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Volta às aulas: entenda como as escolas de SC se preparam para o retorno  

Depois de quase um ano confinados, longe do convívio escolar, estudantes de escolas das redes pública e privada devem retornar às salas de aula em fevereiro 

26/01/2021 - 14h44 - Atualizada em: 30/01/2021 - 17h56

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Por Redação NSC
Volta às aulas: entenda como as escolas de SC se preparam para o retorno
Redes pública e privada devem voltar a receber alunos em fevereiro
(Foto: )

No final do dia 18 de março de 2020, todas as escolas das redes pública e privada de Santa Catarina fecharam as portas para conter o avanço do novo coronavírus no Estado. O decreto, publicado um dia antes pelo governador Carlos Moisés, demandava a suspensão das atividades escolares por um período inicial de 30 dias.

Na época, talvez nem mesmo os mais pessimistas poderiam prever que a pandemia se estenderia por tanto tempo e que a rotina de crianças e adultos seria radicalmente modificada. O tempo foi passando e o restante do calendário letivo foi levado adiante de forma totalmente remota – ainda que um breve retorno tenha sido ensaiado no último trimestre do ano passado. Dentro de casa, alunos de todas as idades tiveram que aprender e brincar distantes de seus colegas e professores. As consequências psicológicas desse confinamento repentino foram notadas com frequência por profissionais da saúde e da educação: ansiedade, irritação, vício em eletrônicos e até casos de depressão na infância.

Onze meses depois, mais de 1 milhão de alunos do ensino fundamental e médio se preparam para finalmente retornar às salas de aula de Santa Catarina. A maioria das instituições de ensino privadas agendou a volta às aulas para o dia 8 de fevereiro, uma segunda-feira. Já a rede estadual deve receber alunos a partir do dia 18 de fevereiro, numa quinta-feira, dois dias após o feriado de Carnaval. Nas escolas municipais, as datas devem variar: na Capital, a data escolhida foi 10 de fevereiro.

Retorno cauteloso

Mas apesar do alento trazido pelo início da vacinação contra a Covid-19 no Brasil, a pandemia segue sendo uma dura realidade em todo o país, e a retomada das aulas presenciais em território catarinense vai acontecer sob uma série de regras e instruções de segurança sanitária. O retorno, inclusive, não é obrigatório: pais de alunos matriculados tanto na rede pública quanto privada têm o direito de continuar com seus filhos em casa mediante a assinatura de termos de compromisso.

Tais protocolos de segurança são essenciais para garantir o mínimo de risco para os estudantes e profissionais que trabalham nas instituições de ensino. O Ministério da Saúde já confirmou que trabalhadores da área estão entre os grupos prioritários para receber a vacina contra a Covid-19, mas ainda não está claro quando ela deve começar a ser aplicada.

A Secretaria de Estado de Educação (SED) desenvolveu três modelos de trabalho que devem ser adotados conforme a estrutura e condições de cada instituição de ensino: 100% presencial (modelo 1), híbrido, com alternância entre aulas presenciais e remotas, dividindo turmas caso necessário (modelo 2) ou 100% remoto, no caso de estudantes que fazem parte de grupo de risco ou cujos pais preferirem continuar mantendo a educação dentro de casa (modelo 3). O uso de máscara será obrigatório e as carteiras devem ficar a uma distância mínima de 1,5 metro uma da outra.

Além disso, a entrada e saída de alunos deverá ser escalonada. Não será possível usar bebedouros; cada aluno precisa trazer água de casa. Materiais, como lápis e borrachas, não podem ser trocados ou emprestados em hipótese alguma. Professores devem ter seus horários concentrados para diminuir o número de trocas de salas (conheça mais detalhes na tabela). Essas e outras regras visam garantir um retorno gradual, com riscos minimizados, ao que era visto como “normal” até março do ano passado.

Preocupação com contágio

A volta às aulas diante de um alto número de mortes diárias por Covid-19 no Brasil pode gerar polêmica, mas é embasada em estudos de casos que parecem demonstrar que escolas não são locais de alto contágio pelo novo coronavírus e que põem na balança o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes. Um artigo publicado no final de outubro do ano passado na revista Nature, renomado periódico científico internacional, relatou como o retorno às aulas na Itália e no estado de Vitória do Sul, na Austrália, resultaram em taxas muito baixas de transmissão da Covid-19 em 2020.

Em dezembro, o Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina formalizou um parecer favorável ao retorno às aulas no Estado, argumentando que “as crianças não são as principais disseminadoras da Covid-19”, que elas se infectam “de duas a cinco vezes menos que os adultos” e que complicações nessa idade são muito raras.

O pediatra e sanitarista Daniel Becker, um dos mais reconhecidos profissionais da área no Brasil, é outro que vem argumentando com frequência, na imprensa e nas redes sociais, a favor do retorno às aulas. Ele considerou 2020 um ano “ catastrófico” para a educação e o desenvolvimento infantil, e chamou de hipocrisia manter escolas fechadas enquanto o comércio e outros setores seguem funcionando.

Isolamento trouxe prejuízo

Para a psicóloga Elisa Lobe Signore, que trabalha com crianças e adolescentes em uma ONG, a Associação Pedagógica Eurípedes Barsanulfo, e também na escola particular Barão do Rio Branco, em Blumenau, a volta às aulas encerra um período de dificuldades e desafios para crianças, pais e professores. O confinamento repentino trouxe uma aproximação maior no núcleo familiar, mas exigiu criatividade e paciência para reorganizar a rotina e auxiliar os estudos de cada criança e adolescente.

— O isolamento trouxe um prejuízo grande para as crianças e adolescentes, sem contato com seus pares, sem brincar e interagir com seus colegas, o que é essencial para o desenvolvimento e o aprendizado. A convivência familiar também mudou. A maioria dos pais, mesmo se esforçando muito, não conseguiu assumir o papel de mediador que o ensino remoto para crianças acabou exigindo. Tivemos de nos adaptar muito rápido a essa nova realidade — afirma a psicóloga.

Na ONG, que atende crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade no contraturno escolar, a situação tem sido ainda pior:

— A adesão às aulas on-line é muito baixa. Além de não ter nem mesmo acesso a um computador ou celular, as famílias dessas crianças têm outras prioridades, como garantir o sustento e a comida da família. Afinal, muitas delas garantem as suas refeições na escola — argumenta Signore.

Já para a psicopedagoga e psicóloga Jane Meri Bunn Felimberti, do Colégio Santa Rosa de Lima, em Lages, muitos estudantes conseguiram acompanhar as aulas à distância, tendo, inclusive, um desempenho acima da média.

— Boa parte dos alunos precisa de um professor junto deles para adquirir novos conhecimentos. E é realmente muito complicado alfabetizar uma criança a distância. Falta a interação que só a sala de aula proporciona — explica Felimberti.

Dependendo de cada caso, a psicopedagoga recomendou desde o relacionamento com algumas poucas crianças, formando as chamadas bolhas, ou pelo menos o contato com amigos, no caso de adolescentes, por telefone. Também sugeriu o desenvolvimento de atividades lúdicas em família sem o uso de telas e eletrônicos, como jogos de tabuleiro.

Os professores também perceberam um aumento na carga de trabalho durante o ano de 2020, já que passaram a estar disponíveis para atender os alunos mesmo fora do horário de aula.

— Para muitos alunos, o único canal de contato remoto era o Whatsapp do celular dos pais, que eles só podiam usar quando eles não estavam trabalhando: à noite, no fim de semana… e os professores tinham de responder, não dava pra deixar essas crianças na mão — conta a professora do ensino fundamental da rede municipal de Blumenau, Talita Matias Ventura.

Por outro lado, porém, a professora julga que o retorno às aulas em fevereiro ainda é precoce.

— As escolas vão retornar em uma situação de tensão, sendo que a vacina já está chegando. Todos os professores estão ansiosos para voltar à sala de aula, mas sinto que ainda não há segurança sanitária para isso, pelo menos na rede pública — avalia.

A Secretaria do Estado de Educação anunciou no final do ano passado investimentos de R$ 8 milhões para compra de equipamentos de proteção individual (EPIs) para uso na rede pública estadual durante a pandemia. A lista inclui um milhão de máscaras, dispensers e tótens para distribuição de álcool gel, 3,5 mil termômetros digitais infravermelhos e 22 mil protetores faciais. Outras 20 milhões de máscaras já haviam sido adquiridas, além de doações vindas da Secretaria de Estado da Saúde (SES) e da Defesa Civil.

Novo hábitos, nova escola

A maioria das escolas deve adotar um método híbrido de trabalho, o Modelo 2, proposto pela Secretaria de Estado de Educação (SED), dividindo turmas para garantir o distanciamento mínimo de 1,5 metro entre as carteiras. Cada um desses grupos divididos deve frequentar a escola em semanas alternadas, o que a SED vem intitulando de Tempo Casa e Tempo Escola. Longe do ambiente escolar, a ideia é que as crianças acompanhem os conteúdos por vídeo ou por outros meios, inclusive não digitais.

Algo que é essencial, segundo as profissionais entrevistadas, é que as famílias deem bom exemplo para as crianças e adolescentes.

— As famílias precisam preparar os filhos para essa nova escola, que mudou. Não pode emprestar material, não pode sentar junto no recreio. Esses hábitos cada família precisa ajudar a construir. Se os pais fazem o que precisa ser feito, usam máscara, higienizam as mãos, a criança entende que é importante e fazer a mesma coisa — completa Elisa Lobe Signore, psicóloga da Barão do Rio Branco.

— Os pais precisam orientar. Se antes era pra não esquecer o guarda-chuva e o casaco, agora precisa lembrar da máscara, de levar sua garrafinha de água. Voltar com as aulas agora terá riscos, mas acredito que estamos bem preparados — afirma Felimberti.

Volta às aulas: entenda como as escolas de se preparam para o retorno
Volta às aulas está prevista para fevereiro em todo o Estado
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Regras de conduta para unidades de ensino

• Cada unidade de ensino da rede pública e privada deve definir critérios para alternar os grupos de estudantes dentro das unidades de ensino para que seja mantido distanciamento de 1,5 metro em todos os ambientes;

• Nas áreas classificadas como em risco gravíssimo para a Covid-19, as atividades presenciais nas escolas ficam limitadas a até 50% das matrículas ativas por turno. Para as classificações grave, alto e moderado, não há restrições;

• Após o resultado da divulgação do mapa de risco, as escolas têm até dois dias para fazer as adequações necessárias;

• Estudantes e servidores que se enquadram nos grupos de risco para a Covid-19 devem ser mantidos em atividades remotas;

• O responsável legal pelo estudante pode optar pelas atividades remotas quando a instituição oferecer essa opção. Para isso, deve assinar um termo de responsabilidade junto à escola;

• As bibliotecas devem ter restrição de 50% de ocupação em regiões de risco gravíssimo, 75% em risco grave e nenhum limite para os riscos alto e moderado, desde que respeitado o distanciamento de 1,5 metro;

• Cada município e cada escola deve elaborar o próprio Plano de Contingência Escolar para a Covid-19. Esse documento precisa ser aprovado no Comitê Municipal de Gerenciamento da Pandemia de Covid-19 para que a unidade seja autorizada a ter atividades presenciais;

• No Plano de Contingência Escolar deve estar prevista a possibilidade de a região chegar ao nível gravíssimo e como a unidade vai se organizar neste caso;

• Em caso de surto de Covid-19 na escola, a instituição deve informar as autoridades de Vigilância Epidemiológica e Sanitária;

• O retorno às atividades escolares presenciais obedecerá obrigatoriamente a todos os regramentos estabelecidos pela Secretaria de Estado da Saúde e por atos de autoridade sanitária e educacional federal, estadual ou municipal.

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Modelos de trabalho a serem adotados nas escolas

As escolas das redes pública e privada poderão trabalhar em cima de três modelos:

Modelo 1

Escolas cujo tamanho das salas de aula comporta o atendimento de todos os matriculados, respeitando o distanciamento social, de 1,5 metro de distância entre as carteiras) poderão oferecer aulas presenciais todos os dias.

Modelo 2

Deve ser o modelo mais usado no começo do retorno às aulas. Prevê a alternância entre o Tempo Casa e Tempo Escola, ou seja, as turmas serão divididas para atender a capacidade das salas de aula com distanciamento social. Na prática, o aluno deve passar uma semana indo à escola e outra semana em casa, acompanhando as aulas por vídeo. O atendimento presencial deve ocorrer duas ou três vezes por semana nos anos iniciais e todos os dias nos anos finais e ensino médio.

Modelo 3

Aulas 100% remotas para estudantes que fazem parte de grupos de risco ou com aqueles cujos pais optarem pelo ensino remoto (e assinarem um termo de compromisso). Esses alunos devem ser agrupados em escolas polo.

Fonte: Secretaria de Estado de Educação (SED)

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