Insegurança alimentar atinge 53% de famílias quilombolas e é desafio em SC, diz pesquisa

Pesquisa da UFSC mostra que situação se agrava em famílias chefiadas por mulheres, com maior número de moradores, incluindo crianças, e nas que dependem da agricultura

Compartilhe:
Quilombola

Insegurança alimentar tem desafios em comunidades quilombolas de SC (Foto: Danilo Duarte, divulgação)

Em 2014, dados das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicavam que o Brasil saía do Mapa Mundial da Fome. Apesar da conquista, mesmo naquela época, comunidades tradicionais, como quilombolas, continuavam a conviver com a insegurança alimentar, fenômeno que ocorre quando um indivíduo não possui acesso físico, econômico e social a alimentos de forma a satisfazer as necessidades.

Continua após a publicidade

Receba notícias de Santa Catarina pelo WhatsApp

Quase 10 anos depois, fatores como a luta pelo direito ao território, conflitos em torno do uso da terra, diversidade de plantas alimentícias e as relações entre soberania e segurança alimentar impactam esta realidade.

Continua após a publicidade

Receba notícias de Santa Catarina pelo Whatsapp

É o que mostra a pesquisa de doutorado de Maiara Cristina Gonçalves, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Fungos Algas e Plantas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O estudo, que também contou com a participação da professora Natalia Hanazaki, foi feito junto à Comunidade Remanescente de Quilombo São Roque, localizada no município de Praia Grande, a 280 quilômetros ao Sul de Florianópolis, revela que, apesar da ampla variedade de espécies de plantas cultivadas e do compartilhamento e doações entre os moradores, mais da metade das famílias enfrenta algum grau de insegurança alimentar.

– Quando a gente pensa em acesso a uma alimentação de qualidade, é necessário considerar tanto a quantidade como a variedade de alimentos consumidos. Essa questão se deve principalmente ao pouco espaço disponível para cultivo, consequência da lentidão do processo de regularização do direito ao território – explica.

Sentimento que é compartilhado por Maria Rita dos Santos, presidente da Associação de Moradores:
– Com as leis ambientais, os espaços para plantio diminuíram e famílias deixaram o cultivo. Isso reflete na produção de alimentos para o próprio consumo – diz.

Continua após a publicidade

A pesquisa demonstra, ainda, que a situação de insegurança se agrava em famílias chefiadas por mulheres, com maior número de moradores, incluindo crianças, e nas que dependem exclusivamente da agricultura. Novamente pesa a questão da falta de áreas disponíveis para cultivo. Para Maiara, isso está ligado à questão da renda:

– Mulheres quilombolas com filhos em idade escolar, principalmente de áreas rurais, têm acesso a poucas oportunidades de renda e precisam ultrapassar diversos desafios para manter-se no território e ter um trabalho remunerado.

Continua após a publicidade

Conforme o levantamento, a maioria das roças tem alta variedade de plantas alimentícias, mas nem sempre conseguem cultivar em grandes quantidades. Algumas famílias conseguem ter autossuficiência de feijão e arroz o ano inteiro por terem uma roça maior. Mas a grande maioria não alcança o mesmo resultado. Então, muitas famílias que vivem no quilombo têm uma insegurança de não saber se vão conseguir cultivar em quantidades suficientes.

Mas o resultado também foi animador:

Continua após a publicidade

– Este resultado demostra que o quilombo São Roque possui conhecimentos, práticas e experiência ancestral de cultivo e extrativismo em seu território – observa a doutoranda.

Fome apesar da diversidade de cultivos

As entrevistas contemplaram questões socioeconômicas, sobre segurança alimentar e sobre as plantas que as pessoas conheciam e que usos faziam delas. Os moradores da comunidade também foram perguntados sobre espécies e variedades cultivadas para alimentação, épocas de cultivo, sazonalidade, autossuficiência alimentar e produção destinada a consumo próprio, à venda e às doações ou trocas.

Continua após a publicidade

De acordo com a doutoranda, a rotina incluía as entrevistas e depois uma volta na propriedade para conhecer as plantas que os moradores tinham citado e em alguns casos fazer coletas para posteriormente identificar e registrar na universidade. Foram caracterizadas 83 variedades de plantas usadas para alimentação.

– Apesar dessa ampla diversidade, 53% das famílias apresentavam algum grau de insegurança alimentar – ou seja, não tinham acesso regular e permanente a alimentos em quantidade e qualidade suficientes – diz Maiara.

Continua após a publicidade

Os agricultores que mais cultivam são os que mais doam, e ajudam a equilibrar a disponibilidade de recursos entre as pessoas da comunidade. Alguns alimentos são vendidos, principalmente as bananas. Há, também, agricultores que produzem para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que destina a produção para as escolas da comunidade e da cidade. Muitas pessoas complementam sua renda com a produção de artesanato e doces e com aposentadoria e auxílios governamentais.

Outras buscam empregos fora da comunidade, na agricultura, na construção civil e no setor de calçados ou como empregadas domésticas, no caso das mulheres. Mais recentemente, moradores foram habilitados para o trabalho de guia turístico, o que incentivou jovens a permanecerem na comunidade e aumentou a renda de algumas famílias.

Continua após a publicidade

A pesquisa identificou que as dificuldades e as lutas de São Roque são comuns a muitos quilombolas em Santa Catarina. Por isso, o trabalho poderá ser ampliado para outras comunidades:

– Vamos observar as demandas. Seria uma oportunidade de valorizar conhecimentos e saberes tradicionais, evidenciando a importância do reconhecimento dessas comunidades e da titulação de suas terras. Podemos, sim, incidir em políticas públicas que contribuam para a segurança alimentar dentro de contextos específicos.

Continua após a publicidade

A doutoranda também acredita na possibilidade da valorização de alimentos e produtos locais, da autonomia na produção de alimentos, na compreensão da segurança e soberania alimentar dentro de contextos específicos:

– Defendemos que não adianta só prover com cesta básica com alimentos ultraprocessados onde já existe um potencial de qualidade alimentar muito maior.

Continua após a publicidade

Mais de 200 anos de resistência

Formada no século XIX por escravizados negros e indígenas como uma das formas de resistir ao sistema escravista, a Comunidade Remanescente de Quilombo São Roque tem aproximadamente 160 habitantes, divididos em 38 unidades familiares e distribuídos em 7.328 hectares. Apesar de estar no local há cerca de 200 anos, ainda não tem garantido o direito ao território, estabelecido entre os Campos de Cima da Serra e as planícies da bacia do Rio Mampituba, próximo à divisa com RS.

A comunidade foi reconhecida oficialmente pela Fundação Cultural Palmares e já passou pelos estudos antropológicos necessários. Desde 2019, o processo encontra-se parado em Brasília. Oficialmente desde 1850 se tem registro sobre o quilombo São Roque, no laudo antropológico encontra-se informações sobre pessoas escravizadas vivendo livres na região de Santo Antônio da Patrulha, no estado gaúcho, a quem à época a localidade pertencia.

Continua após a publicidade

Por meio do projeto “O conhecimento e o uso das plantas por comunidades Quilombolas de Santa Catarina”, Maiara e Natalia foram conhecer São Roque. O objetivo era descrever a estrutura das redes de plantas alimentícias e compreender a relação entre segurança alimentar e a dinâmica de produção e doação de alimentos.

As primeiras visitas foram entre novembro de 2018 e julho de 2019 e incluíram, além da apresentação do projeto e da participação em reuniões da associação comunitária, entrevistas com integrantes de 33 famílias. Dessas, 18 moravam no território tradicional (quilombo) e 15 viviam na cidade de Praia Grande, que fica a cerca de 10 quilômetros de uma estrada de terra.

Continua após a publicidade

Belezas naturais dos Aparados da Serra

A sobreposição a duas unidades nacionais de conservação, os Parques Nacionais Aparados da Serra e Serra Geral, causou uma série de conflitos nas últimas décadas em função das limitações para atividades econômicas e uso da terra, que restringem o modo de vida quilombola. Em 2018, um termo de compromisso firmado com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) permitiu que a comunidade utilizasse menos de 20 hectares da área contestada para agricultura.
A pesquisadora esclarece que os dados foram coletados antes da pandemia de Covid-19. Embora as visitas tenham sido suspensas em 2020 e 2021, Maiara e o grupo dela mantiveram contato com a comunidade de São Roque, e ela diz que houve situações bastante críticas e urgentes, com pessoas passando fome. No período mais crítico da pandemia, além de aumentar a dependência por apoios governamentais, a comunidade teve que recorrer a vaquinhas on-line para sobreviver.

FIQUE POR DENTRO

Insegurança alimentar

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) existem três tipos de insegurança alimentar: leve, moderada e grave. O tipo leve é marcado pela troca de alimentos saudáveis por outros prejudiciais à saúde (substituir linguiça por salsicha, por exemplo), moderado (quando por escassez de alimento a pessoa salta uma refeição: almoça, mas não janta) e a grave (fome), quando a pessoa não tem o que comer.

Continua após a publicidade

Números em SC

A Fundação Palmares cita 19 comunidades quilombolas no Estado. Com base no Cadastro Único/2020 e lideranças quilombolas, Movimento Negro e Conselho Estadual da População Afrodescendente seriam 21 identificadas, localizadas em 16 municípios, num total de 1.350 famílias e 4.595 pessoas.

São Roque

São Roque é uma das três mil comunidades quilombolas do país. Localiza-se na divisa dos municípios de Praia Grande, em Santa Catarina, e Mampituba, no Rio Grande do Sul. O território tem histórico de ocupação pela comunidade desde 1824 e está associado ao trânsito de escravos que cultivavam na planície. A população remanescente luta pelo reconhecimento da identidade étnica cultural específica e reivindica a manutenção e posse, por pertencimento, do território.

Continua após a publicidade

O que são

Quilombolas são os descendentes e remanescentes de comunidades formadas por escravizados fugitivos (os quilombos), entre o século XVI e o ano de 1888 (quando foi houve a abolição da escravatura).

Local de pouso

A palavra quilombo origina-se do termo kilombo, presente no idioma dos povos Bantu, originários de Angola, e significa local de pouso ou acampamento. Quilombola é a pessoa que habita o quilombo.

Continua após a publicidade

Palmares

Ao longo da história brasileira, vários quilombos foram registrados. O mais conhecido é o de Palmares, formado por um conjunto de 10 quilombos próximos, e que chegou a ter uma população estimada em 20 mil habitantes no século XVII.

Leia também

Especial OriginárioSC: A voz dos herdeiros das terras

Continua após a publicidade

Indígena de SC fará parte de equipe de transição de Lula em grupo de Povos Originários

Única comunidade quilombola de Florianópolis recebe Censo inédito