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Solidariedade

No Natal, a lembrança para os mais pobres

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Por Denis Luciano
26/12/2021 - 11h41 - Atualizada em: 26/12/2021 - 11h57
Papai Noel no Tereza Cristina, um dos bairros mais pobres de Criciúma
Papai Noel no Tereza Cristina, um dos bairros mais pobres de Criciúma (Foto: Eduardo Schaucoski / Equipe Multi Institucional)

O Natal, entre seus tantos emblemas, convoca a uma importante reflexão: o cuidado com a glamourização. Afinal, se trocam presentes, são expostas mesas fartas, mas e onde está o todo nisso? É natural que se comemore a data, nada de errado há nisso, mas é preciso incluir um momento de lembrança nesses instantes tão preciosos: a lembrança para com quem não tem. E são muitos.

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Se impõe lembrar de quem recorre a ossos para, cozidos, tirar deles algum sabor de carne para misturar ao pouco arroz. Ou aos muitos irmãos que, pela imagem turva da TV antiga que quebra a dura rotina na salinha humilde, visualizam as comilanças, os lares finamente decorados e os convivas com suas melhores roupas. Nada demais, se nesses personagens houver um instante de memória e ação aos desprovidos.

Não se trata apenas de ter o que comer no Natal: se trata da dignidade que isso carrega, da lição que os despossuídos não conseguem transmitir aos filhos, e da pressão que o consumo desenfreado gera. São milhões e milhões de brasileiros que não garantem, nem de perto, o que esse glamour natalino salienta. E disso resultam os muitos resilientes que, dessa aflição, retiram forças para, na via do estudo e do trabalho, dar a volta por cima no amanhã ou depois. Mas resultam também nos que, à margem, recorrem infelizmente ao indigno, ao desonesto, visando atalhar o caminho.

Voluntários presenteando crianças no Natal de Criciúma
Voluntários presenteando crianças no Natal de Criciúma
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É olhando para esses cidadãos que nos cabem, enquanto Nação, os esforços pela inclusão. Ampliar as oportunidades de emprego e renda e, em paralelo, garantir uma educação emancipadora, para que nas futuras gerações cada vez menos deliciem-se apenas pelos olhos, assistindo o Natal alheio, e que possam fazer o seu, e que a ceia não seja uma exceção de um dia de dezembro, mas a regra do cotidiano com o suficiente, o que todos (os que fazem por merecer) de fato merecem. E a maioria merece. A grande maioria dos que não tem, merecem ter. E o que temos feito enquanto Nação para aplacar essas dores: da fome, da falta de um recurso para um brinquedo, da falta de perspectivas, da falta de saúde, escola e dignidade? O que temos feito de verdade?

Nem todas as soluções estão ao alcance do cidadão comum que batalha, ganha a sua vida e consegue usufruir de um Natal digno. Mas muitos dedicam um bem precioso, o tempo, em prol dos pobres. Aqui entram em cena os voluntários, muitos, em toda a parte, sob as mais diversas bandeiras de caridade e altruísmo.

Destaco um grupo que, a partir de Criciúma, vem fazendo a diferença. Trata-se da chamada Equipe Multi Institucional, uma reunião de forças de segurança pública entrosadas com líderes comunitários e instituições diversas. Eles se reúnem e, em momentos agudos de carência como o Natal, o inverno rigoroso e diante das graves crises, oferecem conforto a quem precisa.

Assim foi novamente ao longo da última sexta-feira (24). Para assegurar que crianças carentes de Criciúma tivessem algum brinquedo novo para chamar de seu e colorir uma data castigada pela dureza da geladeira vazia, da mesa rala e do bolso sem dinheiro, esses voluntários distribuíram brinquedos. Procuraram os bairros mais humildes, aqueles distantes do cotidiano sorridente e de barriga cheia das elites, para carregar o Papai Noel, os presentes e, mais que isso, a esperança em um amanhã melhor.

Noel até de bicicleta para se aproximar dos pobres nos bairros
Noel até de bicicleta para se aproximar dos pobres nos bairros
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Esses voluntários (e não cabe nomina-los, pois o anonimato das suas ações é o precioso combustível da perpetuidade e da boa intenção do que fazem) sacrificam horas com os seus para, no meio do povo, cativar sorrisos. Eles contam que é indescritível, e é mesmo, uma criança que corre e abraça e sorri como se dores não houvessem ao carregar, em mãos, um brinquedo cuja compra não seria possível por seus pais (os que têm pais, pois vários já são abatidos pela orfandade). Mas que, para quem doou esse brinquedo, em nada pesou no orçamento, e em muito qualifica no resultado do investimento feito. Há, ali, uma criança feliz, que vem crescendo na limitação, na escassez, na fome mas que, ao ver o Papai Noel, entende que há razão para acreditar, e lutar.

Somente no dia 24, foram 400 crianças presenteadas nos bairros Tereza Cristina, Santo André e Vida Nova onde, muitas vezes, parece que nem o Papai Noel chegaria nessa sisudez reinante. Todos lugares de gente muito pobre, dos mais baixos indicadores de Criciúma. No Tereza Cristina, os marginalizados escolhem a margem da via férrea pois ali conseguem energia elétrica e água encanada e, sob seus telhados de qualidade duvidosa, vão tocando suas vidas. Entre muita gente digna, honesta, que ainda é encontrada em ações esporádicas, do público e do privado, mas que há de merecer um futuro onde o digno e o novo alcance as suas esburacadas e empoeiradas ruas. Gente que acorda com o apito do trem que faz sacolejar as modestas paredes de tábuas escoradas, com suas frestas inclementes no calor e no frio.

Em oito etapas, a campanha da Equipe Multi Institucional agraciou 3 mil crianças, não somente em Criciúma. Entregou brinquedos também em Forquilhinha, Içara, Balneário Rincão e Bom Jardim da Serra. São cinco cidades onde três milhares de pequenos e pequenas tiveram uma razão para sorrir. Se faltou aquela comida abundante que a TV mostra, se não houve o frescor daquelas iluminadas reuniões familiares de gargalhadas e amenidades que muitos compartilham, houve um brilho, multiplicado pela esperança entregue via mãos dos vários que se cotizam e solidarizam. 

Segurança e social unem forças em prol das crianças de Criciúma
Segurança e social unem forças em prol das crianças de Criciúma
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Em 2022 o Brasil viverá, a partir de agosto, mais um Censo do IBGE. Recenseadores percorrerão todos os grotões dos 5.540 municípios brasileiros e, certamente, baterão em muitas portas e pisarão em muitas ruas carentes como as agora frequentadas pelos voluntários que melhoraram o Natal de nossas crianças pobres. 

Dados de 2019 do mesmo IBGE apontavam, usando Criciúma como exemplo, que 38% dos 219 mil habitantes da cidade compunham força de trabalho, população ocupada. E que o rendimento médio mensal do criciumense é de 2,5 salários mínimos. Pouco, para sustentar uma família. E que 26% da população de Criciúma vive em domicílios cuja renda per capita é de meio salário mínimo. Ou seja, cada morador desse um quarto de casas menos abastadas dispõe de cerca de R$ 500 para todas as suas necessidades. Obviamente, muito pouco. Esses números são de Criciúma, que longe está de ser uma cidade pobre, mas que representa o Brasil médio, que ainda é muito excludente.

Enquanto sociedade, precisamos agir: doar aquece o coração, mas resolve pontualmente os problemas. E o amanhã? O que temos efetivamente feito para emancipar as pessoas? Para dotá-las de instrumentos críticos capazes de tomar suas trajetórias nas mãos e fazer a diferença, por si? Em tempos de liberalismo, em que o social vai gradualmente saindo de moda para muitos, que tal uma dose de oportunidades aos excluídos para que, amanhã, os que recebem hoje possam também ser doadores? E distribuidores das boas novas às quais o Natal se propõe? 

A criançada em uma das muitas ruas empoeiradas do Brasil
A criançada em uma das muitas ruas empoeiradas do Brasil
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Que avancemos do raso para o profundo, e achemos soluções. É preciso incluir. É preciso um Papai Noel de dignidade, oportunidades e vontade de ver os mais pobres cada vez menos pobres. É assim que o Natal terá alcançado sua plenitude. Quem sabe, um dia.

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Jornalista com longa experiência no rádio e no digital, Denis Luciano aborda os principais assuntos do Sul catarinense, uma das regiões mais relevantes no Estado.

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