A estrutura metálica da entrada do Aeroporto de Chapecó foi arrancada pela força do vento na manhã da última quarta-feira (4). Vidraças quebraram, hangares foram atingidos e os voos precisaram ser suspensos até sexta-feira (6). O cenário de destruição registrado no Oeste catarinense faz parte de uma sequência de temporais que atingiu diferentes regiões do Estado nos últimos dias, potencializada por um El Niño de intensidade muito forte.
A Defesa Civil confirmou a formação de três tornados: um em Chapecó, por volta das 10h30min, outro em Xanxerê, às 10h48min, e um terceiro em Rio Negrinho, às 13h30min. No mesmo dia, também houve uma microexplosão em Timbó Grande. Em Chapecó, as rajadas chegaram a 126 km/h, conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Os fenômenos foram associados a uma linha de instabilidade que avançou do Extremo-Oeste para as demais regiões de Santa Catarina e provocou tempestades e rajadas de vento superiores a 100 km/h. Em Chapecó, mais de 61 mil unidades consumidoras ficaram sem energia elétrica, o equivalente à metade das 123 mil unidades no município, por volta do meio-dia de quarta-feira.
Um morador de Chapecó, Willian Biffi Berlt, registrou imagens do tornado pelo celular:
Os pássaros começaram a voar desesperados, mesmo com o tempo nublado e até então tranquilo na hora. Eu saí para olhar e logo em seguida, veio uma formação que eu nunca tinha visto na vida. Eu cheguei a pensar que aquilo era um tornado porque parecia o que eu via na televisão. Foi muito rápido, em questão de segundos.
Em Rio Negrinho, no Planalto Norte, os temporais deixaram uma vítima fatal. Jonathan Oliveira da Cruz, de 20 anos, morreu após a cobertura de um posto de combustíveis desabar. Ele havia perdido o pai cerca de duas semanas antes. Outra morte foi registrada em Xanxerê, onde uma mulher de 46 anos morreu após sofrer um choque elétrico provocado pelo rompimento de um cabo de alta tensão.
Desde domingo (1º), 126 municípios catarinenses registraram ocorrências relacionadas aos temporais, segundo balanço atualizado pela Defesa Civil na sexta-feira (6). O levantamento aponta 6.413 residências afetadas, 100 pessoas desabrigadas e 557 desalojadas. Ao todo, 62 municípios informaram decretos de situação de emergência e 29 solicitaram itens de assistência humanitária ao Estado.
Veja imagens dos estragos do tornado em Rio Negrinho
El Niño pode favorecer temporais em SC
Segundo a Epagri/Ciram, os temporais foram favorecidos pela passagem de uma linha de instabilidade, associada a um sistema convectivo de mesoescala (SCM). Esse tipo de sistema reúne tempestades organizadas em uma estrutura maior que uma tempestade isolada e pode persistir por várias horas, segundo definição da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA).
De acordo com a meteorologista Gilsânia Cruz, da Epagri/Ciram, o fenômeno é comum na primavera, principalmente em anos com El Niño:
Tivemos uma linha de instabilidade passando com bastante intensidade. Associada a essa linha, veio uma tempestade severa. É nessa tempestade severa que temos a possibilidade de tornado, microexplosão, granizo e ventos acima de 90 km/h.
Em outubro, o El Niño atingiu intensidade muito forte, popularmente chamada de “super” El Niño. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 ficou 2,47 °C acima da média, o maior desvio registrado para outubro. Na região Niño 3, de grande influência para o clima na América do Sul, a anomalia chegou a 3,56 °C.
O aquecimento do Pacífico altera a circulação atmosférica e os padrões de chuva e temperatura no país. No Sul, o El Niño costuma favorecer volumes de chuva acima da média, segundo Caio Guerra, meteorologista da Defesa Civil:
Essa época do ano é a época em que mais acontecem tempestades severas no Oeste de Santa Catarina. É normal, na climatologia da região. Em anos de El Niño, você aumenta a frequência e intensidade dessas tempestades na região Oeste durante a primavera e o outono. O El Niño está potencializando esse fenômeno.
Saiba mais sobre o El Niño
Chuva deve continuar frequente em SC nos próximos meses
A previsão do 247º Fórum Climático Catarinense, realizado em 28 de outubro, indica chuva acima da média entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, principalmente no Oeste de Santa Catarina. Em novembro, a tendência é de chuva mais frequente e volumes elevados, sob influência do El Niño muito forte.
Em dezembro, começa a transição para o verão, com temperaturas mais elevadas e mudança no padrão de ocorrência das tempestades, segundo Caio Guerra.
“Ao longo de novembro, ainda temos um mês bastante crítico. É um dos períodos de pico de precipitação do ano e de maior ocorrência desses eventos de tempo severo. Novembro mantém o risco de temporais com ventos fortes, granizo, chuva intensa, alagamentos e enxurradas. Destacamos sempre a região Oeste, que é a primeira a ser atingida no caminho das tempestades”, explica.
Com a aproximação do verão, as temperaturas sobem e os temporais passam a ocorrer principalmente no fim da tarde, associados ao calor e à atividade convectiva.
Mesmo quando isoladas, essas tempestades podem provocar chuva intensa em curto período, alagamentos e enxurradas. O histórico estadual de desastres, que reúne registros entre 1995 e 2019, aponta dezembro e janeiro entre os meses com maior número de ocorrências meteorológicas em Santa Catarina.













