Após Vladmir Putin, presidente da Rússia, autorizar a ação de tropas militares no Leste da Ucrânia, nesta quinta-feira (24), os olhos do mundo se voltaram para a região e os impactos do conflito já são perceptíveis nas relações políticas e econômicas que envolvem os dois países. 

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Nesta manhã, o ministro das Relações Exteriores ucraniano, Dmytro Kuleba, disse no Twitter que “esta não é uma invasão russa apenas no leste da Ucrânia, mas um ataque em grande escala de várias direções (…) A Ucrânia está com os dois pés no chão e continua a se defender”. Durante a madrugada desta quinta-feira, ao fazer o anúncio sobre o início da operação em território ucraniano, Vladimir Putin subiu o tom e se dirigiu também a lideranças de outros países, ao afirmar que interferências externas não serão toleradas.  

— Quem tentar interferir, ou ainda mais, criar ameaças para o nosso país e nosso povo, deve saber que a resposta da Rússia será imediata e levará a consequências como nunca antes experimentado na história — disse. 

Com o objetivo de ajudar a esclarecer as nuances desta crise, a reportagem do Diário Catarinense conversou com o mestre em cultura russa pela Universidade de São Paulo, Fabrício Vitorino, e preparou uma série de perguntas e respostas. 

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Entenda as razões da tensão entre Rússia e Ucrânia:  

O que são os movimentos separatistas na região e a partir de que momento eles iniciaram?

Os movimentos separatistas na região do Donbass, a leste da Ucrânia, essencialmente são dois que brigam pela independência da República de Luhansk e pela República de Donetsk. Eles se originam de um sentimento local que prega que o povo que ali é de origem russa, etnicamente russo, falam russo, tem costumes russos e são muito mais alinhados com com a mentalidade da Rússia.

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Qual o interesse da Rússia na invasão da Ucrânia?

O lado russo alega que está acontecendo um genocídio de russos étnicos no leste da Ucrânia. O que isso significa? Que aqueles que se identificam como russos, que estão nas repúblicas separatistas russas e também na nas áreas próximas, estão sendo mortos, estão sendo perseguidos pelo governo ucraniano. Somado a isso há uma campanha, segundo a Rússia, de “desrussificação” da região, onde a língua russa, os costumes russos e toda a mentalidade russa é vítima de sanções. Então o governo ucraniano tirou o status de língua primária do russo, em detrimento do próprio ucraniano; houve a separação da igreja ortodoxa – que era uma igreja ortodoxa russa que cobria o leste europeu (Ucrânia, Bielorússia e Rússia) – hoje existe uma igreja ortodoxa ucraniana e uma igreja ortodoxa russa. Então o interesse da Rússia primariamente é reincorporar ou incorporar os territórios que ela clama serem seus, onde são habitados por russos étnicos, e o objetivo secundário é impedir que a que a Ucrânia – que é tida como um quintal, uma zona de proteção da Rússia – se alinhe à Europa, entre na União Europeia, se alinhe aos Estados Unidos via Otan… Então é um interesse ao mesmo tempo de defesa e, na mentalidade russa, de defesa dos seus cidadãos.

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Qual o objetivo dos Estados Unidos em auxiliar a Ucrânia, dando armamento, durante os conflitos?

O objetivo dos Estados Unidos ao ajudar a Ucrânia com armamento sobretudo, e linhas de crédito, é aproximar a Ucrânia, que é uma região altamente estratégica e fica ao lado da Rússia, em torno de quinhentos quilômetros de Moscou, sua cidade mais próxima. Seria um centro estratégico importantíssimo que evidentemente desestabiliza o governo de Putin pelo poder de atração que os Estados Unidos conseguem ter sobre a Ucrânia, que sempre foi tido como um protetorado e uma área de influência russa. Mas, fundamentalmente os Estados Unidos têm um interesse geopolítico de fixar bases da da Otan ali, de exercer o seu poder, dado que todo o território russo está cercado. E para os Estados Unidos é muito importante ter um inimigo à altura, ter um rival à altura. Desta forma que os Estados Unidos acabam exercendo seu poder de coerção, de atração sobre o resto do mundo.  

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Recentemente os Estados Unidos anunciaram uma série de sanções à Rússia. De que forma elas podem abalar o país? Como isso impacta ainda mais o conflito entre Estados Unidos e Rússia?

As sanções que os Estados Unidos anunciaram nos últimos dias são, na verdade, uma continuação daquelas que foram anunciadas em 2014 e outras que foram anunciadas também na sequência das eleições americanas de 2016, que elegeram Donald Trump. Na verdade são sanções a pessoas, a empresas, todos ligados ao governo, então acaba que elas têm muito pouco efeito prático porque elas vão desconectando paulatinamente o sistema russo do sistema americano mundial e vão dando à Rússia tempo para criar alternativas. Mas, ao mesmo tempo o mundo é refém de produtos do mercado russo. Vamos falar do petróleo, do gás… a Europa é dependente do gás russo, então não é algo simples de ser realizado no curto prazo. Essas pessoas e essas empresas vítimas das sanções americanas essencialmente já estão preparadas. Figuras muito importantes como a diretora dos dos principais canais russos ligados ao Kremlin, Margarita Simonyan, ela já é vítima de sanções desde 2014. Então é muito difícil imaginar que ela não esteja preparada para eventuais arrestos de verbas, de contas que possam ser tocadas pelos Estados Unidos. Pragmaticamente não afeta muito a economia russa, mas moralmente vai reforçando na cabeça do russo de que os Estados Unidos de fato não têm interesse em ter a Rússia como amiga, como país amigo, como pais aliado. Vai acirrando ainda mais essa rivalidade.

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Qual a posição do presidente da Ucrânia em meio a esse conflito?

O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky foi eleito, ele era ator de uma das séries mais populares da Ucrânia, ele ficou muito famoso, foi um outsider que venceu a eleição, não tem carreira política, tem o apoio de oligarcas internamente e está em uma situação muito delicada, porque ele já vinha com índices de aprovação muito baixos há algum tempo. Ele acabou 2021 com 20, 25% de pessoas que aprovam o seu governo, o que é um índice muito baixo. Politicamente ele é irrelevante, provavelmente se terminasse o mandato, ele não seria reeleito, não não daria continuidade a sua carreira política, mas ele acabou sendo alçado a um a um papel de protagonista nessa crise. A opinião de muitos analistas é de que ele tem agido com muita muita serenidade. Ele não tem apelado para clichês populistas, mas ele tem mantido a posição da Ucrânia de defender sua soberania que é a decisão de se alinhar à União Europeia, de pleitear uma candidatura à Otan. Não dá para dizer que ele sai como vencedor, mas é uma figura que sai com uma projeção muito maior do que aquela que ele já tinha antes do segundo conflito, esse conflito agora de 2022. 

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De que forma a União Europeia se encaixa nesse cenário?

A União Europeia de fato talvez seja o ente que sai mais prejudicado, mais enfraquecido desse último conflito. Já teve a imagem arranhada em 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia, mas ali exerceu um papel muito fundamental a ex-chanceler alemã, Ângela Merkel. Hoje não há na União Europeia nenhum líder com carisma ou poder suficiente para dialogar com Vladimir Putin no mesmo nível. O Putin sempre vê esses líderes europeus – Boris Johnson, o novo premier alemão, Olaf Scholz, o Emanuel Macron, da França – como inferiores, não sendo interlocutores a sua altura. Então, sem uma liderança forte a União Europeia acaba tendo um papel secundário em relação aos Estados Unidos, que também não tem uma liderança forte. 

A Ucrânia é um país recente e que tenta estabelecer seu espaço no mundo. De que forma esse conflito pode impactar isso?

A Ucrânia de fato era muito mais um conceito ao longo da história que nunca teve espaço pra existir. Esse conceito toma forma da União Soviética, com a República Socialista da Ucrânia. Nunca houve na União Soviética a ilusão, a percepção de que a União Soviética fosse acabar, então as fronteiras internas eram mexidas com muita segurança. Com o fim da União Soviética, a Ucrânia conquista sua independência pela primeira vez na história e luta contra dois fatores muito muito pesados: a reconstituição e o reforço de sua cultura, língua, religião; o estabelecimento de uma identidade nacional, para um pra um povo que é multiétnico. Tem tártaros na Crimeia, russos a leste, ucranianos ao centro, tem um povo mais identificado com polonenses a oeste, com a União Europeia, tem um povo muito identificado com a Moldávia. Então é um povo multiétnico que tenta estabelecer uma cultura comum. Mas, ao mesmo tempo, [o povo] passa por trinta anos muito turbulentos com alternância de poder, denúncias de corrupção constantes, duas revoluções, ex-presidentes presos, envenenados… são trinta anos muito turbulentos e sempre acusando a Rússia de estar por trás dessa sabotagem institucional. Por outro lado, é um país que está sempre buscando uma aproximação com a União Europeia. Sediou um campeonato europeu de futebol em conjunto com a Polônia, é um país com muita perspectiva, com bons índices de IDH, com uma educação muito forte, com a indústria pesada muito tradicional, então teriam boas perspectivas de em um médio prazo se tornar um grande país. Mas dada essa proximidade com a Rússia, acaba sendo sempre obliterada essa opção à Ucrânia de se afastar da esfera de influência russa. Se por um lado a Ucrânia tenta estabelecer a sua identidade cultural, sua identidade nacional, a Ucrânia também tem que se equilibrar entre dois mundos muito poderosos, a União Europeia e a Rússia.

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Como os conflitos na Europa podem respingar no atual cenário econômico do país?

Toda a guerra tem um potencial destrutivo na economia mundial muito grande. Esse conflito – diretamente – não impacta o Brasil. Ele tem um impacto na economia mundial primária, que é a imediata disparada dos preços do petróleo, e isso já vem acontecendo com o barril do Brent ultrapassando os 100 dólares pela primeira vez em sete anos. Isso tem um impacto na cadeia econômica em cascata que é muito grande, muito forte. A gente vive no Brasil uma condição, no momento, que é: o dólar está caindo ao passo que o preço do Brent está subindo, isso tende a equilibrar a balança no curtíssimo prazo. Mas um desalinhamento entre a Rússia e os Estados Unidos e a Europa, e o realinhamento entre a Rússia e a China mexe com todo o balanço do mercado mundial. Se a China se mantiver alheia a situação, a tendência é que o impacto seja mitigado. Mas se houver uma uma oposição aos Estados Unidos, essa polarização certamente vai afetar o governo brasileiro e a balança comercial brasileira, dado que a Rússia provavelmente vai sofrer sanções mais severas. O impacto secundário para a economia mundial é que uma guerra entre dois países como Rússia e Ucrânia, ao mesmo tempo que desconecta um deles – que é a Rússia – do mercado internacional, pois tem um derretimento da bolsa, tem um provável default, tem uma questão com os títulos da dívida… isso também gera um efeito em cascata no mercado internacional. Agora um impacto secundário, sem dúvida, é o fator Ucrânia que também, muito provavelmente, vai declarar um calote, um não pagamento das suas dívidas externas em um curtíssimo prazo e isso gera uma crise de crédito. Os investidores passam a tirar dinheiro dos mercados que estão mais vulneráveis e passam a colocar dinheiro nos mercados que são mais estáveis. Isso acaba gerando uma instabilidade que afeta petróleo, dólar, commodities… que retira dólares de economias mais fragilizadas, categoria na qual o Brasil se encontra. 

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Quais os tipos de impacto os conflitos na Europa trazem à Santa Catarina?

Os impactos do conflito na Europa pra Santa Catarina primordialmente são no mercado de carnes – bovinos, suínos e aves. O Brasil é um grande exportador desses bens para a Rússia e para o leste europeu. Sem dúvida, com a Rússia incapacitada de comprar, o Brasil e Santa Catarina vão ter que encontrar um outro mercado para escoar essa produção, provavelmente a China a curto e médio prazo. Outro impacto secundário é que Rússia e Belarus (país vizinho à Rússia que é um satélite de Putin) são os maiores, os grandes fornecedores, exportadores mundiais de fertilizantes. A Rússia é o maior exportador mundial de fertilizante e Belarus figura entre o top três. Esse mercado é fundamental para Santa Catarina porque dele depende o mercado de commodities – soja, milho, proteína animal. Faltando fertilizantes, o Brasil vai se dirigir a outros mercados e outros mercados não vão imediatamente vender pro Brasil, porque todos vão estar preocupados em manter suas produções. Faltando fertilizantes, a tendência é que o preço da commodity passe a gerar menos lucro para o produtor e, na sequência, pode haver um desequilíbrio na balança comercial e isso tem um grande impacto para Santa Catarina especificamente. Além do petróleo, do preço do dólar, além da questão dos investimentos externos, a gente ainda tem a questão dos fertilizantes que impacta o mercado agro. E essa sim é uma consequência severa.

O conflito entre Rússia e Ucrânia pode desencadear uma terceira guerra mundial?

Essa era uma pergunta muito simples de se responder duas semanas atrás, quando a gente não imaginava que as coisas fossem escalar para essa medida. Hoje a gente já trabalha com a hipótese de um conflito escalar, de o conflito acabar envolvendo outros países da Europa e do mundo. É muito pouco provável ainda, mas, diante do que está acontecendo na Ucrânia já é uma hipótese que está na mesa. É muito pouco provável por quê? Porque a gente está falando de Rússia, que é o maior arsenal atômico do mundo, é um país extremamente bem preparado, com um exército muito bem preparado, que tem uma declaração uma declaração incondicional de apoio da China que é outra potência mundial. A qualquer sinal de escalonamento de conflito, você traz para a mesa China, Estados Unidos, União Europeia, Otan. Então não é algo plausível. Esses países têm um potencial de destruição incomensurável. Embora haja esse receio, é uma situação onde ninguém sairia ganhando e o Putin já falou isso. [Já falou] que tem armas nucleares, tem um exército que seria menor ao da Otan, mas que não hesitaria em usar a força e encerrar uma guerra onde todos sairiam perdendo. A gente está diante de um governante que realmente perdeu a razoabilidade e, de fato, não uma guerra mundial, mas uma guerra de alta, de largas proporções agora passa aparecer no nosso horizonte. 

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