Pais de pacientes com epidermólise bolhosa em SC clamam por amparo: “Sofrimento sem fim”

Em Santa Catarina, conforme dados da Secretaria de Estado da Saúde, existem 68 pacientes com epidermólise bolhosa

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A epidermólise bolhosa (EB) é uma doença rara que atinge 68 pacientes em Santa Catarina (Foto: Arquivo Pessoal)

Em Santa Catarina, conforme dados da Secretaria de Estado da Saúde, existem 68 pacientes com epidermólise bolhosa. Entre 20% e 25% dos casos são do tipo mais grave, necessitando de curativos especiais. Pelo menos 10 pacientes são contemplados com os insumos via judicial.

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Em setembro de 2023, uma reunião na Secretaria buscou uma saída para outras famílias, já que o tratamento é muito caro. O objetivo foi levar o Estado a buscar diretrizes e estruturar a linha de cuidados no atendimento. A secretária de saúde Carmen Zanotto esteve presente. Como ela deve ficar no cargo até abril, a expectativa das famílias é que a secretária dê encaminhamento às demandas apresentadas.

No encontro também estiveram a dermatologista pediátrica Jeanine Magno e a coordenadora da Área Técnica da Pessoa com Deficiência e Doenças Raras da secretaria, Jaqueline Reginatto. Na ocasião, foi definido que a área técnica da SES tem responsabilidade de construir o fluxo de atendimento por meio de serviços de referência. O Hospital Infantil Joana de Gusmão, de Florianópolis, é parâmetro em doenças raras para crianças. Mas os pacientes adultos estão desprotegidos dessa preferência.

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“Alguém político precisa olhar para nós”, diz presidente de associação

Presidente da Associação Catarinense dos Parentes, Amigos e Portadores de Epidermólise Bolhosa (Acpapeb), Daniela Correia Duarte, tem um filho de nove anos com a doença. À frente da organização, ela lida com a experiência da aflição, das práticas do cuidado e do estigma que cercam as famílias. Para ela, é importante o apoio político para que o tratamento seja assegurado em Santa Catarina:

— É um sofrimento sem fim para as famílias, pois nem sempre a Justiça aceita e sem os insumos a qualidade de vida dos pacientes desaba. A promotoria de Justiça da Infância, um deputado eleito pelo povo, alguém deveria olhar para nós — diz ela.

No comando da associação e convivendo com outras famílias na mesma situação, Daniela defende que o preconceito deve ser enfrentado. Muitos pacientes enfrentam problemas de autoestima. Ainda que o filho tenha uma vida próxima da normalidade, certa vez foi surpreendida pela criança:

— Meu menino perguntou se eu achava ele feio por causa das bolhas nos braços. Respondi que não, mas o fato de ter indagado mostra a importância da ajuda psicológica. Não condeno os olhares de estranhamento. Só com a visibilidade mudaremos essa realidade — argumenta.

A cada seis meses, Daniela e o filho se deslocam de Criciúma, no Sul do Estado, para atendimento no Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis. São consultas com dermatologista, dentista, nutricionista e muitos exames. Ela explica que desde 2019 aguarda, de Brasília, uma resposta ao processo de judicialização para garantir o tratamento. Município e Estado negaram o pedido.

— Por enquanto estamos comprando agulhas, sabonetes, hidratantes e o remédio. Contamos com a ajuda de uma empresa que manda amostras de curativos. Mas além do custo alto, sabemos que não é algo pontual, mas para toda a vida.

A luta por protocolo junto ao Ministério da Saúde

Leandro Rossi é presidente da Debra Brasil, instituição presente em 56 países que procura dar suporte com informações e expertise de profissionais de renome para familiares e pacientes com epidermólise bolhosa. Administrador de empresas em Belo Horizonte, ele tomou conhecimento da doença no nascimento de um sobrinho, hoje com cinco anos, quando foi acompanhar o parto.

A princípio, os Rossi se colocavam imunes a um problema de saúde da mãe e do recém-nascido devido ao acompanhamento da gestação num dos mais desenvolvidos centros do país.

— A minha descoberta foi dentro de um hospital privado, numa maternidade referência e com plano de saúde garantindo o melhor atendimento possível. Até então, nem o nome da doença eu conhecia —recorda ele.

A partir daquele momento, o tio da criança compreendeu que a informação correta poderia fazer a diferença. Através da Debra Brasil, os Rossi receberam o suporte de profissionais de saúde voluntários e de pais de pacientes que a família precisava. O enfrentamento o tornaria um ativista e defensor das boas práticas relacionadas à doença.

Para o presidente da Debra Brasil, são dois os caminhos a serem percorridos: a busca pela cura, e por isso o envolvimento em pesquisas em diferentes países; e a implantação de protocolos para melhoria da qualidade de vida dos doentes.

— O custo mensal de um paciente varia de acordo com o tipo de EB, mas a média oscila de R$ 30 mil a R$ 70 mil. Se levarmos em conta que somente 5% da população brasileira têm plano de saúde privado, podemos entender a dimensão e importância do Sistema Único de Saúde (SUS) — pondera Rossi.

Desde 2019, a Debra Brasil trabalha na elaboração de um protocolo junto ao Ministério da Saúde para Epidermólise Bolhosa. Aprovado em dezembro de 2021, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) estabelece um guia com normas para o tratamento que assegure os insumos necessários e cuidados específicos para cada subtipo da EB.

Estatísticas da Debra Brasil mostram que nos últimos cinco anos a notificação cresceu no país. Estima-se em torno de 5 mil casos, porém, apenas 1.400 cadastrados. São 14 associações estaduais e algumas organizações da sociedade civil atuando diretamente em questões mais assistenciais junto às famílias.

Na Bahia, temos um protocolo estadual já implementado e acompanhado pelo Ministério Público. Minas Gerais também está buscando implementar, enquanto a Assembleia do Rio de Janeiro criou a Lei Gui, que garante um salário para os pacientes.

— Nosso desejo é que todos os Estados sigam essas referências e que busquem suas leis — sugere o presidente da Debra Brasil.

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