Derrota e fuga de Flávio Bolsonaro embaralham futuro da direita e abrem disputa por liderança para 2030

Saída do candidato derrotado do país e carta em que questiona resultado das urnas gerou reações na direita e pôs em evidência nomes como Tarcísio de Freitas

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Flávio Bolsonaro no momento da chegada aos EUA ao lado da família após derrota no segundo turno das eleições (Foto: Eva Marie Uzcategui, Reuters)

A direita brasileira sai das urnas diante de um aparente paradoxo. De um lado, o bolsonarismo saiu fortalecido após o PL eleger 121 deputados federais, 19 senadores e cinco governadores, garantindo a maior bancada na Câmara e no Senado e governos estaduais em regiões inteiras, como o Sul. Um resultado expressivo que tem em última instância a fidelidade da direita ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

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Em contrapartida, a derrota de Flávio Bolsonaro no 2º turno de virada para Lula, a fuga de Flávio para os Estados Unidos e a carta de teor golpista divulgada por ele e depois apagada, autodeclarando-se “presidente eleito”, causou mal-estar na oposição e criou uma interrogação em torno do bolsonarismo. A reviravolta levantou a dúvida sobre um possível afastamento de partidos e parlamentares da direita em relação à família Bolsonaro e ao discurso de questionamento das eleições.

Derrotada na eleição presidencial, mas vitoriosa no Congresso, a direita sai das urnas com o problema sobre quem dará direção a esse campo político. Entre a fidelidade à família Bolsonaro e a busca por uma liderança capaz de disputar o poder em 2030, a oposição começa a lidar com a recalcular a rota após os resultados.

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A semana agitada de derrota e fuga de Flávio Bolsonaro fez com que algumas lideranças da direita preferissem o silêncio, mas alguns nomes já deram sinais do que podem ser os próximos passos do campo político. O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), divulgou um vídeo afirmando que “a eleição passou”, mas que “o Brasil continua”, defendendo bandeiras como controle fiscal e combate ao crime. Após Flávio divulgar a carta nos Estados Unidos, Tarcísio fez outra manifestação, em que afirmou “entender o sentimento de Flávio”, mas afirmando que “o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”.

Tarcisio é apontado como favorito para liderar uma possível candidatura a presidente pelo campo da direita em 2030. Ele já disputava a indicação no campo bolsonarista em 2026, mas recuou após Jair Bolsonaro decidir lançar o filho Flávio como candidato a presidente, o que fez Tarcisio decidir concorrer à reeleição em São Paulo.

Apesar de ter a simpatia de boa parte do campo da direita e do setor produtivo, ele deve disputar espaço nos próximos anos com nomes como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e lideranças ligadas a partidos mais próximos do chamado Centrão, como o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD). Tudo isso em meio ao sempre imprevisível caminho dos membros da família Bolsonaro, que terá os outros dois filhos em mandatos por Santa Catarina — Carlos, como senador, e Jair Renan, deputado federal.

Autocrítica relação com família Bolsonaro

Em uma semana pós-eleição e tumultuada no bolsonarismo com a fuga de Flávio, os deputados federais catarinenses eleitos pelo PL evitaram entrevistas e mesmo publicações nas redes sociais. Em uma das poucas publicações, coube à deputada estadual reeleita Ana Campagnolo (PL) afirmar que “a direita apostou tudo” na eleição presidencial e cobrou uma “autocrítica” da direita.

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“Sete eleições, eles [PT] levaram seis. Será que nós vamos continuar acreditando que a solução é simplesmente eleger um presidente da República, só isso? A principal questão sobre a qual a direita deveria se debruçar não é se houve interferência no resultado da eleição, mas quais são os meios de ação que nós temos para reverter esse quadro tenebroso que está desenhado para nosso país, onde eles têm esse poder, e qual é o saldo de tudo isso”, questionou a parlamentar.

O governador Jorginho Mello também engrossou o coro das lideranças que pregaram cautela após a derrota e a fuga de Flávio. Em um vídeo nas redes sociais, afirmou que “a eleição terminou” e que “ainda restam questionamentos que precisam ser devidamente esclarecidos”, mas sustentou que às instituições cabe promover uma pacificação que o momento exige.

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“De minha parte, seguirei cumprindo a missão da qual jamais abrirei mão. Defendendo os interesses de SC, com firmeza e responsabilidade, respeito as instituições e o resultado final das urnas”, afirmou.

O cientista político Tiago Daher Padovezi Borges, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), avalia que a direita tem uma maioria expressiva no Congresso. Um predomínio insuficiente para fazer tudo que o grupo vem anunciando, mas confortável para quem pretende formar uma oposição forte.

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“Eles vão construir uma oposição como se espera, e vão ter que lidar com um problema interno que é a questão dos Bolsonaro, sobre como lidam com isso. Você teve uma derrota muito dramática, e vão ter que lidar com isso, dada a conjuntura da não aceitação por conta do candidato, e não do partido. Curiosamente, vão ter que lidar com uma sombra que eles sempre cultivam, que é uma desconfiança eterna em relação à derrota”, afirma, lembrando que um grupo ligado ao bolsonarismo costuma insistir no discurso de colocar um ponto de interrogação diante de derrotas de seus aliados.

Tarcísio como candidato a líder

O professor cita que a derrota de Flávio foi muito impactante por ter apelo das ruas e afirma que havia a expectativa de Flávio ter algum tipo de protagonismo na reorganização da direita, mas que ele decidiu “jogar fora” do sistema político, como Eduardo Bolsonaro já faz nos Estados Unidos.

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“Possivelmente eles vão empurrando essa questão sem resolver, nos primeiros anos, vão lidar com essa duplicidade de ter alguém jogando fora das quatro linhas, e aí você não pode criticar porque tem a narrativa da perseguição, só que você vai ter gente querendo jogar o jogo de fato na direita, vai ter gente que vai jogar para criar oposição, dependendo da pressão vai votar com o governo, como foi na escala 6×1, e o jogo político é mais complexo e dinâmico”, projeta.

O presidente do PSD em SC, Eron Giordani, avalia que os partidos de centro-direita foram os maiores prejudicados por essa nacionalização da eleição e que eles precisarão reconquistar o espaço ocupado pelo PL. Para 2030, a união em torno de Tarcísio pode ser uma demanda geral dessas legendas.

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“Tarcísio vai tentar furar essa barreira com apoio do PL. Não tendo esse apoio, ele vai ser pressionado para disputar em outra corrente. Não vejo ele desperdiçando essa oportunidade”, avalia.

O cientista político da UFSC frisa que o clã Bolsonaro não costuma confiar em integrantes fora da família e que, caso a direita decida se unir em torno de Tarcísio, seria preciso uma discussão interna para ver se aceitariam o nome dele. A aposta do cientista político é que Tarcísio deva optar por um distanciamento silencioso e progressivo da família Bolsonaro, mas sem rompimento, mantendo o vínculo com o bolsonarismo.

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“É um desafio para qualquer líder lidar com isso. Tarcísio se aproxima, sempre quis fazer concessões aos Bolsonaro, mas não dá para confiar obviamente se eles [família Bolsonaro] vão apoiar um nome como o Tarcísio”, conclui.