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    Reportagem Especial

    Violência doméstica: conheça histórias de mulheres que lutaram contra a morte

    Jovem de 21 anos de Içara encontrou na rede de apoio às vítimas um caminho para buscar ajuda e reconstruir a vida após violência. Em Joinville, mulher teve 40% do corpo queimado pelo ex-companheiro 

    29/02/2020 - 06h36 - Atualizada em: 29/02/2020 - 12h21

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    Lariane
    Por Lariane Cagnini
    feminicípio
    Vanessa encontrou na rede de apoio a força que precisava para manter a denúncia
    (Foto: )

    As marcas pelo corpo desapareceram em poucas semanas, mas ficaram para sempre na lembrança. Vanessa de Moura Raichaski, 21 anos, foi agredida no ano passado pelo então namorado, que foi preso semanas depois por descumprir a medida protetiva. O caso foi de rápida solução graças a uma rede de apoio, que encorajou a jovem de Içara, no Sul do Estado, a buscar a Justiça. Fortalecida, Vanessa acabou se tornando uma referência para amigas e conhecidas, que também decidiram romper o silêncio e denunciar a violência doméstica.

    O caso dela é semelhante a outros tantos: o homem extremamente romântico, cuidadoso, justifica o ciúme como uma forma de cuidado e zelo. Presentes, gentilezas e carinho são barganhados em troca de pequenas concessões: “essa saia é muito curta”, “o decote está demais”, “evita essa maquiagem”, “mas só digo isso porque te amo e quero te proteger”. Vanessa repassa as falas como se as tivesse ouvido ontem, enquanto revive os dois anos em que esteve ao lado do agressor.

    – Eu via aquilo como um príncipe, “ele está cuidado de mim”. Começou a ser cada vez mais abusivo, senha de rede social, onde eu ia tinha que pedir pra ele, chegou a um ponto que a roupa que eu ia colocar tinha que pedir para ele – recorda.

    Nos momentos de discordância, os abusos físicos também começaram a aparecer: empurrão, beliscão, mas logo vinha o pedido de desculpas e a jovem deixava passar. Foi na madrugada de 2 de agosto que, depois de questionar o namorado sobre uma mensagem encontrada no celular dele, é que o mundo desabou. Socos no rosto, chutes nas costas e costelas, tapas e a tentativa de sufocamento. Ao perceber que ele iria até o final, ela conta que fingiu um desmaio, e foi então que ele soltou o cordão que envolvia o pescoço dela.

    – Eu estava em pânico, mas continuei fingindo, até que ele saiu. Foi aí que levantei e fui pedir ajuda – conta.

    A omissão das testemunhas também é algo recorrente nos casos de violência doméstica. Os vizinhos de porta não atenderam aos gritos de socorro enquanto a jovem era agredida, e um deles só abriu a porta, contrariado, quando a jovem foi pedir o celular emprestado para acionar a polícia. Mesmo assim, disse para não ser envolvido e que não tinha ouvido nem visto nada.

    Com a chegada das viaturas, Vanessa sucumbiu e caiu no meio da rua. Foi socorrida e levada de ambulância até o hospital. No dia seguinte, registrou boletim de ocorrência e fez exame de corpo de delito. Pediu a medida protetiva. Ela também precisou ser internada em um centro de atendimento psicológico em uma cidade vizinha, pois não conseguia retomar a rotina.

    – Passou dois dias e ele começou a ir até a saída do meu trabalho, mandar mensagem. Eu ficava acordada à noite, pois tinha medo que ele invadisse minha casa – relembra.

    Vanessa chegou a pensar em retirar o boletim de ocorrência, até que recebeu o atendimento da Rede Catarina. O programa tinha sido recém-implantado na cidade, e toda semana uma policial feminina ia até a casa da vítima para ficar a par dos acontecimentos, além de rondas diárias. Cada ameaça, cada tentativa de aproximação, gerava um novo registro contra o agressor, que acabou sendo preso em novembro de 2019.

    – Eu nunca tinha passado por nada disso, era uma coisa distante, a gente vê na TV e acha que nunca vai acontecer conosco. Depois que falei, o que apareceu de amiga contando sobre elas. Uma fui junto na delegacia registrar boletim. Falar está ajudando as mulheres, e não tem porque ter medo, é preciso denunciar – encoraja a jovem.

    Desde então, Vanessa também participa de grupos e fóruns na internet sobre o tema. As conversas ajudam na recuperação da autoestima, em evitar sentimentos como a culpa e o arrependimento. A garota de 21 anos também está se redescobrindo. Quer voltar a estudar, provavelmente psicologia, e escrever uma história onde ela seja protagonista:

    – Não vou dizer que estou 100%, pois estou me descobrindo de novo. Mas posso dizer que não tenho mais medo, que tenho uma rede de apoio, de pessoas que acreditam em mim. A gente sempre fala no grupo “se não tem para onde ir, vem para a minha casa, mas sai dai”. É assim, uma ajudando a outra para mudar essa história de violência.

    Em casa, na rua ou no trabalho, casos de violência se repetem

    A violência contra a mulher não escolhe raça, idade ou credo, e pode ocorrer em qualquer lugar. A diretora de escola Elenir de Siqueira Fontão, 49 anos, foi morta a facadas pelo ex-namorado dentro da instituição de ensino onde atuava, em Florianópolis, na tarde do último dia 19. Nenhum local parece seguro, nem mesmo a própria casa. Aos 54 anos, Maria de Fátima Cecílio luta há cinco deles para se recuperar do ataque que sofreu do ex-companheiro, que jogou óleo quente e ácido sobre ela.

    As marcas físicas são evidentes e impossíveis de serem apagadas. Maria teve 40% do corpo queimado e ficou de janeiro a dezembro de 2015 internada em um hospital em Joinville, onde morava. O ataque foi na madrugada do dia 28 de janeiro, e ela já estava separada do agressor. Diferente de outros casos, o homem nunca havia feito ameaças anteriores nos nove anos em que viveram juntos.

    – Ele era uma pessoa supertranquila, vivia tocando violão, cantando, só que ele tinha umas manias esquisitas. Era extremamente egoísta, o que era dele era dele, o que era meu, era dele. Não era de elogiar, não gostava de sair, sempre muito quieto – descreve o ex-companheiro.

    violência
    Maria de Fátima conta com o apoio da filha Camila para seguir adiante
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    Após alguns desentendimentos, principalmente porque o homem não contribuía financeiramente em casa, Maria pediu para ele sair. Ainda ajudou com o enxoval para que ele pudesse ir viver em outro lugar, rompeu o compromisso e seguiu com a vida. Mas o agressor não entendeu dessa maneira, e decidiu ataca a ex-companheira.

    – Ele bateu e quando fui na porta do quarto, ele estava parado sorrindo, levei um susto. Ele disse que tinha vindo me dar um presente, e jogou de frente. Na hora eu não senti, achei que era frio, e depois virei o rosto e tentei proteger com o braço, e então ele jogou o ácido – detalha a mulher.

    A filha do primeiro casamento de Maria, Camila Cabral, hoje com 29 anos, estava no quarto ao lado e acordou com os gritos da mãe. Elas não tinham trocado a fechadura da casa, e o homem entrou durante a madrugada. Esquentou a panela com óleo, foi até o quarto e acordou Maria.

    – Eu estava com uma sensação estranha, convidei a mãe para dormir comigo, ela disse que não e me deu a chave para trancar meu quarto. Ainda falei para a gente colocar um cadeado na porta da casa. Até ouvi alguém mexer na minha maçaneta um pouco antes, mas quando a gente ia imaginar que ele iria fazer algo? – relembra Camila.

    Às 4h, a jovem ouviu os gritos e foi ao encontro da mãe. Entrou no quarto às pressas e acabou queimando o pé, já que o óleo e o ácido estavam espalhados pelo chão. Maria foi socorrida e passadas 48 horas, o agressor se apresentou na delegacia. Ele foi preso e no julgamento, em novembro de 2015, foi condenado a 22 anos em regime fechado.

    Cada dia é uma pequena vitória para Maria

    De lá para cá, cada dia que passa é uma pequena vitória para Maria. Ela acabou perdendo os dois olhos, um no dia do ataque e o outro após uma série de tentativas de restabelecer a visão. Ficou quatro anos com traqueostomia (procedimento cirúrgico no pescoço em casos de dificuldade de respiração), precisou reaprender a falar, andar e se locomover, já que agora não enxerga mais. Passou por mais de 200 cirurgias, e o tratamento está longe de terminar.

    Devido à gravidade dos ferimentos, alguns profissionais da saúde chegaram a acreditar que ela não iria sobreviver. A batalha continua, diariamente, para vencer a dor constante e controlar as lembranças, as crises de ansiedade e a depressão. O amor dos filhos e netos é que mantém Maria de pé. Mesmo com uma fé inabalável, ela questiona o porquê de ter passado por tudo:

    – Tem hora que não tenho vontade de fazer nada, e às vezes eu choro. Ele está preso, mas está lá, enxergando, lendo, escrevendo e eu estou aqui, presa em vida.

    São cerca de 10 medicamentos todos os dias, sessões de fisioterapia, com psicóloga e atendimento psiquiátrico, além dos demais cuidados com a saúde. A rotina é intensa e sempre acompanhada de técnicas de enfermagem, que hoje são olhos de Maria para o mundo. O receio de sair à rua ainda é grande, barulhos assustam, e cada pequeno avanço é uma esperança.

    Camila é quem acompanha cada passo do processo contra o agressor. A possibilidade de que ele tenha a pena reduzida ou migre para o semiaberto causa desconforto na família. Além da tentativa de homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel e tornar impossível a defesa da vítima), ele também cumpre pena por lesão corporal contra Camila e por ameaça ao ex-cunhado.

    – É um milagre ela estar viva, mas ao mesmo tempo não pode fazer nada sozinha, fica presa, e é muito difícil porque ela sempre foi muito vaidosa – lamenta a filha.

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