Uma mudança em discussão nas eleições para deputado federal que propõe adotar o modelo de voto distrital misto no país a partir de 2030 pode alterar a forma com que os parlamentares são escolhidos. A proposta afetaria a votação de candidatos que recebem muitos votos e alcançam eleitores em diferentes regiões dos estados.
Em Santa Catarina, a possível adoção do modelo distrital misto poderia afetar alguns dos 16 deputados federais eleitos no mês passado. Segundo levantamento do NSC Total com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), parte dos parlamentares eleitos teve votação disseminada em mais de uma região catarinense.
Pelo modelo do voto distrital misto, cada estado brasileiro seria dividido em quatro distritos. Os moradores desses distritos poderiam votar apenas nos candidatos da sua região, e não mais nos concorrentes de outros distritos do seu estado. Por ser um sistema misto, metade das vagas ficaria com os candidatos mais votados, e outra metade iria para uma lista de candidatos definida anteriormente pelos partidos.
Atualmente, o Brasil adota o sistema proporcional, onde os deputados são escolhidos a partir do número de votos que eles e os seus partidos recebem. A definição ocorre a partir do chamado quociente eleitoral, que define quantos votos são necessários para ter uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Ainda não há detalhes sobre como ocorreria a divisão dos distritos nos estados, mas já é possível saber que a possível mudança afetaria a distribuição dos votos entre os candidatos.
Nas eleições deste ano, o deputado federal eleito Sargento Lima (PL) foi quem teve a maior concentração de votação. Praticamente 50% dos votos dele vieram de uma única cidade, Joinville, cidade que é a base eleitoral dele. No modelo distrital misto, esse desempenho teria menos impacto, já que ele poderia continuar contando com os eleitores da sua região (ou distrito).
Já a deputada federal mais votada de SC, Júlia Zanatta (PL), conquistou 560 mil votos e teve bons desempenhos em cidades de diferentes regiões, como Florianópolis (7% da sua votação total), Blumenau (6%), Joinville (5%) e Criciúma (4%) e Tubarão (3%). Essas duas últimas cidades integram a região que é sua base eleitoral, o Sul do Estado.
No modelo distrital misto, a tendência é de que ela precisaria obter votos em sua região e não poderia mais contar com votações hoje obtidas em outras regiões do estado que ficassem fora do seu distrito.
Um dos motivos que tem feito o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e partidos do Centrão defenderem o voto distrital misto é para frear o impacto dos “puxadores de votos”, como Nikolas Ferreira (PL), que recebem muitos votos e de forma indireta ajudam a eleger candidatos com votações menores. Entram na conta também uma estratégia para conter os efeitos dos chamados “influencers”, que obtém grandes votações em diferentes regiões em razão da popularidade.
Segunda mais votada em SC, a deputada Ana Paula Lima também teve a maior parte da votação concentrada em Blumenau (14%) do total e cidades vizinhas. Terceiro mais votado, Professor Pedro Uczai (PT) também se valeu da força na região de Chapecó, sua base eleitoral, para conquistar um novo mandato.
Já Jair Renan Bolsonaro (PL), filho “04” do ex-presidente e conhecido em todo o Estado, teve uma votação mais distribuída, com a maior parte dos votos vindo da Grande Florianópolis, do Litoral Norte e do Norte de SC (veja nos mapas abaixo). Eles fecham a lista dos cinco mais votados em SC.
Daniel Freitas, apesar de ter como base o Sul do Estado, se reelegeu para mais um mandato com participação forte também das votações obtidas em Florianópolis, São José, Blumenau e Joinville.
Júlio Garcia e Giovana Mondardo, ambos com base em Criciúma, tiveram as votações mais expressivas justamente em Criciúma, mas também em Florianópolis, onde também passaram a focar a atuação ao longo da carreira política.
As cidades do Sul, como Araranguá e Turvo, também foram decisivas na eleição de Zé Milton, deputado estadual do Sul do Estado que agora conseguiu vaga na Câmara dos Deputados, em Brasília.
Voto distrital misto mudaria estratégia de candidatos
O professor de Administração Pública e pesquisador de Cultura Política da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), Daniel Pinheiro, avalia que uma eventual adoção do voto distrital misto no Brasil exigiria uma mudança de estratégia dos candidatos. Além disso, também poderia criar uma identificação mais fácil entre o eleitor e os candidatos da sua própria região.
“O grande desafio é: se fosse o voto distrital puro, os puxadores de votos se tornam bem menos importantes para o partido, então, é muito mais interessante ter pessoas com identificação regional, que garantissem uma eleição distrital”.
Ele acrescenta também que a campanha regionalizada por distrito costuma resultar em gastos menores de campanha.
“O voto distrital teoricamente é mais barato. A gente está tendo aumento nos gastos de campanha nos últimos anos. De certa forma, faz mais sentido [ter o voto distrital] porque é uma concentração de campanha. A principal mudança de estratégia é dialogar não só com a marca do nome, mas fazer o seu nome também na sua região, isso traz um esforço diferente para os candidatos. Mas isso faz com que possa direcionar campanhas, diminui viagens, gastos para colocar a imagem no estado inteiro. Ao mesmo tempo, tem que pensar em um processo bem direcionado, mudar linguagens, criar identidade com o território, o que para o eleitor pode vir a ser bom”, pontua.
Por fim, o professor destaca que a adoção do modelo pode esbarrar na oposição de deputados com amplas votações que se sintam prejudicados, e que a solução final pode ser uma proposta de equilíbrio a ser discutida no Congresso.
