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    Manifesto de médicos de SC defende ciência e alerta para risco dos coquetéis anti-Covid

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    Dagmara
    Por Dagmara Spautz
    09/07/2020 - 10h27
    Foto: Fotoarena/Folhapres
    Foto: Fotoarena/Folhapres (Foto: Foto: Fotoarena/Folhapres)

    Um grupo de mais de 600 médicos assina um manifesto público que defende a medicina “responsável e baseada em evidências científicas”, contra a prescrição em massa de medicamentos que não têm eficácia comprovada para prevenir ou tratar a Covid-19. O movimento partiu de médicos catarinenses, e é uma resposta à carta de um grupo médico que defende a aplicação de coquetéis no Estado, com medicamentos como cloroquina e o vermífugo ivermectina.

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    Entre os médicos que assinam o manifesto, pelo menos 338 atuam no estado. Há profissionais que trabalham em hospitais, em diferentes cidades de Santa Catarina, especialistas de diversas áreas, e professores universitários.

    O documento alerta que a cloroquina e a hidroxicloroquina podem causar arritmias e parada cardíaca, e informa que o FDA, que é o órgão norte-americano que regula a liberação de medicamentos nos Estados Unidos, proibiu recentemente a prescrição da substância a pacientes com Covid-19. 

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    Também afirma que não é recomendada a prescrição de medicamentos como ivermectina, nitazoxanida, cloroquina ou hidroxicloroquina, corticoides, lopinavir, ritonavir, tocilizumabe, anticoagulantes, vitaminas e suplementos alimentares que contêm zinco ou outros nutrientes, para tratamento ou prevenção da Covid-19, com sintomas leves ou moderados.

    Os médicos alertam que a maioria das pessoas evoluirá naturalmente para a cura: “Aproximadamente 80% das pessoas com Covid-19 vão ter somente sintomas leves a moderados, independentemente de qualquer tratamento prescrito no início da doença. Submetê-las a tratamentos medicamentosos precoces sem termos até o momento qualquer comprovação de benefício não é prudente nem seguro”.

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    O manifesto considera que são “graves e preocupantes” os movimentos que pressionam o poder público para impor tratamentos precoces de Covid-19 sem respaldo científico, “promovendo desinformação e coerção de pacientes, profissionais de saúde e tomadores de decisão para impor supostos tratamentos, independente de evidências de sua eficácia ou da sua segurança”.

    Por fim, os médicos alertam que o Código de Ética Médica proíbe “divulgar, fora do meio científico, processo de tratamento ou descoberta cujo valor ainda não esteja expressamente reconhecido cientificamente por órgão competente”. O que significa que a propaganda de tratamentos sem comprovação pode representar uma falta ética para os médicos.

    O documento ainda está recebendo assinaturas. A carta será entregue ao prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro, e ao governador Carlos Moisés. O epidemiologista Lúcio Botelho, professor e pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), já entrou em contato com o prefeito e aguarda ele sair do isolamento – Gean está afastado fisicamente do trabalho porque esteve no fim de semana com o presidente Jair Bolsonaro, que testou positivo para o novo coronavírus.

    A entrega ao Governo do Estado ainda não foi organizada. Poderá ocorrer de forma virtual.

    Veja o documento na íntegra

    MANIFESTO PELA SEGURANÇA DO PACIENTE NO TRATAMENTO PARA A COVID-19 E EM DEFESA DE UMA MEDICINA RESPONSÁVEL E BASEADA EM EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS

    A COVID-19 representa o maior problema de saúde pública dos últimos 100 anos e tem desafiado todos os setores da sociedade a encontrar soluções rápidas e inovadoras. Estudos nacionais e internacionais vêm sendo realizados para avaliar as melhores medidas de enfrentamento, num grande esforço mundial para o combate da COVID-19, incluindo diversas pesquisas sobre a resposta imune, o desenvolvimento de vacinas e medicamentos para a prevenção e tratamento.

    Nesse cenário, uma grande quantidade de informação científica vem sendo produzida e muitas vezes divulgada, dentro e fora do meio científico, com interpretações equivocadas ou precipitadas, antes mesmo de estarem expressamente reconhecidas cientificamente.

    A análise das mais atuais e confiáveis evidências científicas, assim como a manifestação de entidades científicas independentes, em relação a eficácia e segurança da profilaxia e tratamento para a COVID-19 em casos leves a moderados afirmam que:

    1. Num cenário de poucas certezas e recursos limitados, deve-se investir nas medidas que têm demonstrado resultados na redução da transmissão e sucesso no controle da pandemia:

    i. Acesso facilitado aos cuidados em saúde;

    ii. Identificação e isolamento precoce de todos os casossuspeitos e confirmados;

    iii. Testagem ampla (incluindo casos leves e não somente casos graves);

    iv. Distanciamento físico e redução de aglomerações, uso de máscaras e higienização frequente das mãos;

    v. Monitoramento contínuo de pacientes até recuperação;

    vi. Planejamento e organização de infraestrutura de suporte para os casos graves.

    2. Não é recomendada a prescrição de tratamentos ou profilaxias com cloroquina ou hidroxicloroquina com ou sem azitromicina para manejo ambulatorial da COVID-19 leve à moderada. A evidência atual tem mostrado associação do seu uso com potencial risco aumentado de arritmias e de parada cardíaca em algumas situações.

    3. Não é recomendada a prescrição de ivermectina, nitazoxanida, cloroquina ou hidroxicloroquina, corticoides, lopinavir/ritonavir, tocilizumabe, anticoagulantes, vitaminas e/ou suplementos alimentares contendo zinco ou outros nutrientes, para tratamento ou profilaxia ambulatorial da COVID-19 leve à moderada. Não há evidências concretas que pessoas que usem esses medicamentos isolados ou em associação, de forma profilática ou como tratamento para COVID-19, venham a ter seu risco de complicações pela COVID-19 reduzido.

    Alinhadas a essas evidências, diversas entidades científicas nacionais e internacionais têm se posicionado alertando os profissionais sobre o balanço negativo de risco-benefício na prescrição de medicamentos para o tratamento da COVID-19. Recentemente a Food and Drugs Administration (FDA) dos EUA proibiu a prescrição de hidroxi/cloroquina para COVID-19 fora de estudos clínicos.

    Aproximadamente 80% das pessoas com COVID-19 vão ter somente sintomas leves a moderados, independentemente de qualquer tratamento prescrito no início da doença. Submetê-las a tratamentos medicamentosos precoces sem termos até o momento qualquer comprovação de benefício não é prudente nem seguro. Primum non nocere.

    Nós, médicos abaixo-assinados, compreendemos a angústia e insegurança de todos com a falta de um arsenal terapêutico medicamentoso eficaz e seguro contra a pandemia, porém temos visto com apreensão os sinais de estigmatização, desinformação e politização da pandemia da COVID-19. São graves e preocupantes os movimentos que vêm pressionando o poder público e promovendo desinformação e coerção de pacientes, profissionais de saúde e tomadores de decisão para impor supostos tratamentos precoces da COVID-19, independente de evidências de sua eficácia ou da sua segurança. Preocupante também é a pressão associada para a flexibilização das medidas de distanciamento físico, advogando uma falsa sensação de segurança à população com o uso de medicamentos, contribuindo para a desinformação, a desorganização das ações em saúde pública, o avanço da transmissão da Covid-19 e suas calamitosas consequências.

    Reconhecemos, contudo, que a prescrição de tratamentos fora de sua indicação aprovada (offlabel) pode ser uma decisão individual do médico compartilhando os possíveis benefícios e riscos com o paciente. Essa decisão deve contar com uma avaliação ‘caso a caso’ e necessariamente com o acompanhamento e monitoramento próximos do paciente pelo próprio prescritor. Não se recomenda a prescrição de ‘combos’ ou ‘kits’ de medicamentos que possam somar riscos, interações medicamentosas e possibilidades de efeitos adversos.

    Ressalta-se que o Código de Ética Médica legisla que: “É vedado ao médico: Art. 113. Divulgar, fora do meio científico, processo de tratamento ou descoberta cujo valor ainda não esteja expressamente reconhecido cientificamente por órgão competente”.

    A discussão sobre o tratamento medicamentoso precoce da COVID-19 está gerando desinformação e enfraquecendo as ações de combate à pandemia. Tais medidas necessitam urgentemente serem pautadas pela sociedade, encontrando soluções que envolvam todos os setores da sociedade. #tratamentosócomevidência #distanciamentotemevidencia #todosjuntospelavida #fiqueemcasa #ninguemficapratras

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