Em meio ao período caótico que o Brasil vivia durante os anos 1950, um homem foi cotado para conciliar o espírito dos três poderes: Nereu Ramos, nascido em Lages. O político lageano era o quarto na linha de sucessão, e assumiu a presidência após a morte de Getúlio Vargas, o afastamento de Café Filho e o impedimento de Carlos Luz.

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Na época, o Brasil vivia um período conturbado, com tentativas de golpes de estado articuladas por opositores de Getúlio Vargas, como a União Democrática Nacional (UDN) e parte das Forças Armadas. Cercado pela crise, Vargas se suicidou com um tiro no peito. O vice-presidente Café Filho então assumiu a presidência, mas logo ficou doente e teve que ser internado. Em seguida, o presidente da Câmara dos Deputados Carlos Luz tomou o poder, mas como ele era alinhado aos militares, sofreu um impedimento.

Assim, Nereu Ramos ocupou a presidência por cerca de três meses: entre 11 de novembro de 1955 e 31 de janeiro de 1956. Em seu mandato, acalmou os espíritos golpistas e conseguiu terminar o mandato sem novas ameaças dos opositores. Chegou a prometer que devolveria o mandato ao ex-presidente internado, Café Filho, mas seus ministros impediram a decisão — era esperado que, uma vez recuperado, Café entregaria o poder aos golpistas e ajudaria no golpe de estado.

Veja fotos de Nereu Ramos

— À frente do governo nesta hora grave da nacionalidade, o ilustre [Nereu Ramos] certamente agirá com espírito conciliador, equilíbrio e bom senso para debelar esta crise sem derramamento de sangue — afirmou o ex-senador Lima Teixeira durante a posse de Nereu Ramos, segundo a Agência Senado.

Cumprido o mandato, Nereu Ramos passou a faixa presidencial para Juscelino Kubitscheck. O agora ex-presidente lageano havia conquistado a confiança do novo governante, sendo nomeado ministro da Justiça e dos Negócios Interiores do Brasil, cargo que assumiu até 1957, quando retornou ao Senado Federal.

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Presidente foi deputado, senador e governador de SC

Nereu Ramos nasceu dia 3 de setembro de 1888, em Lages. Ele foi o último presidente nascido antes da Proclamação da República, e era filho do também político Vidal Ramos. Se formou em direito e atuou tanto como advogado, quanto como jornalista em Santa Catarina.

Iniciou a carreira política como deputado estadual, em 1911. Anos depois, foi um dos fundadores e presidente do extinto Partido Liberal Catarinense (PLC), quando foi eleito deputado federal em 1930. Apesar disso, viu a Câmara dos Deputados ser fechada em razão da Revolução de 1930, ato que ele participou ativamente. Ficou no cargo até 1935.

Em seguida, foi governador de Santa Catarina, cargo que ocupou até 1945. Informações da Assembleia Legislativa (Alesc) indicam que, durante a gestão, investiu na educação, saúde e na infraestrutura — tendo revitalizado rodovias do Estado e construído o Departamento de Saúde Pública, em Florianópolis.

Em 1945, foi um dos fundadores do antigo Partido Social Democrático (PSD). Voltou ao Rio de Janeiro, antiga capital, para comandar tanto a Câmara dos Deputados, quanto o Senado Federal. Foi durante a 40ª Legislatura do Senado que acabou assumindo a presidência, após a linha de sucessão estabelecida com a morte de Getúlio Vargas.

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Morte em acidente gravíssimo de avião

Nereu Ramos morreu dia 16 de junho de 1958 após um grave desastre aéreo. O avião, um Convair CV-440 da extinta Cruzeiro do Sul, partia de Florianópolis com destino a São José dos Pinhais (PR). Durante o pouso, a aeronave se acidentou, deixando 18 mortos.

Além de Nereu Ramos, também morreram Jorge Lacerda, na época governador de Santa Catarina, e Leoberto Leal, na época deputado federal pelo Estado. O acidente chocou a população catarinense, que perdia figuras fortes da política local e nacional.

Nereu Ramos foi sepultado no Rio de Janeiro. Os restos mortais do ex-presidente lajeano foram transladados para Lages e estão no Memorial Nereu Ramos. No local, há um acervo de documentos e fotografias.

*Sob supervisão de Luana Amorim

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