“Ainda precisamos quebrar paradigmas”, diz primeira mulher a comandar Polícia Científica de SC

Andressa Boer Fronza ocupa o cargo de perita-geral do Estado desde janeiro de 2023

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Primeira mulher a comandar a Polícia Científica em SC

Em entrevista ao NSC Total, a perita-geral destacou os desafios da profissão (Foto: Arquivo pessoal)

“Quando uma mulher ocupa um espaço de liderança, mostra que esse caminho é possível e inspira outras a acreditarem em si mesma”. É o que diz a perita-geral Andressa Boer Fronza, a primeira mulher a comandar a Polícia Científica de Santa Catarina. No cargo desde 2023, a profissional destaca os desafios e responsabilidades em uma área onde cerca de 80% dos cargos são ocupados por homens.

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Formada em Fonoaudiologia e mestre em Distúrbios da Comunicação Humana, ambas pela Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Andressa conta que começou a carreira na Polícia Científica em 2011, quando entrou como perita. Na época, atuava em locais de crime contra a vida, o patrimônio e em perícias de áudio e imagem, como comparação facial e de locutores.

Em 2021, a perita entrou para Administração Central, onde passou a coordenar projetos e fazer captação de recursos. Ela assumiu como perita-geral do órgão em janeiro de 2023, a convite do governador do Estado, Jorginho Mello (PL).

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— Acredito que liderar com empatia, firmeza e autenticidade encoraja outras mulheres a perceberem que podem ocupar qualquer lugar sem abrir mão da sua essência — diz.

NSC Total conversou com Andressa sobre o início da carreira, os desafios enfrentados dentro de um órgão majoritariamente masculino, além das novas tecnologias da Polícia Científica de Santa Catarina. Confira:

A senhora construiu uma carreira técnica sólida até chegar ao cargo máximo da Polícia Científica de Santa Catarina. Como foi conquistar esse espaço em um ambiente historicamente dominado por homens?

Minha trajetória na Polícia Científica de Santa Catarina (PCISC) começou em 2011, como Perita Oficial, atuando em locais de crime contra a vida, contra o patrimônio e em perícias de áudio e imagem, como comparação facial e de locutores. Em 2021, passei a trabalhar na Administração Central, coordenando projetos e captação de recursos, sempre com uma visão técnica e criteriosa, defendendo investimentos em modernização tecnológica.

Na carreira de Peritos Oficiais, pouco mais de 20% do quadro são mulheres, e, logo no início, percebi a necessidade de ser mais fechada/séria para não dar margem para comentários. Sem abrir mão da sensibilidade e do olhar atento aos detalhes, características que considero essenciais para servir à sociedade e buscar a verdade. Busquei quebrar preconceitos sobre ser mulher nessa carreira mais masculina.

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Jorginho Mello me conheceu em uma reunião no Congresso Nacional, enquanto eu apresentava projetos da Polícia Científica, e, a partir desse encontro, culminou com o convite para, desde 2023, ser a primeira perita mulher a comandar o órgão oficial de perícia de natureza criminal em Santa Catarina, em mais de 100 anos de instituição. O governador Jorginho é um líder que ouve e valoriza as mulheres, por isso seu secretariado é composto por um alto percentual de mulheres.

Como Perita-Geral, mantive minha essência e a perspectiva feminina aliadas à técnica e a seriedade que sempre desempenhei minhas funções, liderando pelo exemplo e não pela força. Percebi habilidades importantes: escutar com atenção, cumprir com nossa palavra, exigir excelência da equipe, ter visão e propósitos claros, dizer sim e dizer não, e, acima de tudo, líderes servem aos outros.

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Hoje também presido do Conselho Nacional de Dirigentes de Polícia Científica (CONDPCI), espaço em que sigo atuando com coragem, firmeza e sem competições de gênero, pois vejo que a diversidade de perspectivas sempre gera melhores resultados.

Que impacto essa representatividade tem para outras mulheres que sonham com cargos de liderança?

Representatividade tem um efeito multiplicador. Quando uma mulher ocupa um espaço de liderança, mostra que esse caminho é possível e inspira outras a acreditarem em si mesmas. Acredito que liderar com empatia, firmeza e autenticidade encoraja outras mulheres a perceberem que podem ocupar qualquer lugar sem abrir mão da sua essência.

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Quais foram os maiores desafios enfrentados como mulher na ciência forense e na gestão de uma instituição tão estratégica para a segurança pública?

Um desafio constante é lidar com percepções equivocadas. Muitas vezes, características como delicadeza, voz suave ou aparência podem ser vistas como fragilidade. Quando adoto uma postura mais assertiva, pode ser interpretada como agressividade, algo que em homens costuma ser considerado positivo.

Sempre fui respeitada pelos meus pares, porém já ouvi comentários que revelam como a visão superficial pode distorcer a realidade. Certa vez, uma pessoa me disse que, vendo apenas minhas fotos de redes sociais, acreditava que eu fosse uma “figura decorativa”, mas ao conhecer o meu trabalho desenvolvido mudou completamente esse conceito. Esses estigmas não diminuem meu trabalho, mas mostram o quanto ainda precisamos quebrar paradigmas.

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A Polícia Científica planeja lançar novas tecnologias que podem contribuir positivamente para SC? Quais?

Sim. A tecnologia é uma aliada indispensável da perícia. Com apoio do Governo do Estado, já modernizamos e implementamos bancos periciais, adquirimos extratores avançados de dados, computadores de alto desempenho, tablets multiespectrais e scanners 3D — mesmas tecnologias usadas nas principais polícias científicas do mundo.

Estamos desenvolvendo inteligência artificial para auxiliar em exames periciais, fortalecendo laboratórios e incorporando análises sofisticadas, como a de microvestígios com microscópio eletrônico de varredura. Em breve, também teremos novidades na forma de emissão de documentos de identidade, trazendo mais agilidade e segurança ao cidadão.

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Em sua opinião, quais barreiras ainda precisam ser quebradas para que mais mulheres alcancem cargos de comando nas forças policiais e científicas?

O maior desafio ainda é cultural: a ideia de que liderança está vinculada à força física ou a perfis masculinos, sendo que é necessário analisar o mérito e a competência antes de qualquer estereótipo. Vejo que temos avançado muito, principalmente com as lideranças atuais que ouvem e valorizam cada vez mais o trabalho feminino, além do aumento do percentual de mulheres nas forças de segurança.

Que conselho deixaria para meninas e jovens mulheres que querem seguir carreira nas ciências forenses e ocupar posições de destaque no serviço público?

Para a carreira nas ciências forenses, é importante ser uma pessoa que gosta de estudar, de trabalhar em equipe, que tenha uma visão multidisciplinar e a habilidade de enxergar detalhes. A capacitação continuada fará parte de toda a carreira. Você lidará com o pior do ser humano, mas terá a possibilidade de ver o trabalho trazer respostas para vítimas e seus familiares, além de alicerçar todo o sistema de segurança pública e justiça criminal. 

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Não esperem por cargos de nome importante para exercer liderança. Brilhem onde estiverem, com coragem e dedicação à sua função atual. Estudem, busquem referências, preparem-se para quando a oportunidade chegar. Tenham fé, e, acima de tudo, mantenham-se fiéis à própria essência.

Antonietas

Antonietas é um movimento da NSC que tem como objetivo dar visibilidade a força da mulher catarinense, independente da área de atuação, por meio de conteúdos multiplataforma, em todos os veículos do grupo. Saiba mais acessando o link.

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