Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva chegam ao 2º turno das Eleições 2026 em busca de feitos inéditos. O candidato do PL pode se tornar o primeiro filho de ex-presidente eleito para o Palácio do Planalto, governar com a ampla maioria conquistada pela direita no Congresso e repetir o exemplo de Donald Trump, que retornou à Casa Branca nos Estados Unidos após um hiato de quatro anos. Lula, por sua vez, almeja um inédito quarto mandato, a possibilidade de comandar o país por 16 anos e de conter o avanço da direita no Congresso, como porta-voz de bandeiras trabalhistas. Em meio a uma campanha marcada pelo baixo debate de propostas e por ataques e acusações, a corrida presidencial chega à decisão com dois personagens de projetos políticos distintos, capazes de mobilizar paixões que ultrapassam a eleição.
Flávio Bolsonaro, o herdeiro improvável
Flávio Bolsonaro foi escolhido pelo pai para herdar a candidatura presidencial do bolsonarismo com aposta na força do sobrenome e na lealdade a ele. O filho 01 do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL) começou a pré-campanha sem a certeza de que chegaria até o fim. O próprio senador admitiu que poderia recuar caso Jair Bolsonaro conseguisse reverter sua situação judicial. Meses depois, chega ao 2º turno à frente de Lula, impulsionado por um movimento político que fortaleceu sua presença no Congresso e voltou a colocar a direita perto de comandar o país. Flávio passou de um herdeiro improvável do bolsonarismo a possível favorito para chegar ao Planalto.
Flávio Nantes Bolsonaro, 45 anos, é advogado, empresário e senador da República desde 2018. Antes, havia sido deputado estadual por quatro mandatos, de 2003 a 2019. O primogênito de Bolsonaro é casado com a cirurgiã-dentista Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro e pai de duas filhas. A imagem foi explorada nos últimos meses na tentativa de mostrar Flávio como um “Bolsonaro moderado” e vacinado. Um “pai de menina” capaz de entender o estratégico eleitorado feminino.
O hoje candidato do PL costumava atuar em nome do pai na política. Eleito senador, cumpriu papel de escudeiro do pai Jair Bolsonaro no Senado, especialmente em momentos críticos como a CPI da Pandemia. No fim do ano passado, foi alçado à condição de herdeiro político de Jair Messias o pai rejeitar nomes como Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e Michelle Bolsonaro e escolher o filho mais velho para ser candidato a presidente representando o campo político liderado por ele.
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Entre a herança e a desconfiança
A escolha do pai abriu caminho para a candidatura de Flávio, mas não eliminou as dúvidas sobre sua viabilidade. A pré-candidatura começou tímida, com o próprio Flávio admitindo que poderia recuar da intenção caso Jair Messias se livrasse das acusações de golpe de Estado. Em poucos meses, no entanto, Flávio ganhou terreno nas pesquisas e passou a concentrar as intenções de voto do bolsonarismo, antes dispersas entre hipóteses como Tarcísio, Ratinho Júnior e Michelle Bolsonaro.
Consolidou a condição de candidato do bolsonarismo, enfraquecendo projetos de outros partidos, como o do PSD e de Novo, que acabaram lançando as candidaturas de Ronaldo Caiado e Romeu Zema, respectivamente, mas sem grande adesão do eleitorado.
Flávio, no entanto, não teve vida fácil na pré-campanha. Em maio, a divulgação de um áudio negociando R$ 134 milhões com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, caiu como uma bomba, causou mudanças na equipe e desafiou até a manutenção da candidatura. Dos Estados Unidos, mês a mês o irmão Eduardo Bolsonaro e o jornalista Paulo Figueiredo lançavam vídeos com críticas duras ao contexto político e que exigiam defesa de Flávio no Brasil. Em um deles, em junho, Figueiredo chegou a afirmar que “mulheres votavam mal”. Em agosto, foi a vez de Michelle Bolsonaro divulgar um vídeo acusando Flávio de ter sido grosseiro com ela e sinalizando distanciamento da campanha.
Campanha une direita em torno de Flávio
O início oficial da campanha presidencial, entretanto, pareceu serenar os ânimos na candidatura do PL. Flávio conseguiu atrair nomes como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Michelle para suas divulgações e passou a se aproximar de Lula nas pesquisas de intenções de voto. Escândalos como o do INSS e denúncias sobre o filho de Lula, o Lulinha, deram repertório ao candidato para atacar o candidato petista.
A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) invadiu a campanha eleitoral no mês de setembro. O pedido do ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, para investigar o colega de toga Alexandre de Moraes por suposta ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro colocou toda a Suprema Corte em exposição no país. A ligação de figuras como os ministros Flávio Dino e o próprio Moraes com o governo do presidente Lula arrastou o desgaste para a campanha petista, em uma proporção só mensurada nas urnas, no dia do 1º turno.
Nem mesmo a desistência em cima da hora de Flávio de participar do debate da Globo causou grandes estragos na campanha do candidato, já que a decisão ocorreu após duas liminares que mudaram os critérios sobre os nomes convidados. Os despachos deixaram impressão em parte do eleitorado de possível interferência judicial capaz de beneficiar o candidato petista, que rejeitou o convite.
Quando as urnas foram abertas em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, com 56 milhões de votos, mais do que o próprio pai havia conseguido quatro anos atrás. Foram 47% de aceitação contra 45% de Lula. O resultado se somou a uma nova avalanche bolsonarista nos estados, com o PL elegendo 121 deputados federais e 19 senadores. Não obstante, o campo político do bolsonarismo assegurou maioria no Congresso e teve como campeões de votos nomes com pautas da direita conservadora, incluindo as catarinenses Carol de Toni (senadora), Júlia Zanatta (deputada federal) e Ana Campagnolo (deputada estadual).
Da euforia à cautela
A vantagem conquistada no 1º turno deu a Flávio Bolsonaro confiança para apresentar ambições que iam além da disputa imediata com Lula. Nos primeiros dias da nova fase da campanha, o candidato do PL cedeu à euforia e falou sobre liberar o pai Jair Messias, convocar uma Assembleia Constituinte para elaborar uma nova Constituição Federal e até estender o eventual mandato para cinco anos. A disposição para antecipar medidas de governo acendeu um sinal amarelo em parte do eleitorado. Em paralelo a isso, a campanha petista ainda trocava acusações sobre os culpados pela derrota no 1º turno e pelo resultado abaixo do esperado.
Nas semanas seguintes, enquanto a campanha de Lula tentou assumir a agenda política com anúncios em profusão e atos de rua com militantes, a campanha de Flávio adotou postura mais cautelosa, buscando manter as circunstâncias tão estáveis quanto possível. Reativa, a campanha ganhou um canal de WhatsApp, a “Tropa do Flávio”, só depois que a comunidade lulista criada por André Janones começou a ganhar espaço nas discussões das redes sociais.
Nas duas últimas semanas, o candidato se viu envolto em temas como a escala 6×1, em que precisou admitir uma mudança de posição, e uma pressão para a abertura de sigilo bancário, desafio feito por Lula no primeiro debate entre ambos. Flávio também foi confrontado com “fantasmas” que voltaram a assombrar a campanha, como o pedido de dinheiro para Daniel Vorcaro, a compra de uma mansão com dinheiro vivo e a relação com o advogado Willer Tomaz, investigado em escândalos como o do INSS.
O Bolsa Família acrescentou outro ponto de tensão. O candidato do PL precisou esclarecer declarações de sua consultora econômica Daniela Marques. As falas sobre regras de saída do programa ensejaram especulações do adversário sobre possíveis planos de cortes no benefício social que virou marca dos governos petistas. Às vésperas do 2º turno, ainda restavam o debate da Globo, as últimas pesquisas e os atos de encerramento da campanha. A tarefa de Flávio era atravessar os últimos dias sem comprometer a vantagem sobre o adversário e afastar o risco de uma possível “virada”.
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As principais propostas
Em uma campanha marcada pelo debate esvaziado de propostas, os planos de governo correram o risco de virar coadjuvantes. Ainda assim, algumas marcas do projeto de Flávio Bolsonaro se destacam: um tesouraço de impostos, a redução dos gastos públicos e dos juros e a promessa de manter programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. Na segurança pública, Flávio aposta em medidas com apelo entre o eleitorado conservador, como a criação do Smart Brasil, um sistema de monitoramento em todo o país com câmeras públicas e de estabelecimentos privados, além da redução da maioridade penal. Um conjunto de propostas que combina a promessa de um Estado mais enxuto na economia com uma atuação mais dura na área da segurança.
O que vem depois das urnas
Uma vitória de Flávio não significaria apenas a chegada de mais um nome do clã Bolsonaro no Planalto. O grupo político deve extravasar de vez a empolgação sinalizada após o 1º turno e tentar transformar em governo a força demonstrada nas urnas e no Congresso. O cenário atual indica como possíveis passos iniciais a tentativa de tirar do isolamento o pai Jair Bolsonaro, a escolha de ministros, que pode ter no radar aliados de última hora como o coach Pablo Marçal, e as articulações para tentar pela primeira vez eleger o presidente do Senado, responsável por pautar pedidos de impeachment de ministros do STF, bandeira que elegeu senadores de direita país afora.
Uma surpreendente virada do adversário petista abriria roteiro bem diferente. Sem mandato a partir de fevereiro do próximo ano, Flávio precisaria se sustentar em lideranças bolsonaristas eleitas, como Tarcísio de Freitas e o aliado Douglas Ruas, eleito governador do Rio, e provar que pode ser mais do que um herdeiro de ocasião do pai, liderando uma oposição. Por ora, Flávio prefere não considerar este segundo cenário, mantendo a confiança na eleição. Neste momento específico, a expectativa parece se inspirar mais no Trump de 2024 do que no Jair de 2022.





