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Fim do mandato

Udo Döhler reflete sobre os oito anos como prefeito de Joinville: "a cidade nunca esteve travada"

Em entrevista exclusiva ao "AN", o prefeito fala sobre as obras do rio Mathias, o Centro, licenciamentos e repete bordão da primeira campanha

18/12/2020 - 12h40

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Saavedra
Por Saavedra
foto mostra o prefeito de joinville Udo Döhler falando, usando uma máscara branca
Udo Döhler encerra mandato em dezembro de 2020
(Foto: )

Udo Döhler, prefeito de Joinville entre 2013 e 2020, aponta Joinville como “preparada” para as próximas décadas por causa do que considera avanços em saúde e educação. Na semana em que ele conclui o segundo mandato na prefeitura de Joinville, o prefeito mantém a frase símbolo da campanha, de que falta mais gestão do que dinheiro e cita a capacidade de o município contratar financiamento. 

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— Pode ser buscado R$ 1 bilhão sem arranhar absolutamente nada — diz. 

Udo também tenta desvincular sua administração da derrota do candidato governista, Fernando Krelling (MDB) na eleição municipal: a saída de lideranças do partido e abstenção teriam contribuído para o resultado. Na sequência, os principais trechos da entrevista ao AN.

A Notícia – Hoje, a frase ‘Há dinheiro, falta gestão’ seria repetida?

Udo Döhler - Com toda a segurança. Nunca houve falta de dinheiro, houve problema de gestão. Se colocarmos a lupa quando assumimos, em 2013, encontramos um passivo de R$ 300 milhões. Uma dívida que liquidamos em quatro anos, gradativamente, os maiores fornecedores levaram até quatro anos. Isso nos permitiu pagar os novos contratos com pontualidade, isso é gestão, e isso ensejou uma redução do preço de serviços e obras em 40%. Ou seja, hoje, nós pagamos quase a metade do preço do que pagávamos em 2013. Existem exemplos mais acentuados, como o caso da TI (tecnologia de informação). A TI que tínhamos em 2013 não nos dava informação nenhuma, a TI de hoje, que é nossa tem toda a informação. Portanto, não falta dinheiro, falta gestão. Nós passamos por três crises em oito anos, incluindo a crise em curso, da pandemia. Estamos cumprindo toda as nossas metas orçamentárias, vamos depositar o salário de dezembro e antecipamos o 13º. Se nós olharmos para a saúde, queríamos reduzir os gastos, que eram de 33% para 27%. Estamos em 38%, quase três vezes o nosso compromisso constitucional. Aí, não era para deixar para o Estado? Mas quem ia penar? O posto de saúde sem licença e sem remédio, fila dupla no hospital, leito no corredor. Mas tudo isso ainda é pouco, se nós não tivéssemos feito todos esses investimentos na saúde, a cidade estaria um caos com a pandemia.

AN – Mas em vários momentos, a prefeitura reconheceu que a pavimentação não andou como deveria, de que não tinha recurso. Faltou dinheiro.

Udo – Realmente dissemos que não estávamos conseguindo tapar buracos por falta de dinheiro. Mas em oito anos investimos, em saúde e educação, R$ 10 bilhões. Isso nos permitiu colocar Joinville em indicadores invejáveis no Ideb, é o único município que aplica o método Cingapura há mais de dois anos, a nossa juventude está sendo preparada. Nós não tínhamos uma só escola com laboratório de ciências. Hoje, todas têm. Há a robótica, as escolas foram climatizadas. Na creche, saímos de dez mil vagas para 23 mil. Isso significa que Joinville está preparada para as próximas décadas. Nós poderíamos ter investido menos em saúde e educação e mais em infraestrutura, no começo. Investimos mais em saúde e educação e deixamos a infraestrutura para o final.

foto mostra udo de perfil
"Isso nos permitiu pagar os novos contratos com pontualidade, e isso é gestão", diz Udo
(Foto: )

AN – E a Ponte Joinville (a obra foi prometida na campanha de 2012 e as obras ainda não começaram)?

Udo – A ponte está paga, o dinheiro está no caixa da prefeitura, US$ 40 milhões.

AN – Mas era para entregar a obra, não deixar dinheiro em caixa.

Udo – Mas não deu. Só o licenciamento final levou dois anos. A ponte poderia ter tido o licenciamento no modelo simplificado, não há agressão ao meio-ambiente.

AN – O senhor se refere às obras do rio Mathias como ‘pesadelo’. Mas não foi um erro da prefeitura?

Udo – Não, não foi um erro. Nós herdamos o rio Mathias, é um projeto que veio do governo anterior. Nós revisamos, seria um descuido devolver para a União os R$ 65 milhões a fundo perdido. O que nós fizemos: revisamos o projeto, mudando as calhas, senão custaria o dobro. E substituímos por um reservatório ao lado do rio Cachoeira. Infelizmente, tivemos duas empreiteiras que vinham pedindo aditivos o tempo todo, com intensidade maior em 2020.

AN – Mas mesmo depois da rescisão do contrato, em julho, as ruas continuaram deterioradas...

Udo – O que nos permitiu o rio Mathias: que não fossem perdidos os recursos a fundo perdido; que fossem executados 70% das obras e seremos reparados, o que dará para terminar a obra, com uma nova licitação.

AN – Mas os problemas vinham se arrastando há anos.

Udo – Todo o nosso esforço foi para concluir a obra. Se nós tivéssemos rescindido a obra no meio do caminho, onde ficaria esse dinheiro a fundo perdido? Tínhamos que usar esse recurso ao máximo possível. Tanto é que nos insurgimos contra o Ministério Público e assim por diante. Foram executadas 70% das obras, o que falta agora são obras leves, as pesadas foram feitas.

AN – O Centro da cidade foi um dos temas da campanha eleitoral por estar sujo e abandonado. O senhor concorda?

Udo – ‘A cidade está feia’? Nós estamos mostrando o ‘lado feio’ da cidade em comerciais na TV. Estamos mostrando o ‘feiúra’ das ruas que foram refeitas, mostramos o ‘lado feio’ da saúde, da educação.

AN – Mas não tem um vídeo desses do Centro?

Udo – Há R$ 40 milhões para projeto de revitalização do Centro, dinheiro que está entrando agora com a outorga onerosa e a transferência do potencial construtivo. Só que é dinheiro para refazer o Centro. Pode estar feio neste momento, mas vai ficar bonito. O Centro está resolvido. Há o investimento da Fiesc no Moinho Joinville, tem o projeto da Pedra Branca (Atiradores e Anita Garibaldi).

AN – Outro tema tem sido o travamento da cidade. Por que há atraso nos licenciamentos?

Udo – A cidade nunca esteve travada. É preciso consertar o equívoco de ‘impedir que os municípios vizinhos de Joinville cresçam’. Isso é um absurdo, isso é perverso. É preciso que os municípios cresçam, senão se transformam em cidades-dormitórios. Esse travamento é falso. O Perini Park tem 20 anos e deslanchou nos últimos dez anos. Mais empresas chegaram, a cidade cresceu.

AN – Qual o principal desafio do futuro prefeito?

Udo – Tem essa matriz do Novo de fazer processo seletivo, não entendo muito, mas previne clientelismo, a pressão política. Não fez alianças na eleição, ficou sozinho, mas vai ter que construir a maioria na Câmara, se fizer, não governa. E não adianta fazer só maioria simples, não é só eleger a mesa diretora com dez, mas tem o dia a dia, tem o voto qualificado, de dois terços. Eu respondi por um pedido de impeachment (alegação de descumprimento de liminares na saúde, pedido foi rejeitado pelos vereadores).

AN – Mas qual o desafio?

Udo – Um desafio será a alíquota da Previdência. Mandei a mensagem para a Câmara (proposta de elevação da alíquota dos servidores de 11% para 14%) e não foi acolhida. Se não for feita a revisão no ano que vem, não terá as negativas e poderá não receber recursos do governo federal.

AN – E os demais desafios?

Udo – A equação financeira está resolvida. A prefeitura tem capacidade gigantesca de endividamento e capacidade de pagamento mais do que generosa. Então, o prefeito pode alavancar recursos para investir em infraestrutura pelos próximos dez anos. Nós temos qualidade fiscal.

AN – Mas não há folga orçamentária na prefeitura, o senhor fala como se tivesse dinheiro em abundância...

Udo – Pode ser buscado R$ 1 bilhão sem arranhar absolutamente nada. Vamos deixar dinheiro em caixa e tem os investimentos de R$ 525 milhões da Águas de Joinville.

AN – O candidato do governo ficou em terceiro lugar na campanha, foi também o resultado do julgamento do atual governo. O que ocorreu?

Udo – Tivemos as dissidências (referências a quem deixou o MDB). Tânia Eberhardt fez 17,4 mil votos, Dalmo Claro fez 14,1 mil votos e tem a votação do Nelson Coelho. Nem vou colocar o Rodrigo Fachini (vice de Darci de Matos). Se pega dois terços desses votos... (o raciocínio de Udo é que se parte dos votos para candidatos que foram do MDB tivesse ido para Fernando Krelling, o candidato governista iria para o segundo turno). A abstenção foi de 25%. Bom, dizem que a ‘cidade está feia’, a ‘cidade está abandonada’, ‘não se faz investimento’, ‘está um caos’. Mas houve quem não quis votar: mas votariam em quem, na oposição? Ora, se eu estou insatisfeito com esse governo que ‘afundou’ a cidade, vou lá votar para mudar. No segundo turno, aí veio o voto de qualidade: os eleitores disseram ‘chega’, ‘não queremos o modelo tradicional’, não adianta você pegar 14 partidos políticos para administrar a cidade.

AN – Mas o desgaste da atual administração que contribuiu para tirar o candidato do MDB do segundo turno?

Udo – Zero. O prefeito não apareceu em nenhum ato público (na campanha). O prefeito não fez nenhuma declaração. A proposta do candidato não teve nenhum vínculo ou aconselhamento nosso.

AN – A ligação era evidente, Fernando era o candidato do governo.

Udo – Mas por que a Tânia saiu do partido, por que não ficou no partido? Por que o Dalmo foi candidato? Nós tivemos 15 candidatos. Não estou justificando aqui, mas o desfecho da eleição foi bom para a cidade, elegemos um candidato sem experiência política, como foi meu caso em 2012. É empreendedor, é íntegro, tem espírito voluntário, era isso que o eleitor quis. O que tinha do outro lado? Treze partidos políticos contra um partido que é novo, que só tinha um governador. Isso é o processo de mudança, o eleitor cansou. Você chegar e dizer que a saúde de Joinville ‘é uma vergonha’? Você está acusando então o governo federal, através do Ministério da Saúde, de estar mentindo, afinal, o ministério diz que o melhor IDH em saúde pública. Dizer que as notas do Ideb são uma ‘farsa’?

AN – Mas então o senhor quer dizer que a vitória do Adriano foi melhor do se vencesse o Fernando?

Udo – Não, não estou dizendo isso. No segundo turno, o eleitor quis a mudança. O candidato do Novo era muito menos conhecido na periferia da cidade do que o outro candidato, que havia sido candidato outras duas vezes, uma pessoa conhecida, deputado federal.

AN – O senhor permanece no MDB?

Udo – Sim, vou permanecer.

AN – Vai disputar nova eleição, Senado?

Udo – Eu disse que vou permanecer no partido. Mas vou terminar o mandato e em janeiro vou ver o que fazer. Vou manter a atuação empresarial, sou presidente do conselho da companhia, tenho atividades sociais, não vai me faltar ocupação.

AN – Então, nesse seu balanço de governo, o que aconteceu na saúde e educação ‘compensa’ o que não foi feito em outros setores?

Udo – Não. Saúde e educação, e agora na infraestrutura, com pavimentação, foram muito importantes, mas o mais importante do que tudo isso, foi que conseguimos prevenir desvios de conduta. Conseguimos construir uma gestão eficiente, limpa e não tivemos ninguém preso em oito anos, nenhuma licitação anulada. Esse é o saldo positivo. Se nós tivéssemos feito algo errado, com 14 partidos fazendo oposição, teriam achado.

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