A busca pelo reconhecimento do aipim da terra preta produzido em Itajaí como produto de Indicação Geográfica (IG) vem ganhando força com o apoio de produtores, entidades e instituições de pesquisa. O trabalho, iniciado pela Epagri, reúne também profissionais da gastronomia, gestores públicos e a comunidade, que reconhecem que o produto possui “uma cremosidade e sabor únicos”.

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Estudos realizados pelo Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia (Epagri/Ciram) e pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali) reforçam essa percepção. Análises feitas no laboratório de pesquisa em química da universidade compararam o aipim cultivado em solos turfosos de Itajaí com o produzido em solos minerais de cidades vizinhas.

Aipim é cultivado por agricultores de Itajaí

Os resultados apontaram que o produto local tem maior teor de amido, além de níveis mais elevados de umidade e lipídeos, evidenciando a influência direta do tipo de solo na qualidade nutricional.

Outro destaque é a maior concentração de compostos fenólicos no aipim cultivado em solo turfoso, substâncias importantes para o desenvolvimento da planta e também associadas a características como cor e aroma.

De acordo com a Epagri, esses dados ajudam a comprovar aquilo que os pesquisadores já comprovaram na na prática: o aipim de Itajaí se destaca pelo sabor e pela textura, o que deve fortalecer o processo de reconhecimento oficial do produto.

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Novas análises serão feitas

Uma nova rodada de análises está prevista para o segundo semestre de 2026, com o objetivo de reforçar a tese do aipim da terra preta e atender às exigências do INPI. Também estão programados novos estudos físico-químicos do tubérculo e do solo.

A professora Albertina Xavier da Rosa Corrêa, que coordena os trabalhos no laboratório de pesquisa em química (LaPeQ) da Universidade do Vale do Itajaí, explica que será repetido o processo comparativo entre o aipim cultivado em solo turfoso e mineral.

Nessa nova etapa, deve ser analisada uma amostra de aipim de cada propriedade e relacionada com o solo correspondente, o que torna a relação com o meio geográfico mais precisa

Já a gerente da Epagri/Ciram, Cristina Pandolfo, destaca que uma equipe foi formada para mapear as áreas de interesse com o uso de drones e coletar novas amostras de solo, com foco na análise do teor de carbono. Além disso, a gerente afirma que cada produto tem características próprias, o que pode influenciar no tempo necessário para adquirir a certificação.

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— Em outros processos, como dos vinhos de altitude e da maçã, a relação com o clima e relevo foram determinantes para certificar o produto. Como, neste caso, o foco é o solo onde a raiz é produzida, esta relação precisa ser fartamente documentada porque o INPI é um órgão bastante rigoroso e com certeza fará questionamentos — explica.

O que é o IG

A Indicação Geográfica (IG), é um selo que reconhece produtos com características específicas vinculadas ao seu local de origem. Além de valorizar a identidade regional, a certificação aumenta a competitividade no mercado, protege o modo de produção tradicional e pode gerar mais renda aos agricultores.

O registro é concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) que identifica a origem de um produto e garante que suas qualidades e características estão diretamente ligadas ao local onde é produzido.

No caso do aipim da terra preta, o selo busca reconhecer oficialmente a relação entre o alimento e o solo turfoso de Itajaí. O processo teve início em 2019 e envolve uma atuação conjunta da Epagri, Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Sebrae, Cooperar e da Secretaria Municipal de Agricultura.

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Cultivo é feito de forma familiar

De acordo com a Secretaria Municipal de Agricultura e Expansão Urbana, cerca de 90 hectares foram cultivados com o aipim da terra preta para a safra de 2026, que iniciou em 23 de março. Em Itajaí, o produto é cultivado nas regiões de Rio Novo, conhecida como Colônia Japonesa, e São Roque.

A produção do aipim da terra preta no município é baseada na agricultura familiar. O plantio e a colheita são feitos manualmente, assim como o controle das ervas daninhas, realizado por meio de capina. Ao todo, cerca de 25 produtores participam da atividade, muitos com tradição de décadas no cultivo.

— Sou produtor há oito anos, mas meu sogro já trabalha com aipim há 35 anos. Nossa expectativa é colher 60 toneladas nesta safra, que vem se desenvolvendo muito bem graças às condições climáticas favoráveis — conta o agricultor do bairro São Roque, Tiago Etges.