Reconhecida internacionalmente por conta dos estudos sobre a atuação do El Niño na América do Sul, a cientista Alice Grimm esteve em Santa Catarina na semana passada e compartilhou informações de uma pesquisa inédita que está prestes a publicar. Nela, as estatísticas mostram o mês em que os efeitos do fenômeno foram mais intensos no Estado ao longo dos anos: novembro. Além disso, apresentou conclusões que diferentes modelos climáticos têm sobre o que esperar do futuro quando se trata do assunto.
A palestra ocorreu na sede da Defesa Civil do Estado, em Florianópolis, durante o 2º Workshop El Niño, promovido pela Associação Catarinense de Meteorologia (Acmet), na última sexta-feira (17). A professora da Universidade Federal do Paraná contou que o grupo de estudo avaliou 75 anos de dados, desde que o monitoramento do El Niño é feito, em 1950, para constatar que:
- Um El Niño nunca é igual ao outro, mas ele historicamente intensifica as chuvas na primavera em Santa Catarina;
- Há uma perceptível “piora” durante outubro e novembro para o Sul do Brasil;
- Ele altera os extremos de chuva, não necessariamente a média de precipitação;
- Para se ter uma ideia, em meses de novembro com El Niño as chances são 6,3 vezes maior de eventos extremos, contra 1,2 em períodos de La Niña.
Ou seja, no ano em que o El Niño se forma, o mês tradicionalmente com mais impactos em Santa Catarina é novembro. Há um “respiro”, explicou Alice, em janeiro, quando ocorre uma diminuição da intensidade. Intensidade e frequência, aliás, são as palavras mais usadas para definir a atuação do fenômeno no Estado, já que os extremos de chuva podem se acentuar e/ou os dias chuvosos durarem mais tempo que o normal, pois os sistemas que causam precipitação “estacionam” sobre o Sul.

El Niño perde força sozinho
Outro ponto reforçado pela pesquisadora é que, para que haja um grande desastre, não basta o El Niño. Há outras oscilações climáticas que precisam estar alinhadas, também favorecendo a formação de nuvens carregadas, para que ocorra o pior — tal como no Rio Grande do Sul em 2024. É o que a ciência chama de “sobreposição de efeitos”, algo que precisa ser monitorado constantemente e que só pode ser previsto com uma antecedência menor. Por isso, este é um momento de preparação e acompanhamento.
— Nada de pânico, o propósito é fazer o que precisa ser feito. A melhor ação é a prevenção — declarou a doutora.
Modelos indicam mudanças entre El Niño e La Niña
Em outra parte da pesquisa, Alice avaliou o que modelos climáticos desenham para o futuro. Há uma clara tendência de que, com o aquecimento global, o El Niño fique cada vez mais forte e a La Niña mais fraca. Isso será determinante para as mudanças climáticas na América do Sul. É um recado, entre tantos outros, para que se pense em obras de infraestrutura capazes de aguentar essa intensificação dos eventos extremos, ressaltou a cientista.
Super El Niño é incomum, mostram dados históricos
O El Niño nada mais é do que o nome dado ao aquecimento das águas superficiais de um trecho do Oceano Pacífico, perto do Peru. Oficialmente não existe a classificação de “super El Niño”, mas o termo é usado popularmente quando o aumento da temperatura do oceano ultrapassa os 2°C acima da média, patamar considerado elevado e pouco comum, explica o meteorologista da Defesa Civil de Santa Catarina, Caio Guerra.
Para se ter uma ideia, desde 1950, dos 25 episódios de El Niño, cinco tiveram registros acima dos 2ºC, mostram dados da Noaa. O que o levantamento também indica é uma diminuição no intervalo de El Niños de forte intensidade.
Entre a metade do século passado e meados do atual, foram mais de 10 anos entre um “super El Niño” e outro. Na história recente, esse tempo caiu para oito anos. E agora, se de fato o próximo aquecimento ficar acima dos 2ºC, a “pausa” será de menos de cinco anos.
As intensidades do El Niño
- Fraco: 0,5°C a 1,0°C acima da média
- Moderado: 1,0°C a 1,5°C acima da média
- Forte: 1,5°C a 2,0°C acima da média
- Muito forte: acima de 2,0°C acima da média
A diferença entre La Niña e El Niño
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño é o nome dado ao aumento na temperatura da superfície da água em um trecho do Oceano Pacífico perto do Peru, fazendo ela evaporar mais rápido. O ar quente sobe para a atmosfera, levando umidade e formando uma grande quantidade de nuvens carregadas.
Com isso, no meio do Pacífico chove mais, afetando a região Sul do Brasil, pois a circulação dos ventos em grande escala, causada pelo El Niño, também interfere em outro padrão de circulação de ventos na direção norte-sul e essa interferência age como uma barreira, impedindo que as frentes frias, que chegam pelo Hemisfério Sul, avancem pelo país. Logo, elas ficam concentradas por mais tempo na região Sul.
O contrário, o resfriamento dessas águas, é chamado de La Niña. Os efeitos do La Niña para Santa Catarina são o oposto do outro fenômeno, já que as chuvas caem em menor volume no Estado.










