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    ''Acho lamentável que as pessoas se iludam'', diz médica da Fiocruz sobre uso de ivermectina e cloroquina

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    Dagmara
    Por Dagmara Spautz
    11/07/2020 - 09h42
    Médica Margareth Dalcomo na Assembleia Legislativa do RJ, em março
    Médica Margareth Dalcomo na Assembleia Legislativa do RJ, em março (Foto: Maurício Bazílio - SES/RJ)

    A pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), médica Margareth Dalcomo, falou à coluna sobre a expectativa de evolução da pandemia para os especialistas. Uma das pneumologistas mais experientes e respeitadas do país, ela afirma que ainda vivemos a primeira onda da pandemia, e alerta que o enfrentamento do vírus pode se estender pelos próximos meses no Brasil.

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    Entrevista: Margareth Dalcomo

    Temos ouvido falar em segunda onda da pandemia. Isso é verdade, ou ainda estamos enfrentando a primeira?

    Absolutamente não há nada que indique nenhum lugar do mundo que esteja tendo, ou vá ter, uma segunda onda até o momento. No Brasil, o que estamos vivendo é obviamente uma primeira onda, com uma relativa estabilização em alguns locais e um aumento da transmissão viral em outros. A epidemia é extremamente heterogênea no Brasil, então há locais em que os estudos sorológicos têm mostrado uma circulação viral importante ainda, e outros lugares (com circulação) ainda crescente, como imagino que seja no Sul.

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    Estamos vivendo uma aceleração em SC.

    A transmissão aumentou, a taxa de ocupação de leitos aumentou, e existe um índice, uma taxa epidemiológica, que se chama RT, que é a taxa de transmissibilidade, que revela aonde e quanto o vírus está circulando. Isso varia muito. Nós ainda estamos no momento em um platô que provavelmente, dadas as condições de não cumprimento das recomendações de distanciamento social, vai durar muito ainda.

    Dadas as condições de não cumprimento das recomendações de distanciamento social, vai durar muito ainda.

    Há previsão de até onde isso pode ir?

    Temos alguns meses de epidemia pela frente ainda, variando de gravidade. Então, haverá momentos em que vai haver fechamentos, outros momentos de abertura. Essa flexibilização exige uma logística bastante complexa, do ponto de vista das autoridades locais, prefeituras, etc. Ela precisa ser assim. E nós temos os exemplos dos países que nos antecederam. Portugal abriu tudo, e agora fechou de novo. Então, depende do monitoramento da circulação viral.

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    Você não pode abrir um local onde circulam muitas pessoas, nas condições atuais, sem uma testagem maciça.

    Qual é a recomendação para este momento de aceleração? É de aumentar leitos ou de isolamento?

    Depende da situação epidemiológica. Por isso digo que a logística de conter a epidemia neste ponto em que nós estamos é muito complexa, porque vai variar muito de um local para outro. Há locais que precisam ter um fechamento mais rígido, há locais em que se pode abrir e ir retomando as atividades de rotina, aos poucos, e há locais que vão arriscar. Uma empresa, uma fábrica, têm que ter os mecanismos epidemiológicos e sanitários recomendados por nós, que são a testagem coletiva de todo mundo. Você não pode abrir um local onde circulam muitas pessoas, nas condições atuais, sem uma testagem maciça.

    É um ponto em que estamos falhando muito?

    O Brasil melhorou um pouquinho, mas ainda é um dos países que menos testam no mundo.

    O quanto estamos defasados em relação ao número de casos?

    Nossa estimativa, feita pelos epidemiologistas, é que para cada caso detectado no Brasil tenhamos outros 10. Com um milhão e meio (confirmados), devemos ter 10 milhões de casos no Brasil.

    Devemos ter 10 milhões de casos no Brasil.

    O presidente Jair Bolsonaro teve a confirmação de Covid-19 e fez propaganda da cloroquina. Como a senhora vê isso?

    Vejo da maneira como a ciência vê, com muita tristeza. Felizmente ele parece estar evoluindo para a forma leve de doença, que irá melhorar independentemente do uso de qualquer medicamento. Então, ele vai melhorar com, sem, e apesar da cloroquina. A cloroquina é um remédio que não tem a menor indicação, nem para formas graves, onde ela já foi abandonada e contraindicada pelo FDA, que é o órgão regulatório norte-americano. 

    (Bolsonaro) vai melhorar com, sem, e apesar da cloroquina.

    Ela não é recomendada por nenhuma sociedade médica, inclusive as brasileiras. A Sociedade Brasileira de Pneumologia e a Sociedade Brasileira de Infectologia, ambas se manifestaram contraindicando o uso por falta de qualquer demonstração científica de efetividade, portanto nós vemos com tristeza que o presidente esteja se expondo a usar medicamentos que não tenham nenhuma indicação.

    E a ivermectina?

    Pior ainda. É uma coisa muito lamentável, que revela uma falta de conhecimento. A ivermectina é um vermífugo, usado há muitos anos para tratamento de vermes e piolhos. Existe na formulação humana e veterinária, é muito usada na veterinária para tratar vermes de gado. Foi um dos fármacos, entre muitos outros, que são sempre estudados em laboratório para verificar se podem servir para alguma coisa. Estudos in vitro (em laboratório) não têm nada a ver com in vivo (em seres vivos). A distância que existe entre um estudo feito no laboratório e no ser humano é muito grande. 

    (Ivermectina) é uma bobagem, não faz o menor sentido.

    As doses de ivermectina que foram testadas em laboratório, que não mostraram ser viricida, isto é, não matam o vírus, mas poderiam reduzir a replicação viral, são dezenas, centenas de vezes mais altas do que aquelas que são tomadas comprando o remédio na farmácia. Portanto, é uma bobagem, não faz o menor sentido.

    Como vê a adoção da ivermectina como método profilático?

    Acho lamentável e demagógico.

    Há grupos médicos que se posicionam a favor de protocolos com esses medicamentos. O que ocorre quando a ciência diz uma coisa, e grupos de médicos dizem outra?

    Acho muito lamentável que isso esteja ocorrendo, que as pessoas se iludam e que nós não utilizemos o melhor da ciência para dizer a verdade e esclarecer as pessoas. 

    É uma doença para a qual, até este momento, não há nenhum medicamento que tenha demonstrado eficácia.

    É uma doença para a qual, até este momento, não há nenhum medicamento que tenha demonstrado eficácia, isto é, resultado em laboratório, e nem efetividade, que é resultado no mundo real, nas pessoas.

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