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Opinião

O pachequismo está no ar

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Por César Seabra
31/07/2021 - 06h00 - Atualizada em: 31/07/2021 - 09h17
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Atletas e o Pacheco (Foto: Arte NSC sobre Fotos de Kohei Chibahara, Yuki Iwamura, Lionel Bonaventure, Yuri Cortez/AFP e Reprodução)

Em tempos de negacionismos, extremismos, revanchismos e negativismos, os Jogos Olímpicos do Japão trazem de volta o fenômeno do pachequismo. Onde surgiu isso? Em 1982, na Copa da Espanha, quando o Brasil de Zico, Sócrates, Falcão, Júnior & Cia era o grande favorito ao título mundial. Pacheco era o personagem de uma publicidade na televisão - ele gritava, esperneava, cantava, enchia a paciência de deus e o mundo. Uma mala insuportável. Com ele, nascia esta importante corrente do pensamento filosófico moderno: o pachequismo.

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Torcedores, narradores e comentaristas doentios e quase-cegos passaram a ser chamados de “pachecos”. Graças a eles foram criadas frases e variantes como esta: “Ganhar é bom, mas ganhar da Argentina é muito melhor”. Para eles não há adversários do outro lado. Seja o “esporte” que for (sinuca, frescobol, biriba, dama, dominó, peteca, pique-esconde, pingue-pongue, bocha, capoeira, pebolim, futevôlei, pega-ladrão), os brasileiros são imbatíveis. Não se admite derrota: é injusto ou roubalheira (cadê o VAR, seu juiz?).

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Tenho vários e queridos amigos “pachecos”. Dessa vez me rendi. Sinto-me um pachequista juramentado ao varar madrugadas, acompanhar nossos atletas, gritar na esgrima, no handebol, no vôlei de praia, no triatlo, no ciclismo, no badminton, na ginástica artística. A emoção do surfista de ouro Ítalo Ferreira; as pratas dos skatistas Rayssa Leal e Kelvin Hoefler e da ginasta Rebeca Andrade; e os bronzes dos judocas Mayra Aguiar e Daniel Cargnin e o do nadador Fernando Scheffer. Chorei com todos eles. (Esta coluna foi fechada na começo da manhã de quinta-feira, 29 de julho, quando o Brasil tinha sete medalhas conquistadas).

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Na cobertura da TV Globo, o slogan diz que os Jogos de Tóquio despertam o melhor de nós. Mas vem no pacote o pior de nós, somos flagrados torcendo e vibrando por derrapadas e tombos alheios. Coisas de “pacheco”.

 Minha transformação tem uma descomplicada razão. Vivemos num país cujo governo cultiva as políticas da destruição e do ódio, onde já perdemos mais de 550 mil pessoas para a pandemia da Covid-19, onde a cultura, a educação e o esporte não são dignamente valorizados. Vivemos tempos nefastos, sombrios, coléricos. Precisamos de Fadinhas e Ítalos para nos tirar da prostração, do abatimento, da desesperança. Necessitamos do carisma de Douglas Souza (craque do vôlei) e da alegria da Marta (deusa do futebol) para que possamos escapar do entorpecimento e da loucura.

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Ser “pacheco”, agora, é questão de honra. É sinônimo de respeito ao próximo e à vida, à diversidade e ao humanismo. É sentir amor por um país cujo futuro é obscuro. Até 8 de agosto vencerei as horas de sono, serei fervoroso adpeto do pachequismo. Não tentem me controlar. Pena que todo o carnaval tem seu fim.

Nem tudo são flores

Nunca imaginei skatistas na disputa acirrada por medalhas. Em minha inocência, o skate é lugar para improviso, diversão, alegria, lazer, sem tornar-se fardo mental. Por isso, talvez nunca tenha ouvido falar em confusões neste esporte. Pois bem, ganhamos a primeira medalha em Tóquio e o skate brasileiro entrou em crise, com acusações e cancelamentos. Como diria um “pacheco” debochado, não tem mais bobo no mundo do skatismo.

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Aos 13 anos

Quando Rayssa ganhou a medalha de prata, a pergunta correu nas redes antissociais: o que você estava fazendo aos 13 anos? Lembro da Copa de 74, na Alemanha. Durante os jogos do Brasil era certeiro: faltava luz. O radinho de pilha nos salvava. Por onde andarão os amigos daqueles tempos? Sinto saudade das dúvidas, dos medos e do frescor da adolescência.

Pra refletir

Do argentino Alberto Manguel

“Não costumo procurar novidades e excitação. Não busco satisfação em aventuras, e sim na rotina. Sinto prazer naqueles momentos em que não preciso refletir sobre os atos cotidianos. Gosto de atravessar um cômodo com os olhos fechados, sabendo onde tudo se encontra”.

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As percepções sobre Santa Catarina, o Brasil e o mundo a partir do olhar do diretor de jornalismo da NSC Comunicação, César Seabra.

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