Os olhos do mundo estão voltados para o Leste Europeu deste a última quinta-feira (24), quando o presidente da Rússia, Vladimir Putin, autorizou a invasão de tropas militares no território da Ucrânia. Na ocasião, o líder russo se dirigiu ainda a lideranças de outros países e afirmou que interferências externas teriam respostas imediatas. Desde então, cidades foram atacadas, centenas de pessoas morreram no conflito e outras milhares tentam fugir do território ucraniano.  

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No último domingo (27), os Estados Unidos fizeram um alerta global após Putin se reunir com o ministro da Defesa, Serguei Choigu, e com o ministro do Estado Maior, Dmitry Yuryevich Grigorenko, no Kremlin, e ordenar que as forças nucleares fossem colocadas em “regime especial de alerta”. Esse aumento da tensão entre os países faz com que muitas pessoas questionem quais as chances dessa crise causar uma terceira guerra mundial.   

Segundo a Profa. Dra. Danielle Ayres, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina, neste momento a maioria dos especialistas acredita que a crise no Leste Europeu não é capaz de desencadear uma terceira grande guerra

— A maioria dos analistas acha que [o início da terceira guerra] é muito improvável porque, tanto por parte da Rússia, quanto por parte do Ocidente – considerando Estados Unidos, Europa Ocidental e Reino Unido – não há interesse que o conflito se alongue além da fronteira da Ucrânia. Para se tornar mundial, a guerra deveria ultrapassar as fronteiras para a Europa, mas isso não parece ser possivel e não parece ser do interesse de ninguém — explica Danielle Ayres. 

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Apesar de ser improvável, a especialista ressalta que não é algo completamente impossível. Segundo Ayres, a pequena chance do início de uma terceira guerra está ligada diretamente às ações do presidente russo. 

— É muito improvável uma nova guerra mundial, a não ser que o Putin ataque o Ocidente. A partir de uma ação contra países da Europa Ocidental, por exemplo, essa guerra poderia ir aumentando aos poucos com a integração de outras nações e os prejuízos seriam enormes — afirma.

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Danielle Ayres ressalta que o líder russo já tomou medidas que violam a soberania da Ucrânia e isso deve ser visto com atenção. 

— Essa guerra especificamente chama atenção porque o Putin está tomando medidas de violação de soberania e isso abre precedentes. Ele está quebrando um paradgma muito sério. Mas, uma guerra maior não é de interesse da comunidade internacional e o que a maioria dos especialistas pensa é que a tendencia desse conflito é se tornar de guerilha — afirma. 

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A professora lembra ainda que, de acordo com as normas que regem o militarismo na Rússia, o país que está sob o comando de Vladimir Putin pode usar armas nucleares para retaliar ataques. 

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— O Putin tem na sua doutrina militar a perspectiva e a diretriz de que, em caso de guerra, é possível retaliar um ataque com arma nuclear. É algo que faz parte da doutrina militar da Rússia diante de qualquer tipo de ataque contra o território russo. Ele tem essa legitimidade — pontua Ayres.   

Potencial escalada do conflito

A tensão que hoje está diretamente ligada à Rússia e Ucrânia pode atingir outras nações vistas como potências, se forem consideradas declarações recentes dadas por Vladimir Putin, que mostram a disposição do líder russo para enfrentar outros embates. 

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Segundo o jornalista e mestre em Rússia pela Universidade de São Paulo, Fabrício Vitorino, há algumas semanas uma invasão russa ao território vizinho não era aguardada, mas, aconteceu. Por isso, apesar de pouco provável, uma guerra entre a Rússia e membros da Otan não é mais uma opção totalmente descartada pelos especialistas. 

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— A ação da Rússia foi de invadir o território ucraniano, em nome de uma luta contra um genocídio de russos ou em nome da desnazificação da Ucrânia, e isso surpreendeu a muitos, senão a todos. Esse primeiro passo faz com que a gente realmente abra o leque de possibilidades para o que pode acontecer em um futuro próximo. No começo de fevereiro, em um encontro com o presidente francês Macron, o Putin foi bem explícito na sua comunicação ao dizer que ele sabe que em um embate com a Otan – que tem um exército muito maior e um poderio militar muito maior – ele sai em desvantagem e que o exército russo certamente seria derrotado. Mas, ele pontua naquela ocasião que a Rússia tem armas nucleares e ninguém quer um conflito nuclear e que ele estaria disposto a usar essas armas. Isso um mês atrás — lembra Fabrício Vitorino.

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Outro sinal que mostra a Rússia disposta a encarar uma possível escalada do conflito, apesar do poder destrutivo, é o fato de Vladimir Putin ter colocado as forças nucleares do país em alerta. 

— Conectando aquele discurso com o que ele fez ontem, que colocou em alerta máximo as forças militares de contenção russas, que controlam não só o arsenal militar, como os mísseis intercontinentais balísticos e os mísseis hiperssônicos… Quando ele coloca essa força militar em alerta máximo, ele sinaliza que está disposto a escalar esse conflito, levar para esse conflito armas sujas, armas de destruição em massa. Evidentemente armas nucleares com potencial destrutivo muito alto e virtualmente imparáveis. Diante desse cenário, a gente já enxerga no horizonte – embora sejam remotas – possibilidades de haver, não uma 3ª Guerra Mundial, mas um novo conflito onde toda a Europa ou todos os membros da Otan sejam envolvidos. Estaria de um lado a Rússia e Belarus sem muitos aliados e do outro lado todos os países da Otan. Esse é um desdobramento possível, mas ainda pouco provável dado o potencial destrutivo que esse conflito teria — explica o especialista. 

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Além de Rússia e membros da Otan, os analistas também não descartam completamente eventuais conflitos envolvendo países como China, Índia e Síria, devido às incertezas que envolvem os embates mais recentes. 

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— Em um outro front, no front russo, uma escalada do conflito com a entrada da Otan poderia arrastar para essa eventual guerra a China, que firmou uma parceria estratégica com a Rússia no início dos Jogos Olímpicos de Inverno e sinalizou que estava apoiando o presidente Putin. Também estariam envolvidos nesse conflito de certa forma a Índia, que tem uma cooperação militar muito profunda com a Rússia e com a China, assim como Síria também, a quem a Rússia protegeu e ajudou o ditador Assad durante a campanha contra o Talibã. Então, é muito pouco provável que aconteça uma guerra entre a Rússia e a Otan, a Rússia e a Europa, mas já é um cenário possível. É um pouco mais improvável que aconteça um cenário onde Rússia, China, Índia, Síria e mais alguns aliados estejam em um lado e a Otan do outro. Também é improvável, mas agora a gente já enxerga essa possibilidade — finaliza Vitorino. 

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