Naturalmente, uma guerra é uma guerra, e precisa ser tratada como tal. Com suas atrocidades, desumanidades, destemperos e vítimas, muitas vítimas. Os civis que, distantes dos poderes decisórios, acabam pagando a conta de conflitos que sempre se excedem, nutridos por ganância e desentendimentos de toda a ordem. Guerra é guerra, e por si só precisa ser condenada. Está longe de ser uma brincadeira. Mas o que isso tem a ver com o extremo Sul catarinense?

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É que um cidadão fez um protesto inusitado no começo da semana em trecho da SC-449, rodovia que liga Sombrio a Jacinto Machado, região distante cerca de 60 quilômetros de Criciúma. Ele improvisou um artefato que chamou de “míssil da Rússia”, cravou em uma das muitas falhas do carcomido asfalto da estrada e não teve dúvidas: gravou seus 30 segundos de desabafo que viralizaram.

– Caiu um míssil da Rússia aqui na estrada que vai pra Jacinto. Só não explodiu né – anunciou, mostrando a vareta metálica enterrada numa saliência do asfalto perto de uma curva. A saliência, de fato, é capaz de danificar bem o automóvel de algum distraído ou que não conheça essa verdadeira armadilha. E há um buraco do lado ainda, para contribuir com a dureza do desafio.

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– Tá aí o míssil da Rússia. Estão atacando o Brasil, fazendo buracos nas estradas – disparou o cidadão, sem esconder o descontentamento. Mais para o fim do vídeo, ao se afaltar do tal ponto do “suposto míssil russo”, o manifestante faz perceber com ainda mais ênfase o risco ao qual estão expostos os condutores que precisam fazer uso da estrada. – O que vamos fazer agora né. Até um míssil caiu aqui – reforçou.

Como comparar?

Houve quem criticasse a analogia. De fato, não há como comparar uma estrada (dentre tantas) deteriorada no Sul de Santa Catarina a uma guerra com as perdas e com os ataques à vida que a Rússia oportuniza na Ucrânia. Mas foi o modo que o cidadão, ao seu jeito, encontrou de fazer algo, de chamar a atenção, de distante dos poderes decisórios usar o espaço eletrônico que a condição atual lhe confere para chamar a atenção a um aspecto que, se não mancha de sangue um país, mas pode, de fato, enlutar uma família. Afinal, um trecho naquelas condições é capaz sim de ocasionar algum acidente fatal. Não é exagero calcular isso.

O trecho em questão da SC-449 tem 18,7 quilômetros. Liga o Centro de Sombrio (cidade de 31 mil habitantes, a segunda mais população do extremo Sul) ao Centro de Jacinto Machado (cidade de 10 mil habitantes). Essa região vem ganhando um fôlego importante com a realização de duas outras obras rodoviárias: as pavimentações dos 22 quilômetros da BR-285 na Serra da Rocinha, em Timbé do Sul, e dos 31 quilômetros da SC-108 entre Jacinto Machado e Praia Grande. Tratemos delas mais adiante.

SC-449 estava assim em novembro de 2020, um ano depois de recuperada
SC-449 estava assim em novembro de 2020, um ano depois de recuperada (Foto: Folha Sul / Divulgação)

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R$ 14,6 milhões para toda a região

Antes, a SC-449. A assessoria do deputado estadual José Milton Scheffer (PP), líder do governo Carlos Moisés na Assembleia Legislativa (Alesc) e que acompanha de perto das pautas da região (ele foi prefeito de Sombrio, onde tem base eleitoral), confirmou que a licitação para recuperação de rodovias estaduais na área da Associação dos Municípios do Extremo Sul Catarinense (Amesc) já está finalizada. O resultado saiu na última sexta-feira (11) e o prazo para recursos esgota-se na próxima semana. Não havendo tais recursos, e confirmando-se o resultado apurado, estará confirmado o contrato de R$ 14,6 milhões com o Consórcio Intermunicipal Multifinalitário de Gestão Pública da Amesc (Cimgepa) para recuperar e dar manutenção às SCs dos 15 municípios da região.

O presidente do Cimgepa é o prefeito de Jacinto Machado, João Batista Mezzari (MDB), natural interessado em colocar na conta desse pacote para investimentos a SC-449. Mas há um detalhe importante nisso tudo: essa mesma SC-449 foi revitalizada não faz três anos. Em setembro de 2018 o então governador Eduardo Pinho Moreira (MDB) assinava, em ato na prefeitura de Sombrio, a ordem de serviço de R$ 4,7 milhões para melhorias no trecho. Elas foram feitas mas, em novembro de 2020, cerca de um ano após a conclusão dos serviços, a rodovia já estava deteriorada. De novo.

Governador Eduardo Moreira lançando a obra em setembro de 2018
Governador Eduardo Moreira lançando a obra em setembro de 2018 (Foto: Secom / Divulgação)

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BR-285 e SC-108

Há vetores econômicos destacáveis no contexto regional para justificar rodovias melhores no extremo Sul. E são obras em outras rodovias próximas à SC-449 que pressionam o Estado a realizar serviços melhores na rodovia, com alguma garantia de qualidade para que não esfarele de novo em poucos anos. A BR-285, em fase final de execução e com previsão de inauguração até julho pelo Governo Federal, será um corredor turístico a partir da vizinha Timbé do Sul que localiza-se, via SC-108, a 27 quilômetros de Jacinto Machado.

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Mas a BR-285 será, também, um reforço agrícola, madeireiro e para exportação de commodities, tais como o arroz, a soja e o trigo. Produtores gaúchos trocarão, quando ela estiver pronta, o porto de Rio Grande pelo de Imbituba. Ficará muito mais próximo. Sem contar que há um potencial para o turismo a ser explorado nesse entorno com muito mais força, e já existem sinais de que esse segmento crescerá. Logo, mais turistas, mais estradas boas são necessárias.

Já a SC-108, no trecho citado anteriormente, entre Praia Grande e Jacinto Machado, é o mais meridional da rodovia que corre paralela de Sul a Norte do estado, pelo interior, à BR-101. Hoje uma estrada de chão, ela já está em obras. São R$ 73,5 milhões de investimentos para colocar asfalto e aproximar as duas cidades. E mais do que isso, conferir um canal importante para deslocar safras e também para abrir caminho ao florescente potencial de turismo de Praia Grande, cidade que vem crescendo com a exploração do balonismo, do turismo de aventura e da exploração dos parques da Serra Geral e Aparados da Serra.

Logo, por mais lógico que possa parecer, desenvolvimento exige estradas, e estradas bem feitas. Que não se desmanchem em pouco tempo. Enquanto obras públicas forem tocadas dessa forma, sem a fiscalização necessária nem a garantia adequada, mais cidadãos se darão ao direito de comparar o que passam todo dia para ir e vir com cenários de guerra. Até que sejam atendidos, como merecem.

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