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César

Crônica

O retrato de um povo

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Por César Seabra
24/08/2019 - 06h00

Amo futebol. Sentimento que nasceu no fim dos anos 60 do século passado, quando ia ao Maracanã com meu pai. Vi muitos craques, evoluções, inovações e retrocessos táticos. Vibrei com vitórias, chorei derrotas (não é nada fácil torcer para o Botafogo). Vejo futebol, sobretudo, como o retrato de uma sociedade.

O nosso futebol é reflexo da falta de educação, da malandragem, da esperteza, do desejo de levar vantagem acima de tudo e todos, do desrespeito, do espírito-de-porco e da pobreza que dominam o povo.

Conseguimos desacreditar o VAR – tecnologia que chegou para trazer justiça e lisura ao esporte. Conseguimos desmoralizar o litúrgico minuto de silêncio. Conseguimos perverter até o fairplay. Sem falar na violência, nos xingamentos, na homofobia.

É sempre bom lembrar o caso da Inglaterra. Em 1989 aconteceu a Tragédia de Hillsborough, num jogo entre Liverpool e Nottingham Forest. Noventa e seis torcedores morreram pisoteados, 766 ficaram feridos. Foi o maior desastre do futebol inglês e um dos maiores do mundo.

O hooliganismo crescia e assustava a Europa. Invasões de campo e violência, antes e depois das partidas, eram comuns. Mas neste caso as investigações apontaram que a tragédia foi causada pelas péssimas condições do estádio e total falta de segurança.

Dali para frente tudo mudou. O futebol virou uma questão de Estado. A então primeira-ministra Margaret Thatcher foi ao Parlamento e chegou a dizer: “Os hooligans estão acabando com as nossas famílias”.

E hoje o que se vê na Inglaterra é um espetáculo. Estádios lotados, torcedores educados, times poderosos, entendimento, aceitação e respeito às regras, aos árbitros e aos adversários. O jogo é simplesmente jogado com honestidade.

Seria a sociedade britânica a mais bem organizada e exemplo a ser seguido pelo mundo? Não, eles têm muitos problemas também (olha o Brexit aí), uma realidade bastante distante da nossa. Mas o nosso dia a dia traz provas do caos em que vivemos. O fundo do poço é logo ali. 

Esta semana tivemos um fato raro. Um dos principais times de Santa Catarina não entrou em campo, em Cuiabá, e perdeu por W.O. – o walkover, quando o rival não se apresenta para competir. Motivo: salários atrasados. Uma vergonha para o brioso futebol catarinense.

É como filosofou o baiano Vampeta: os dirigentes fingem que pagam, os jogadores fingem que jogam, a torcida finge que nada vê e a vida segue, “com passos de formiga e sem vontade” (obrigado, Lulu).

O futebol é realmente o retrato de uma sociedade.

Culpa de quem?

Uma poderosa arma dos incompetentes é culpar os outros por eventuais desastres administrativos, seja no mundo político, esportivo, corporativo, onde for. Neste momento, jornalistas têm sido responsabilizados por muitos fracassos e absurdos. É como diz Dona Leila, minha mãe: “O macaco não costuma olhar o próprio rabo.”

Com Borges

Do escritor argentino Jorge Luis Borges: “Não sei exatamente por que acredito que um livro nos traz a possibilidade de ser feliz. Mas eu me sinto verdadeiramente agradecido por esse simples milagre.”

 Que os deuses perdoem as cidades que não têm uma boa livraria.

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