Will Gompertz é um dos maiores especialistas em artes plásticas do mundo. O britânico foi diretor, por sete anos, da Tate Gallery e hoje está à frente do Barbican Centre, em Londres. Escreve sobre o tema com simplicidade sem ser simplório, em linguagem coloquial e sem academicismos, para que todos possam entender. É um professor e um contador de histórias brilhante, como prova em “Como os Artistas Veem o Mundo”, lançado pela editora Zahar.

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Neste livro ele mostra o quanto podemos aprender com os artistas sobre momentos cotidianos de beleza e encanto – momentos que nos passam desapercebidos. “Todos os artistas são especialistas do olhar. Podemos aprender a olhar e vivenciar o mundo com a percepção aguçada de um artista: ter a alegria de ver o mundo com olhos verdadeiramente afiados”, afirma Gompertz.

Artistas aprendem a desaprender, a ver como se fosse a primeira vez. É o tal do estranhamento. Frequentemente não damos a mínima para o que nos cerca. É a tal da falta de estranhamento. Um buraco na rua, o choro de um colega de trabalho, o pôr do sol e o nascer da lua, a chuva que cai, a solidão e a tristeza do morador de rua, o sorriso bonito da pessoa que amamos. Cenas banais, que Will Gompertz prefere chamar, citando o artista britânico David Hockney, de o “esplendor do cotidiano”.

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Dia desses Dona Leila, a Fera da Tijuca, minha mãe, foi à festa de um casal de amigos. Ela era uma das mais animadas da noite. Dançou sem parar – rock, funk, sertanejo, samba. Dançou com anfitriões, convidados, garçons. Passos (des)coordenados, sempre com o sorriso no rosto e os olhos azuis brilhando. Sem medo de ser feliz.

Tive acesso às imagens através de minha irmã Catia. Como não me emocionar com tanta formosura? Como não chorar com tanto deslumbramento? Como não estranhar tanta vida e alegria numa pessoa de 83 anos?

Vivemos tempos estranhos. Tempos de tiquetoqueiros e instagramáveis. De gente que vai a um show de música e sequer ouve a voz do artista, pois o mais importante é fazer caras e bocas e se autoclicar. De gente que vai a um restaurante e sequer sabe o que está provando, afinal o importante é postar. São tempos de sentimentos adormecidos, olhos fechados. Tempos de zumbis “moderninhos”. Tempos de desonestidade intelectual, ignorância e desprezo por surpresas oferecidas pelo dia a dia.

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O que Will Gompertz prega neste livro é a obsessão pelo olhar. Os 31 importantes artistas analisados por ele nos impõem uma espécie de desafio: ver o que estamos perdendo. É verdade. Exatamente neste momento a beleza da vida pode estar ao seu lado.

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Pra refletir

Caio Fernando Abreu, escritor brasileiro:

“Se você souber olhar as coisas dum jeito mágico, tudo fica mais bonito”

Carl Jung, pensador, psiquiatra e psicoterapeuta suíço:

“Sua visão se tornará clara somente quando você olhar para dentro do seu coração. Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda”

Charles Chaplin, ator e diretor britânico:

“Você nunca achará o arco-íris, se você estiver olhando para baixo”

André Guide, escritor francês:

“Que a importância esteja no teu olhar, não naquilo que olhas”

Goethe, escritor alemão:

“Do que vale olhar sem ver?”

José Saramago, escritor português:

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”

Florbela Espanca, poetisa portuguesa:

“Trago no olhar visões extraordinárias, de coisas que abracei de olhos fechados”

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