Brasileiros são barrados na fronteira da Ucrânia com a Polônia e relatam “desespero”

Há quatro dias sem dormir e sem tomar banho, grupo busca alternativas para tentar entrar no país vizinho

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Cidadãos ucranianos chegando em Medyka, na Polônia. (Foto: Wojtek Radwanski, AFP)

Exaustos após quatro dias sem dormir nem tomar banho, um grupo de três brasileiros percorria a fronteira oeste da Ucrânia na noite deste domingo (27), tentando achar uma saída.

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Os jogadores de futebol Edson Fernando e Talles Brener e a namorada de Talles, Jessika Ariani, estavam desde a quinta-feira (24) em um posto fronteiriço tentando passar para a Polônia, sem sucesso.

— O frio era tanto que nossa boca está toda cortada, as mãos queimadas. Ficamos 24 horas na fila, sem dormir. Está sendo horrível — diz Jéssika, de 28 anos.

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Eles levaram 16 horas para percorrer em uma van os 80 quilômetros da cidade de Lviv até a fronteira. Deixados pelo motorista, que por ser ucraniano não poderia atravessar, eles tentaram carona na fila de carros, mas ninguém os ajudou. 

— Chegamos a oferece 300 dólares para andar 2 quilômetros, mas ninguém nem abria o vidro para a gente. Fomos entrando em desespero.”

Segundo Jessika, os militares ucranianos deixam passar mulheres e crianças, mas não estão autorizando homens, mesmo estrangeiros, a atravessar. Há relatos de que motoristas de ônibus e alguns lojistas não aceitam clientes de fora, só ucranianos.

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O grupo foi socorrido por outra brasileira, Clara Magalhães, que veio da Alemanha de carro para ajudar refugiados na região. Depois de dois dias de tentativas, ela conseguiu atravessar para o lado ucraniano, com uma bandeira do Brasil no veículo lotado de doações. Além dos três brasileiros, que ela não conhecia antes, deu carona para um ucraniano e um nigeriano que encontrou pelo caminho.

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— A fronteira está um caos. Os militares estão agressivos, impacientes, usam cassetetes, armas com balas de borracha. O pessoal está sem água, com fome, com frio — descreve a brasileira. 

— Se continuar assim, eles vão acabar derrubando as grades e invadindo.

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Clara dirigiu até a Eslováquia, mas a fila de carros chegava a 50 quilômetros. O grupo passou por seis pontos de fronteira até chegar à Hungria, onde esperavam conseguir passar enquanto conversavam com a reportagem.

Oitenta brasileiros conseguiram sair

O Itamaraty informou que até a noite de domingo cerca de 80 brasileiros conseguiram sair da Ucrânia pelas fronteiras com o apoio da embaixada, e outros cem que estão no cadastro da representação diplomática ainda tentam deixar o país. A comunidade brasileira na Ucrânia é estimada em 500 pessoas.

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“Nos primeiros dias, ante a falta de condições de segurança, estamos implementando a evacuação segura e ordenada”, diz a nota.

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Até agora, os esforços têm se concentrado principalmente na fronteira da Romênia. O presidente Jair Bolsonaro (PL) informou nas redes sociais que 39 pessoas -37 brasileiros e dois uruguaios- chegaram a Bucareste após deixar Kiev. Entre elas, estão os jogadores do Shakhtar Donestky, time da primeira divisão, e seus familiares.

“A Embaixada estabeleceu um posto avançado na fronteira com a Moldova (caminho entre Kiev e Romênia) para recepcionar os brasileiros que por ventura cheguem desgarrados por aquela região fronteiriça”, escreveu.

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Bolsonaro afirmou ainda que duas aeronaves da Força Aérea Brasileira poderão transportar os que quiserem voltar ao Brasil.

Neste domingo, a embaixada na Ucrânia divulgou em um comunicado que não aconselha tentar passar a pé ou de carro pelos postos de fronteira entre Lviv e a Polônia. No sábado, eles haviam anunciado que receberam “inúmeros relatos de enormes aglomerações, atrasos que chegam a durar dias, comportamento agressivo, falta de hospedagem e necessidades básicas” no local.

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“Nem abriram o pasasporte, não quiseram saber”

Mas os brasileiros que já estão lá se dizem desassistidos pelas embaixadas na Ucrânia e na Polônia. Em vídeos postados nas redes sociais e na conversa com a reportagem, eles afirmam que não conseguem contato com a embaixada em Kiev, e que a representação brasileira na Polônia tem respondido que nada pode fazer por quem está do outro lado.
Questionado pela reportagem, o ministério afirma que vai enviar uma missão com oito funcionários à Polônia para ajudar os brasileiros.

Uma das situações mais críticas em Lviv é dos jogadores Guilherme Smith, Cristian Dal Bello e Juninho Reis, além da esposa dele, Vitória Magalhães, e do filho de três anos.
Depois de caminharem mais de 30 quilômetros , eles foram barrados na saída da Ucrânia. 

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— Os guardas começaram a empurrá-los, empurraram até minha sobrinha com a criança. Nem abriram o passaporte, não quiseram saber — diz Águida Magalhães, tia de Vitória.

No caminho, Guilherme feriu o pé e Vitória queimou a perna em uma fogueira que o grupo fez para se aquecer.

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Eles acabaram voltando a Lviv, onde receberam atendimento médico e aguardam uma solução. “Não tem como voltar para trás, não tem como ir para a frente”, disse Vitória, em um vídeo. “Precisamos de ajuda para sair daqui.”