Primeira morte por coronavírus completa seis meses em Blumenau

Técnica de enfermagem de 34 anos morreu no dia 5 de maio depois de ser internada com sintomas do coronavírus

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Vanessa Salm tinha 34 anos (Foto: Facebook / Arquivo pessoal)

Seis meses. Meio ano. Parece que foi ontem. Parece que faz muito tempo. Para a família de Vanessa Neuber Salm, 34, os dias têm passado nessa dualidade e cheios de saudade e lembranças. A técnica de enfermagem foi a primeira moradora de Blumenau a perder a vida devido às complicações do coronavírus. Deixou dois filhos de sete anos, um de 17 e o marido.

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Naquele 5 de maio a pandemia ainda estava no começo em Blumenau. Eram 241 infectados em pouco mais de um mês. Em julho, no primeiro pico da doença, o município chegou a registrar uma média de 293 casos novos por dia. O cenário mudou muito: restrições, flexibilizações e ameaças de lockdown fizeram parte do enredo.

O uso de máscara se tornou obrigatório e o distanciamento social e higienização constante das mãos são recomendados exaustivamente. Ou seja, de lá para cá, a única coisa que não mudou foi a necessidade de adotar medidas preventivas.

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A sogra de Vanessa, Teresinha Salm, 67, conta que a família mantém os cuidados. As saídas seguindo as orientações das autoridades de saúde acontecem por motivos essenciais, como as idas ao supermercado e ao médico. Uma nova rotina também foi criada: semanalmente ela leva os netos para visitarem o túmulo da mãe.

— Nós ficamos na dúvida [sobre levá-los ou não], mas seria pior para eles. Hoje eles chegam no cemitério, brincam, conversam com ela e rezam do jeitinho deles — diz Teresinha.

Made with Flourish

Os mais novos, que são gêmeos, lidaram de jeitos diferentes com a perda da mãe. Um não aceitava falar do assunto. O outro, pelo contrário, pergunta a todo momento sobre maneiras de encontrar Vanessa de novo. Já houve questionamentos sobre renascimento e sobre a possibilidade de voar até as estrelas. O problema é que para a morte não há solução.

Vanessa foi a primeira, mas depois dela ao menos mais 161 morreram devido às complicações da Covid-19 em Blumenau até esta quarta-feira (4). A maior parte em agosto, depois do aumento significativo de casos registrados em julho. Das 162 mortes, 76 aconteceram no mês do desgosto.

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— Em julho a minha irmã morreu em casa, depois de sentir falta de ar e ter diarréia. Ela não foi testada e não podemos afirmar que também foi coronavírus, mas tivemos essa outra morte na família — lamenta Teresinha.

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Antes de falecer, Vanessa ficou internada. Foi uma dos 270 moradores a ocupar um leito de UTI, conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde desta segunda-feira (2). O mesmo levantamento mostra que, em média, cinco a cada 100 contaminados precisam de internação, seja com ou sem respiradores. Até o começo desta semana mais de 700 pessoas já haviam ficado nas enfermarias dos hospitais por conta do coronavírus.

Dos que chegam na UTI, quase metade não resiste. Normalmente são pessoas acima dos 60 anos. Nisso, Vanessa foge à regra. É uma dos pouco mais de 30 pacientes com menos de 60 anos que perderam a batalha para o inimigo invisível na cidade.

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Avanços e retrocessos 

Se há seis meses tudo ainda estava no começo em relação à pandemia, o conhecimento dos médicos em como combater o vírus também era outro. O infectologista Amaury Mielle contou que algumas evoluções nos tratamentos foram percebidas na “beira dos leitos”, como a utilização de corticoides e de anticoagulantes.

— Houve um avanço em relação a diminuir essas complicações que levam os pacientes a óbito. Isso faz com que a taxa de mortalidade seja menor do que foi lá trás, sem dúvida — explicou o especialista. 

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Nos casos mais leves, porém, os avanços foram poucos. A ciência ainda estuda o impacto da Covid-19 na rotina dos sobreviventes. As sequelas podem ser irreversíveis. Mas enquanto as pesquisas ocorrem e a corrida em busca de uma vacina não termina, os casos continuam sendo registrados em Blumenau.

Nessas últimas semanas, aumentos têm preocupado a gestão municipal. Se depois do pico a cidade chegou a ter uma média móvel abaixo dos 50, atualmente o índice já passa dos 100, com tendência de alta. Apesar do discurso de alerta, nenhuma medida restritiva tem sido adotada a nível local.

“Fica tranquila, está tudo bem”

— Se eu pudesse falar com a Vanessa diria para ficar tranquila, que dos meninos nós estamos cuidando. Que está tudo bem. Quer dizer, bem não está porque estamos sem ela, mas estamos tentando — emociona-se Teresinha.

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Com a perda repentina, a família se adaptou. Os avós ficam com os garotos durante o dia para o filho trabalhar. No fim da tarde ele busca os três para dormirem na casa que tiveram dificuldade em voltar a entrar nas primeiras semanas de luto. Os artesanatos que Vanessa fazia para ganhar um dinheiro extra ainda estão no mesmo lugar. A máquina que ela comprou para estampar camisas e canecas com o primogênito está parada.

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O desejo de Vanessa de tirar as rodinhas auxiliares das bicicletas dos gêmeos está sendo atendido pelos sogros. Aos poucos os pequenos têm conseguido pedalar sozinhos. A aventura, claro, será contada diante da foto da Vanessa no cemitério. Para a avó, o importante é que eles nunca esqueçam do amor e dedicação que a mãe tinha pelos três. 

Coronavírus em Blumenau

Nesta quarta-feira Blumenau confirmou mais 198 diagnosticados com Covid-19. Dos 1.114 em tratamento 35 estão internados. Considerando os pacientes de outras cidades, são 22 pessoas em UTIs e 30 em enfermaria. A cidade ainda totaliza 14,9 mil recuperados e 162 mortes.