabilizados em 2025, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP/SC). O episódio no reality show expõe, em rede nacional, uma violência cotidiana que milhares de mulheres enfrentam fora das câmeras.
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O crime de importunação sexual, previsto no artigo 215-A do Código Penal brasileiro, ocorre quando alguém pratica ato libidinoso contra outra pessoa sem o seu consentimento. A pena pode chegar a 5 anos de prisão.
Maria Clara*, de 48 anos, está nas estatísticas de mulheres de Santa Catarina que foram vítima do crime em 2025. Ela praticava ioga na praia da Cachoeira do Bom Jesus, no Norte de Florianópolis, no dia 6 de dezembro do ano passado, quando foi surpreendida por um homem.
— Ele veio com a calça para baixo e veio na minha direção e eu corri. Corri até a entrada principal da Cachoeira — conta.
Duas outras mulheres, que estavam no local, ajudaram a vítima e também foram surpreendidas pelo agressor.
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— Enquanto a gente esperava a polícia, ele ficou olhando para gente e começou a se masturbar novamente. A gente fica em uma situação tão nervosa, que eu não consegui pegar o celular no momento para gravar, tamanho nojo e não sei nem explicar. A gente fica frustrada, sensação de impotência — relata outra vítima, que preferiu não se identificar.
Em nota, a Polícia Militar informou que fez rondas na Cachoeira do Bom Jesus e não encontrou o suspeito. Ninguém foi preso neste caso.
“A gente se sente abusada o tempo todo”
Seja nas praias, nas ruas, dentro do ônibus ou no caminho do trabalho: as mulheres se sentem ameaçadas e com medo de serem as próximas vítimas de casos de importunação sexual. Para Joana*, é necessário estar sempre atenta:
— Nós mulheres temos que ficar sempre atentas. Qualquer lugar que a gente vai ter que ficar prestando atenção sempre se tem algum homem por perto, se alguém vai te tocar, se a sua roupa não está muito curta para não chamar a atenção de um homem.
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— Normalmente são caras mais velhos. Eles ficam encarando a gente. Às vezes está calor e eu estou de regata e eles ficam olhando para baixo para olhar para dentro da minha blusa. É bem desconfortável. Já aconteceu inúmeras vezes — conta outra mulher.
— De mostrarem as partes íntimas quando eu to no meio da rua. A gente se sente abusada o tempo todo — destacou mais uma vítima.
Dados de importunação sexual não diminuíram em SC
Segundo dados da Secretária de Segurança Pública, entre janeiro e dezembro de 2024 foram notificados 2.431 crimes de importunação em Santa Catarina. O número é praticamente o mesmo registrado em 2025 (2.422), com uma diferença de apenas 0,37%.
Patrícia Zimmermann, coordenadora das Delegacias de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso em Santa Catarina (DPCAMI), destaca que importunação sexual é considerado um crime grave e que o agressor pode pegar até 5 anos de prisão.
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— A pessoa que pratica esse crime vai ser presa em flagrante se for presa naquele momento ou responde a um inquérito policial. É um crime grave. Não é um crime que passe ileso. Não é uma infração de menor potencial ofensivo — explica a delegada.
Os números de 2025 são somente dos fatos comunicados, ou seja, de quando a vítima relata à polícia. Estima-se que muito outros não sejam comunicados.
— Tem casos que não são comunicados. Isto é fato. O que ajuda hoje são as câmeras de seguranças no transporte público. E são as pessoas que se apropriam do que diz a lei, da proteção que a lei oferece e denunciam. A Polícia Civil vai investigar. Vai identificar esse autor. Porque hoje ele começa praticando um ato de masturbação, por exemplo, ou tocando o corpo de outra pessoa. A maior parte das vítimas são mulheres. E a manhã esse autor pode se achar no direito de fazer algo mais grave — salienta a delegada.
A antropóloga e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Miriam Pillar Grossi, acredita que é preciso investir na educação das próximas gerações:
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— Nós temos que transformar a educação. Nós temos que incorporar uma formação antissexista, uma formação vá mostrar para meninos e meninas que a relação que nós queremos são de paz e de harmonia e que o menino tem que respeitar uma menina e vice-versa, isso nós temos que começar desde a educação infantil.
Entenda o caso de importunação sexual no BBB 26
A Polícia Civil do Rio de Janeiro abriu inquérito para apurar o caso de importunação sexual no BBB 26. O ex-participante Pedro desistiu do reality, na noite de domingo (18), após tentar beijar à força a sister Jordana, na despensa. Pedro vai ser chamado para prestar depoimento.
Imagens das câmeras do programa mostram que a sister estava no local em busca de um baby liss, aparelho que ondula cabelos. Ela pega o objeto enquanto Pedro se aproxima, segura o pescoço dela e tenta beijá-la. Ela reage tentando afastar Pedro e questionando o que ele estava fazendo.
Ainda segundo as imagens, Jordana consegue se afastar de Pedro, mas ele segue bloqueando a porta e declara ter feito o que estava querendo e o que imaginou que ela estava querendo também.
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Após apertar o botão da desistência, ele relatou no confessionário tudo o que ocorreu dentro da despensa com Jordana.
— Eu tava faz dias já querendo me segurar, pra não ficar olhando os outros, cobiçando os outros. As meninas, a Jordana principalmente, porque ela é muito parecida com a minha esposa. E daí hoje eu acabei caindo nisso, olhei pra ela, cobicei ela, desejei ela. E achei que ela tinha dado moral também, tinha sido recíproco, mas pelo que eu vi era só coisa da minha cabeça. Que ela falou “vamos ali procurar um baby liss” (…). E daí a gente chegou na despensa e eu tentei beijar ela. Entendi errado, não era isso que ela queria — disse ele.
Como denunciar

*Nomes foram alterados para preservar a identidade das vítimas

