Condenação de Bolsonaro e réus da trama golpista selou julgamento histórico e impacta política

Ex-presidente Jair Bolsonaro recebeu pena de 27 anos de prisão em capítulo que sacramentou desfecho da tentativa de ruptura democrática liderada por seu grupo político

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Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por crimes ligados a golpe de Estado (Foto: Tom Molina, STF)

Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por crimes ligados a golpe de Estado (Foto: Tom Molina, STF)

A trama golpista que ameaçou a democracia com planos de assassinatos de autoridades, minuta de ruptura com apoio de militares e um levante com destruição de prédios públicos em 8 de janeiro de 2023 chegou aos capítulos finais no julgamento concluído esta semana no Supremo Tribunal Federal (STF). O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e os outros sete réus que compuseram o núcleo crucial do golpe foram condenados por cinco crimes ligados à tentativa de golpe, com penas acima de 20 anos de prisão para cinco dos oito réus (confira abaixo todas as penas e réus condenados).

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Condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, Bolsonaro tornou-se o primeiro ex-presidente condenado por tentativa de golpe. Ele precisará cumprir a pena em regime inicial fechado. O local em que isso irá ocorrer ainda será definido. Atualmente, o ex-presidente está em prisão domiciliar como medida cautelar em outro inquérito, que investiga tentativa de coação e obstrução da investigação sobre golpe. O cumprimento da pena deve começar quando não houver mais possibilidade de recursos. A defesa do ex-presidente ainda pode apresentar embargos de declaração para esclarecer pontos da sentença, mas após a análise desses pontos a tramitação do cargo chega ao fim e o presidente pode ser alvo de ordem de prisão para cumprir a pena.

Outra possibilidade pode ser uma tentativa da defesa de apresentar embargos infringentes, que permite pedir uma revisão do caso no plenário do STF. Embora a jurisprudência atual exija dois votos divergentes — e a maioria dos réus da trama golpista só obtiveram um, do ministro Luiz Fux —, especialistas apontam que essa poderia ser uma discussão aberta proposta pela defesa.

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Bolsonaro ainda foi alvo de uma multa que pode ultrapassar os R$ 300 mil. Além disso, ele e os demais réus, junto com todos os demais réus dos atos de 8 de janeiro, serão responsáveis por uma indenização de R$ 30 milhões pelos prejuízos aos prédios públicos.

A condenação da maioria dos réus ocorreu por 4 votos a 1 na Primeira Turma do STF, com posições favoráveis dos ministros Alexandre de Moraes (relator do caso), Flávio Dino, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin. O ministro Luiz Fux, que fez um voto divergente de mais de 13 horas de duração, foi o único a pedir a absolvição do ex-presidente e de outros cinco réus — ele concordou com a condenação apenas do ex-ajudante ordens Mauro Cid e do ex-ministro da Casa Civil e candidato a vice na chapa de Bolsonaro, Walter Braga Netto.

Veja fotos do julgamento de Bolsonaro

Por ter firmado acordo de delação premiada que colaborou com o avanço da investigação e a obtenção de provas, o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, teve pena de apenas 2 anos, em regime aberto. Ele também recebeu benefícios como restituição de bens e valores apreendidos, a extensão dos benefícios ao pai, esposa e filha e garantia de segurança com apoio da Polícia Federal.

Já o ex-chefe da Abin Alexandre Ramagem foi condenado apenas por três dos cinco crimes acusados, sem ser responsabilizado por dano ao patrimônio público e deterioração de patrimônio tombado. Isso se deve ao fato de que os atos de 8 de janeiro ocorreram após Ramagem ser diplomado deputado federal. Por conta disso, a investigação desses crimes foi suspensa pela Câmara, e ele foi responsabilizado apenas pelos fatos anteriores ao mandato. Em razão disso, teve a segunda menor pena entre os réus, com 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão, mais multa.

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O advogado Ruy Espíndola, professor de Direito Constitucional e membro da Academia Catarinense de Letras Jurídicas, considerou o inquérito e a denúncia bem construídos, com elementos sólidos sobre os fatos da trama golpista, e uma fase de instrução transparente, com todas as etapas inclusive televisionadas.

— Foi um julgamento histórico, em que a Suprema Corte manteve sua independência, não curvando a espinha a governos estrangeiros, dando uma lição ao mundo e aos próprios Estados Unidos — avalia.

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Bastidores do julgamento

A condenação dos réus surge como uma resposta institucional aos que tentaram passar por cima das regras do jogo democrático e ir além das profanadas quatro linhas da Constituição, perpetuando um grupo político no poder. O capítulo que definiu o desfecho da trama golpista foi marcado por cinco dias de julgamento na Primeira Turma do Supremo, nas últimas duas semanas.

Ao longo dos votos, os ministros deixaram claro a gravidade dos fatos investigados e o risco sofrido pelo país com a tentativa de golpe. O ex-presidente Bolsonaro foi apontado pelos quatro ministros como o líder da organização criminosa que tramou os eventos para impedir a transição de governo. A ministra Cármen Lúcia, que deu o voto decisivo

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para condenar o ex-presidente, afirmou que ele não foi tragado para os fatos, como a defesa tentou sugerir, mas era o “causador e líder” da organização. Cristiano Zanin, último a votar, apontou Bolsonaro como “o maior beneficiado dos atos” (veja frases dos ministros abaixo).

O julgamento ocorreu sem a presença de Bolsonaro, que preferiu não acompanhar o julgamento por questões de saúde, segundo a defesa. Após o resultado, a defesa de Bolsonaro afirmou considerar a pena “absurdamente excessiva e desproporcional”, negou que o ex-presidente tenha participado de qualquer plano e prometeu recorrer da decisão, “inclusive no âmbito internacional”.

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Os efeitos políticos sobre o bolsonarismo

A condenação de Bolsonaro põe um ponto final no episódio da trama golpista, mas deve produzir novos capítulos no enredo político. Já em prisão domiciliar, o ex-presidente tem recebido uma romaria de aliados em sua casa em Brasília para discutir definições para as eleições de 2026. Entre os assuntos discutidos com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, estão os nomes dos candidatos ao Senado por Santa Catarina no próximo ano. A candidatura do filho de Jair, Carlos Bolsonaro, em uma das duas vagas do partido no Estado catarinense seria um dos desejos do ex-presidente e que pode emplacar na chapa do PL.

O governador Jorginho Mello (PL) divulgou vídeo na sexta-feira (12) reforçando apoio a Bolsonaro e criticando a condenação. O chefe do Executivo se baseou no voto favorável do ministro Luiz Fux, citando um suposto “autogolpe” e o suposto cerceamento de defesa como inconsistências do julgamento.

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— É urgente que o Congresso vote a anistia, que a direita se una — defendeu.

No campo nacional, a principal definição do bolsonarismo envolve a definição do sucessor do ex-presidente na disputa presidencial de 2026. Favorito ao posto, o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) mergulhou de cabeça na articulação em defesa da anistia de Bolsonaro, em busca da bênção do ex-presidente para a corrida presidencial, e deve voltar à linha de frente da agenda da anistia na próxima semana. Dos Estados Unidos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro continua a cobrar sanções norte-americanas em razão da condenação do pai e tenta se viabilizar como alternativa de nome ao bolsonarismo mais radical para herdar o espólio político do pai, agora inelegível até oito anos após o fim do cumprimento da pena pela trama golpista.

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A condenação de Bolsonaro também movimentou o campo político internacional nas relações com o Brasil. Horas após a decisão, o presidente norte-americano Donald Trump lamentou a condenação e, por meio do secretário de Estado Marco Rubio, indicou que pretende responder “de forma adequada” à “caça às bruxas” que, na avaliação dele, vem sendo feita ao ex-presidente e aliado Bolsonaro. O governo Lula

respondeu de imediato, com uma carta exaltando a resposta do Judiciário à tentativa de golpe e afirmando que ameaças “não intimadarão a nossa democracia”.

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