Nas andanças por cinemas, deparei-me com “La Memoria Infinita”, documentário chileno de 2023 dirigido por Maite Alberdi. O filme revela o sensível relacionamento de Augusto Góngora e Paulina Urrutia. Aos interessados, daqui para a frente contém spoilers. Eles são casados há 23 anos. Góngora é um dos jornalistas culturais e apresentadores de TV mais importantes do Chile. Paulina, a “Pauli”, é uma atriz que foi ministra da Cultura e das Artes do país de 2006 a 2010.

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Góngora foi diagnosticado com Alzheimer. “Pauli” cuida dele. Ele dedicou-se a fazer com que os crimes e as atrocidades do ditador Augusto Pinochet não fossem esquecidos. Ela lutou para manter e preservar a identidade do marido.

Os anos passam, as dificuldades causadas pela doença aumentam. A história segue com inteligência, ternura, generosidade, amor e o senso de humor que os uniu por toda a vida.

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A casa deles é tomada por livros. Os livros que Góngora juntou durante anos e anos. Os livros com os quais mantém uma relação amorosa e aos quais se agarra diariamente em plena doença. Os livros que o fazem chorar e perguntar quem vai cuidar deles quando partir (Góngora morreu em 19 de maio deste ano).

Me faço esta pergunta quase sempre: quem vai cuidar dos meus livros quando chegar a minha vez? O que acontecerá com eles? Serão abandonados, esquecidos, doados, usados, vendidos, jogados no lixo, rasgados, queimados?

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Meus livros estão espalhados por três residências, em Florianópolis, no Rio de Janeiro e em São Paulo (casa da namorada, Cíntia, uma santa). Estão em estantes, jogados pelo chão, em todos os cantos, até em armários de roupas, juntos com cuecas, camisetas e pares de meias. São onipresentes.

Eles são um retrato de minha vida, um pedaço de minha história. São parte da incasável e inegociável busca pelo conhecimento. Me ajudam a tentar entender os paradoxos, as idiossincrasias e a inviabilidade dos seres humanos. Não paro de comprá-los – mesmo sabendo que o tempo é efêmero e que não conseguirei dar a eles a atenção que merecem.

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César Seabra: A impossível vida sem conflitos

A coleção das obras de Albert Camus, em todas as línguas possíveis, cresce. Amigos em viagens são sempre convocados e desafiados a me ajudar. Sacrifício feito, agradeço e, depois, me pergunto: meu deus, quando lerei Camus em holandês, leto ou finlandês? Nunca.

Olho para eles, os livros, com paixão imortal. Livrarias (sebos também) são como o paraíso, roubando a frase de Jorge Luis Borges. Os livreiros, “catalisadores de informações e experiências dos leitores e propagadores de histórias”, como disse Flávia Santos, da livraria paulista Megafauna.

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Muitas vezes a companhia dos livros dispensa a dos homens. “Os livros são espelhos da alma”, disse Virginia Woolf. Seria impossível viver sem a presença de seus perfumes e de suas páginas.

A arte dos microcontos

Marguerite Duras, escritora francesa:

“Caminhais em direção da solidão. Eu, não, eu tenho os livros”

Paul Valéry, escritor francês:

“Os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a umidade, os bichos, o tempo e o próprio conteúdo”

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Francis Bacon, filósofo britânico:

“Há livros de que apenas é preciso provar, outros que têm de se devorar, outros, enfim, mas são poucos, que se tornam indispensáveis, por assim dizer, mastigar e digerir”

Miguel Unamuno, escritor espanhol:

“Se amo alguns livros são aqueles em que sinto que o seu autor, que pode ter morrido séculos antes de eu ter sido engendrado, se dirigia a mim, a mim pessoal e concretamente, a mim em confidência”

Jorge Luis Borges, escritor argentino:

“Só se devem ler livros escritos há mais de cem anos”

Mario Quintana, escritor brasileiro:

“Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem”

Castro Alves, poeta brasileiro:

“Bendito aquele que semeia livros e faz o povo pensar”

Simone de Beauvoir, escritora francesa:

“Quando eu era criança, quando eu era adolescente, os livros me salvaram do desespero: me convenceram de que a cultura era o mais alto dos valores”

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