A decisão de afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, tomada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), escalou uma crise que já vinha elevando a tensão na Suprema Corte. O caso ganhou intensidade na semana passada, após a divulgação de mensagens enviadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, ao ministro Alexandre de Moraes.
Andrei teve o nome mencionado em mensagens de Vorcaro a Moraes dois dias antes de o banqueiro ser preso pela primeira vez, em novembro de 2025. O dono do Master teria pedido a Moraes que tentasse reverter investigações e uma possível operação contra o banco. Naquele momento, Vorcaro afirmava que tentava negociar a venda do Master para investidores árabes, e que se houvesse uma operação, a negociação poderia fracassar.
“Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?”, escreveu Vorcaro a Moraes, segundo mensagem revelada por investigação da própria PF divulgada pelo ministro André Mendonça, ainda na semana passada.
Vorcaro teria citado o nome Andrei em outras mensagens, também no contexto de possíveis investigações em andamento. “E com Andrei da pra segurar?”, escreveu, um dia antes de ser preso. Em outras mensagens, teria sugerido incluir um nome entre convidados a uma viagem a Londres. “O que acha de eu convidar o DPF Andrei”, escreveu, ao ex-ministro do governo Bolsonaro, Fábio Faria.
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Decisão de afastamento se deve a relatórios divulgados por Moraes
A decisão de afastar Andrei do comando da PF, no entanto, não se refere diretamente às possíveis menções do nome do chefe da corporação em conversas entre Vorcaro e Moraes. Embora este tenha sido o motivo do pedido feito pelo Partido Novo, que chegou a propor a prisão preventiva de Andrei e motivou a decisão de Mendonça, o afastamento do diretor-geral do comando da PF foi justificado em razão de “gravidade e ilicitude na produção dos ‘relatórios de inteligência’ publicizados pelo Ministro Alexandre de Moraes”.
Como reação à divulgação das mensagens de Vorcaro na semana passada, Alexandre de Moraes incluiu seis relatórios da PF contra Mendonça no chamado “inquérito das fake news”, de sua relatoria, e pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, que fosse aberta investigação contra Mendonça. Em resposta, Fachin excluiu os relatórios do inquérito em andamento desde 2019 e determinou que eles fossem avaliados separadamente na Suprema Corte.
Mendonça avaliou esses relatórios e identificou pontos que considerou ilicitudes na sua elaboração. A mais grave delas seria o fato de que o próprio ministro estaria sendo monitorado há pelo menos um mês pelo setor de inteligência da PF.
“Trata-se de monitoramento ilícito de Ministro da Suprema Corte do país, o que por si só revela a gravidade da situação”, escreveu.
“Fragilidade técnica” e “ilicitudes”
No documento que pede o afastamento de Andrei, Mendonça afirma que os relatórios apresentados por Moraes teriam “fragilidade técnica” e “ilicitudes”. Segundo o ministro, eles seriam “apócrifos” (sem timbre ou outro símbolo que o identifique como vindo da PF e aponte a data da elaboração). Outro fato grave para o ministro seria o fato de Alexandre de Moraes ter sido comunicado sobre a existência desses relatórios, o que o teria levado a tentar incluir os relatórios no inquérito das fake news.
Mendonça também critica conclusões apontadas nos relatórios de que o Advogado-Geral da União, Jorge Messias, teria negado pedidos da PF para preservar “relação política com o relator [Mendonça]”. A relação entre Messias e Mendonça ainda é citada em outro trecho do relatório em que a proximidade dos dois se deveria à “matriz religiosa comum” e ao fato de ambos terem obtido apoio de igrejas evangélicas nas candidaturas ao STF (Messias foi indicado por Lula, mas teve o nome rejeitado pelo Senado em abril deste ano).
Além da produção de relatórios sem identificação e informados a Moraes, os documentos do setor de inteligência também teriam revelado a existência de investigações sob sigilo, pendentes de decisão judicial contra dois políticos (Antônio Rueda e ACM Neto, ambos do União Brasil). Para Mendonça, isso teria prejudicado investigações.
“Ocorre que, diante da natureza dos ‘relatórios’ apresentados, e considerando ainda a identificação de elementos que põem em xeque a real autoria da ‘documentação’ trazida à lume, o afastamento preventivo do atual responsável pela Diretoria de Inteligência Policial da Polícia Federal (DIP/PF) também se mostra
como medida urgente e igualmente necessária.”, concluiu Mendonça na decisão desta terça-feira.
O afastamento de Andrei Rodrigues foi determinado em caráter liminar e estará em vigor a partir da intimação do diretor-geral da PF. A confirmação da decisão já teve maioria de votos na 2ª Turma do STF, mas a análise foi suspensa após pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. O número 2 da PF, William Marcel Murad, deve responder pela corporação durante o impedimento do titular. Nesta terça, o substituto já saiu em defesa do chefe ao afirmar que a PF não se “deixará abalar por ataques, venham de onde vierem”.










