As previsões que indicam o El Niño deste ano como um dos mais intensos da história vêm preocupando diversos setores especialmente da agricultura, incluindo dois muito fortes na Serra Catarinense: a maçã e o mel. O fenômeno está previsto para a primavera de 2026, que é a época de floração das macieiras e da brotação da maçã, crucial para a safra.
O El Niño se caracteriza pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o que, na prática, resulta em meses com chuvas e tempestades mais intensas no hemisfério sul. Eventos meteorológicos de grande porte já vêm sendo observados na região e a tendência é de aumento nos próximos meses.
Santa Catarina, principalmente na região serrana, é referência na produção de maçã, principalmente nas variedades Gala e Fuji, que renderam para a cidade de São Joaquim o título de Capital Nacional da Maçã. Ainda não há, apesar das previsões, uma estimativa de prejuízos financeiros.
Quais são os principais riscos?
De acordo com o pesquisador em fitotecnia da Epagri, Matheus Luís Docena, não é só o volume de chuva do El Niño que preocupa, mas a quantidade de dias nublados e úmidos. As produções de maçã e mel estão interligadas, pois para que o ciclo da maçã continue é necessário que as abelhas realizem a polinização.
As abelhas são responsáveis pela fecundação das plantas, garantindo bons frutos para a próxima safra. No entanto, elas também são muito sensíveis às condições meteorológicas, evitando se expor quando há vento e muita nebulosidade.
A baixa atividade das abelhas influencia na uniformidade de polinização e afeta a produtividade dos pomares. Pesquisadores recomendam que as colméias sejam instaladas antes da abertura total das flores. A produção de mel também é afetada, pois quanto menos as abelhas se alimentam do néctar floral, menos mel elas são capazes de produzir.
Além disso, a intensidade das tempestades com vendavais, raios e granizo, mais frequentes durante o fenômeno El Niño, também é um fator de preocupação. É preciso estratégia da parte dos produtores para evitar danos físicos às plantações e colmeias.
Outro fator de risco é a umidade, que torna as plantas mais suscetíveis a doenças como a sarna da macieira, a mancha foliar de Glomerella e outras doenças fúngicas, o que também exige estratégia. É necessário escolher o fungicida certo e determinar a aplicação em uma janela entre os períodos mais chuvosos.
Conheça a Capital Nacional da Maçã, São Joaquim
El Niño deve atingir categoria de “super” este ano
O El Niño segue ganhando força no Oceano Pacífico e já registra uma anomalia semanal de 1,8°C na região Niño 3.4, principal área usada para monitorar o fenômeno. O valor está próximo dos 2°C que marcam um evento muito forte, popularmente chamado de “Super El Niño”.
A atualização da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), divulgada nesta terça-feira (8), aponta mais de 90% de chance de o El Niño alcançar essa intensidade entre os trimestres de setembro a novembro de 2026 e de novembro de 2026 a janeiro de 2027.
Para o trimestre entre outubro e dezembro, a agência calcula ainda 69% de possibilidade de um evento histórico, que supere a intensidade dos El Niños anteriores registrados desde 1950.
Os 1,8°C correspondem à medição semanal da temperatura na região Niño 3.4. Já o Índice Relativo de Niño Oceânico (Roni), adotado pela NOAA e calculado a partir da média de três meses, está em 1,4°C no trimestre entre junho e agosto. As projeções indicam que esse indicador também deve ultrapassar os 2°C nos próximos meses.
Intensidade não significa desastre maior
Apesar do avanço do fenômeno, a Defesa Civil ressalta que um El Niño muito forte não provoca automaticamente eventos extremos mais intensos. Enchentes históricas registradas em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, por exemplo, ocorreram durante fenômenos de diferentes intensidades.
“Um El Niño muito forte tende sim a aumentar a frequência de chuvas, mas a ocorrência de grandes eventos depende da combinação com outros fatores climáticos, como a oscilação de Madden-Julian”, afirma Rudorff, em referência ao padrão climático que se desloca pelos trópicos a cada 30 a 60 dias, alternando fases úmidas e secas.
Segundo ele, a combinação com o fluxo de umidade, o jato subtropical e outros padrões atmosféricos é determinante para a ocorrência de temporais e volumes elevados de chuva.
















