nsc
nsc

Geração de energia

Entrevista: Eduardo Sattamini, presidente da Engie, fala sobre os desafios da empresa

Compartilhe

Estela
Por Estela Benetti
22/09/2018 - 04h00
Eduardo Sattamini, presidente da Engie Brasil.
Eduardo Sattamini, presidente da Engie Brasil.
(Foto: )

A Engie Brasil Energia, maior geradora privada do país, sediada em Florianópolis, está completando este mês 20 anos de atuação. A multinacional franco-belga – então Tractebel - iniciou atividades em 1998, com a compra da Gerasul, braço de geração da Eletrosul. Seguiu investindo alto, diversificou, em 2016 adotou a marca global Engie e se voltou para a energia limpa. Fechou o ano passado com lucro líquido superior a R$ 2 bilhões e seu valor na bolsa supera R$ 24 bilhões. O presidente da companhia, Eduardo Sattamini, lidera essa nova fase, que envolve mais digitalização e serviços aos cidadãos.   

A Engie chega aos 20 anos de atuação no Brasil com resultados acima da média do seu setor. Que estratégias permitiram essa diferenciação?  

Eduardo Sattamini: O ponto básico da nossa estratégia sempre foi o equilíbrio entre os stakeholders: o atendimento ao nosso cliente, ao nosso colaborador, ao nosso acionista e às comunidades onde estamos inseridos. Buscamos o equilíbrio, a visão operacional, a disciplina financeira e a atenção com as pessoas porque elas são as responsáveis por fazer com que essa performance seja alcançada.  Qual foi o momento mais difícil para a companhia nessas duas décadas?

Eduardo: Eu diria que o momento mais difícil que estamos passando no mercado é o atual. Temos uma grande inadimplência no mercado de curto prazo, um imbróglio regulatório que precisa ser resolvido. Ele começou com a MP 579 (editada em setembro de 2012). No apagar das luzes do governo Dilma ela promoveu uma mudança para baratear a energia, deu sinais errados ao mercado, resolveu incentivar o consumo quando a hidrologia não era favorável. Isso acabou motivando uma série de liminares e questionamentos legais que hoje geram quase R$ 10 bilhões de inadimplência no mercado de curto prazo e isso afeta todo o mercado. Então, eu diria que o momento mais difícil que a empresa já passou é o atual.  E o melhor momento?

Eduardo: Paradoxalmente, o melhor momento da Engie também é o atual porque ela conseguiu capturar bom crescimento para os próximos anos e rentabilidade recorde. No ano passado alcançamos a marca de R$ 2 bilhões de lucro líquido, com crescimento de quase 30%. Nós crescemos significativamente com a aquisição de duas usinas hidrelétricas e com a implantação dos parques eólicos Campo Largo e Umburanas na Bahia. Estamos tendo um momento significativo na transformação da companhia, tornando-a mais colaborativa e moderna, com espaços digitais, fazendo com que as pessoas se sintam motivadas a colaborar, com todos os recursos de uma empresa que quer ser a líder na transição energética.  Como a Engie planeja estar daqui a 20 anos?

Eduardo: Nossa visão é daqui a 20 anos ser ainda uma empresa muito sólida, com bons ativos. Esse é o grande sucesso dos últimos dois anos, quando a gente garantiu crescimento que vai manter a perenidade da empresa por muitos anos, mas também estaremos atuando muito mais perto do cliente. Estamos vivendo uma mudança regulatória que vai, paulatinamente, abrir o mercado livre e aumentar o número de clientes até 2026. Hoje temos algo em torno de 10 mil clientes livres. Esse número vai subir para 170 mil. E em 2028, se a legislação que está tramitando no Congresso for aprovada, teremos a liberação de todos os consumidores, ou seja, todos os consumidores serão livres. Aí a nossa clientela vai aumentar para milhões de unidades consumidoras. A empresa terá que ser diferente, mais digitalizada e próxima dos clientes.  A companhia adotou os pilares da descentralização, digitalização e descarbonização em 2016. Como está a descentralização?

Eduardo: A descentralização tem várias formas. Uma delas é gerar energia perto de unidade de consumo. Uma maneira é a geração via painéis solares. Outras são a geração a gás e a cogeração com outras matérias-primas. Fazemos isso em unidades no setor de açúcar, com bagaço de cana. Mas a descentralização visa a aproximação com o cliente. Hoje, em função de termos um número pequeno de clientes livres no Brasil – nós somos os líderes com 380 – a coisa acaba sendo muito centralizada. Na hora que tiver um número grande de clientes teremos que estar muito mais presente, mais próximos do cliente e com uma outra abordagem, que é a digital. A digitalização vem para melhorar nossos processos, aumentar a eficiência operacional, mas também para que a gente possa oferecer um tratamento mais personalizado ao cliente, mesmo atendendo milhares de pessoas. No futuro, na questão de interação com o cliente, seremos mais parecidos com uma operadora de telefonia. A distribuidora seguirá cobrando a tarifa de distribuição. Nós vamos cobrar a tarifa de geração.  Quais são os principais projetos da empresa para ampliar a oferta de energia elétrica no país?

Eduardo: Hoje, nos concentramos em energia renovável, principalmente a eólica que a gente entende ser a energia mais competitiva em preço. Nós temos o parque de Campo Largo, na Bahia, que até o final de novembro esperamos que esteja concluído e operacional. E temos o Parque Umburanas, que começa a operação no fim deste ano. Juntos, somam quase 700 MW de capacidade eólica entrando em geração. Além disso, no ano passado adquirimos duas usinas da Cemig e temos a Sul que está pronta desde o final de 2017. Além disso, estamos entrando na área de transmissão. Ganhamos uma linha de grande porte no Paraná e vamos olhar outras linhas que tenham sinergia com essa no leilão de dezembro. Serão ativos novos. A ideia é ganhar novas concessões com o direito de operar por 30 anos. Vocês têm interesse no leilão da Eletrobras?

Eduardo: O leilão da Eletrobras permite apenas participações minoritárias.  Não tem por que comprar uma participação onde haja um majoritário com direito de comprar minha parte. A gente olhou os ativos colocados à venda e não nos interessamos por nenhum.  Como estão as negociações para a venda das térmicas a carvão?

Eduardo: O processo continua. Não está no ritmo que a gente gostaria, mas deveremos ter uma decisão no ano que vem. Atualmente, estão gerando com capacidade máxima, especialmente o complexo Jorge Lacerda, em SC.  E o projeto da térmica a gás natural no Norte de SC como evolui?

Eduardo:Temos uma associação com uma empresa norueguesa chamada Golar. Ela traria a tecnologia de regaseificação em plataforma flutuante. É um projeto integrado. Nós damos apoio para a Golar no licenciamento ambiental. Ela está buscando as licenças e quando tiver essas licenças a gente contrata o gás e estremos prontos para oferecer essa usina ao mercado de energia. O investimento será próximo de U$S 600 milhões (R$ 2,4 bilhões). A companhia instalou este ano um centro global de inovação em Florianópolis, o Engie Lab. O que está priorizando nas pesquisas?

Eduardo: A gente vai buscar tecnologias que sejam habilitadoras para a nossa transformação energética. Provavelmente vamos estar trabalhando com hidrogênio, baterias, smartgrid. Tecnologias que proporcionem opções de negócio futuro para a companhia dentro do setor de energia e serviços ao setor. São projetos dentro da adjacência do nosso core business que é geração, transmissão e gestão de ativos de energia.   A Engie vai avançar mais em infraestrutura?

Eduardo: Temos a capacidade de investir em infraestrutura. Fizemos isso na geração de energia por 20 anos. Começamos com linhas de transmissão ano passado e agora analisamos entrar na área de gás, no segmento de gasodutos, com a Petrobras. Está no nosso DNA participar de projetos de capital intensivo, na instalação de grandes gasodutos. Temos na Europa.  O que o grupo está fazendo em digitalização?

Eduardo: Temos algumas soluções para transportes. Em Niterói, temos gestão de tráfego e integração de sistemas. Temos reconhecimento do fluxo de carros. Com isso fazemos a reprogramação de semáforos. Em Florianópolis, assinamos um convênio com a prefeitura via Acate para que o município utilize a nossa plataforma de integração de sistemas que se chama Livin. É para fazer um primeiro teste para ver como funciona. Tem uma empresa que faz o controle de tráfego e esses sensores serão colocados dentro dessa plataforma Livin que tem toda essa inteligência artificial de identificação de fluxo, contagem de carros, identificação de problemas via imagem e outros. Estamos com esse piloto.

A ideia é, dentro das necessidades dos municípios, apresentar apoio nessa área. Temos também as partes de segurança e vigilância. Hoje fazemos toda a gestão de vigilância das câmeras da cidade do Rio de Janeiro em um grande centro de operações.

E no futuro, poderemos adotar o que se chama de smart city, que é a integração de todos os serviços públicos, incluindo até sistemas coletivos de ar condicionado nos bairros. Você ganha escala e eficiência energética. Nosso grupo tem soluções para uma cidade inteligente completa. Prestamos também serviços de eficiência energética para comércio e indústria. Para pessoas físicas, vendemos usinas solares e poderemos fazer a gestão da energia. Tudo isso a companhia fará de forma integrada em 2030.  O que o próximo governo precisa melhorar em termos de regulação ao setor de energia?  

Eduardo: O próximo governo precisa tentar desarmar as bombas-relógio que temos, os deslizes no passado sobre a regulamentação do setor. Eu diria que a gente já tem, dentro da proposta levada ao Congresso no último ano, que começou a ser discutira, um projeto de modernização do setor. Está no PL 1917 que visa a modernização do setor através da liberação de mercado, redução de subsídios, modernização da sistemática do funcionamento do  mercado, com preços variáveis, mais caros nas horas de maior consumo. Isso permite uma alocação melhor de recursos. 

 

Leia também:

Empresas de Blumenau demitem mais do que contratam pelo quarto mês seguido em agosto

 

Estela Benetti

Colunista

Estela Benetti

Especialista na economia de Santa Catarina, traduz as decisões mais relevantes do mercado, faz análises e antecipa tendências que afetam a vida de empresários, governos e consumidores.

siga Estela Benetti

Estela Benetti

Colunista

Estela Benetti

Especialista na economia de Santa Catarina, traduz as decisões mais relevantes do mercado, faz análises e antecipa tendências que afetam a vida de empresários, governos e consumidores.

siga Estela Benetti

Mais colunistas

    Mais colunistas