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Entrevista

“Qualidade da educação também é problema do empresário”, alerta presidente da Somos

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Estela
Por Estela Benetti
18/05/2022 - 16h35
Mario Ghio, presidente da Somos Educação
Mario Ghio, presidente da Somos Educação (Foto: Divulgação)

Para elevar o aprendizado dos estudantes brasileiros é preciso o tripé: neurociência aplicada à educação, gestão baseada em dados e inteligência artificial para ajudar o professor. Esta é a opinião de Mario Ghio, presidente da Somos Educação, maior empresa de conteúdo digital para educação do Brasil e controlada da Vasta Somos, que é listada na bolsa Nasdaq, dos EUA.

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Mario Ghio estará em Joinville nesta quinta-feira e, a partir das 19h30min, fará a palestra “Educação como estratégia de uma sociedade”, no auditório da UFSC no Perini Business Park. O evento tem apoio da Associação Empresarial de Joinville (Acij) e é aberto a interessados.

Em entrevista para a coluna nesta quarta-feira, o executivo falou sobre como a Somos Educação impacta o ensino privado brasileiro, ao fornecer conteúdo para 5.350 escolas privadas no Brasil e Japão. Segundo ele, são programas customizados que atendem desde o ensino infantil, a partir de dois anos de idade, até o final do ensino médio.

Engenheiro químico graduado pela Escola Politécnica da USP, Mario Ghio foi professor de química e tem 30 anos de experiência no mercado da educação no Brasil. Hoje, ele comanda a Somos, empresa é o braço B2B da Vasta, que atende 1,6 milhão de alunos. A seguir, a entrevista:

Qual é o foco da Somos e como ela está posicionada no grupo Cogna, acionista da Vasta?

A Somos oferece para as escolas tudo o que elas precisam para ser melhores e para passar pela transformação digital. Desde todo o conteúdo básico, conteúdo complementar, avaliações, portal educacional, plataformas digitais de aprendizagem, tudo adaptativo. As necessidades das escolas são muito amplas e nós oferecemos tudo, inclusive serviços não só para o lado educacional, como, por exemplo, o financiamento da escola e plataformas de gestão. Essa é a nossa missão. A Vasta Somos é uma empresa independente listada na bolsa Nasdaq, dos Estados Unidos. A Cogna é a nossa maior acionista, mas existem outros acionistas pelo mundo inteiro.

Como está sendo a experiência de vocês na bolsa Nasdaq?

Quando a gente decidiu ir para a Nasdaq, a gente percebeu que era importante pelo nosso posicionamento, por ser uma empresa de tecnologia. Embora tenhamos nascido há mais de 100 anos - nossa marca mais antiga é a Editora Saraiva, de 1914 -, nós vínhamos num processo de transformação interna, de deixar de ser uma empresa de educação com um pouco de tecnologia para ser uma empresa de tecnologia que entrega educação. E a bolsa de Nasdaq é específica para as empresas de tecnologia. 

Então, o tipo de acionista que busca investir em ações na Nasdaq são os que entendem de tecnologia e apostam nesse tipo de mercado. Tem o lado bom de ter conexão com capital muito diversificado e focado em tecnologia e, por outro lado, tem algo mais difícil para nós, brasileiros, porque muitos dos custos são em dólar, por estarmos listados lá fora. O dólar é bastante caro.

Das soluções que a Somos oferece ao mercado, quais são as mais procuradas?

Se nós fossemos fazer um ranking, a primeira necessidade que as escolas têm continua sendo conteúdo educacional para as disciplinas da grade tradicional para ensinar matemática, ciências, português e assim por diante. A segunda necessidade que as escolas mais demandam de nós são os conteúdos para a educação complementar, que são robótica, programação e inglês.

A terceira maior necessidade das escolas chama-se plataforma digital de aprendizagem. A nossa plataforma chama-se plural e, ao longo de toda a pandemia, por volta de 50% do tráfego educacional brasileiro acontecia dentro dessa nossa plataforma. Nós continuamos, agora, no pós-pandemia com liderança absoluta no tráfego digital, mas estamos por volta de 40%.

O que a plataforma oferece?

Ela é uma escola digital completa. O professor pode dar uma aula ao vivo, pode montar uma aula com todos os recursos que queira e levar para uma aula presencial. Tem as avaliações digitais, os plantões de dúvidas. Essas são as funções da plataforma.

A Somos atende somente escolas privadas ou tem parcerias com escolas públicas também?

Diretamente, atendemos somente escolas privadas, mas temos algumas parcerias que podem ser consideradas públicas ou semipúlbicas. Por exemplo, fornecemos conteúdos para quase todos os SESIs do Brasil, para muitos SESCs do Brasil e, para todo o estado do Mato Grosso por meio da Fundação Getúlio Vargas. Então, a FGV tem um contrato com o Mato Grosso e ela utiliza nossos serviços para cumprir esse contrato. Diretamente, a Vasta Somos não tem nenhum cliente público.

O senhor falou que o conteúdo de inglês é um dos mais procurados. Como é esse conteúdo que vocês oferecem e como variam os preços?

Nós temos, para cada produto, um conjunto de soluções com uma metodologia específica e um preço específico. Temos um inglês que pode ser utilizado por uma escola com uma mensalidade mais baixa e tem uma determinada carga horária. E nós temos produtos de inglês que podem ser usados por escolas bem mais caras, com uma carga horária maior. 

O que eu costumo dizer que num país continental como o nosso não tem uma solução que serve para tudo. Temos um conjunto de soluções flexíveis. A escola que quer se posicionar como a que ensina inglês para valer, para que os alunos prestem o Toefl ou qualquer outro exame de proficiência em inglês, nós temos essa oferta. E as escolas que querem apenas cumprir o regulatório de inglês por semana, também temos esse serviço.

Quanto a conteúdos complementares, o que atrai mais? Os games?

A gente atende toda a educação básica, que no Brasil vai dos dois anos aos 18 anos, que é quando se termina o terceiro ano do ensino médio. Temos desde criança do maternal até pré-vestibulandos. Da educação complementar, o inglês é o campeão de audiência. Muitas escolas que querem se posicionar de maneira forte em inglês, elas temem em fazer isso para todos os alunos na grade, mas oferecem fora da grade para as famílias que querem pagar por esse serviço a mais.

Em segundo lugar vêm programas socioemocionais, de desenvolvimento das chamadas competências do século XVII, como comunicação, criatividade, tolerância, inovação e empreendedorismo. E depois vêm os núcleos de robótica, programação.

A gamificação não vista por nós como um complemento. Ela faz parte dos conteúdos tradicionais. Temos no nosso cardápio uma edtech israelense chamada Matific, que atende centenas de milhares de alunos da Somos, mas dentro da grade da aula. Então, o professor está dando aula de matemática, por exemplo, na hora os alunos podem usar a Matific para fazer exercícios ou competir com alunos de outras escolas. É um produto muito desejado pelos alunos.

Nós tivemos um grande impacto na educação em função da pandemia. O que a Somos apurou desse impacto?

A pandemia teve todos os efeitos cruéis que a gente conheceu, mas ela teve um aspecto positivo porque acelerou muito a transformação digital da educação básica. As escolas, os professores eram muito refratários na educação básica, enquanto no ensino superior a tecnologia digital já era bastante difundida. Nós tivemos a oportunidade, ao longo da pandemia, de nos firmarmos como grande líder da educação digital brasileira.

No entanto, para as crianças não se mostrou possível. Por isso, todas as escolas privadas brasileiras perderam muitos alunos na educação infantil, que ainda não voltaram completamente para a escola. Então, considerando 2022 com 2019, o segmento de fundamental I e fundamental II e médio já atingiram os números pré-pandemia, mas a educação infantil ainda não.

Isso mostra dois efeitos importantes. Os pais que têm filhos pequenos, em geral, estão no começo das suas vidas profissionais, tiveram um impacto de renda e estão segurando a molecada um pouco em casa porque no nosso país, apenas de seis anos para frente é obrigado ter o filho matriculado. E o segundo fator é que a educação digital não funcionou muito para os pequenininhos.

Os alunos do ensino médio gostaram das aulas on-line?

Sim, e estão cobrando um modelo híbrido. Eles se deram bem na educação digital. A gente entende que a educação digital para valer não é a da pandemia, 100% digital. Agora, podemos promover um modelo híbrido. Algumas coisas acontecem na escola, outras tantas, onde o aluno estiver. Há alunos que querem saber mais sobre ciências, outros sobre humanidade. Há um equilíbrio que a sociedade está buscando para um ensino híbrido básico. Ele está sendo testado e, em breve, teremos ideia de como será em definitivo.

Os alunos gostaram das aulas on-line, mas tem um temor embutido. Parte desse comportamento deles é porque veem que funcionou, e outra parte, é que alunos tímidos se sentiram mais à vontade no mundo digital do que no mundo físico. Nós fizemos até um estudo interno interessante que os alunos que habitualmente não perguntavam numa aula física, por timidez de aparecer em grupo, foram muito mais ativos no mundo digital.

O senhor falou que para o ensino infantil, de 2 a 6 anos, o ensino digital não foi bem. Por que?

São vários fatores. O primeiro fator é que o pai e a mãe estavam em casa, mas não estavam de férias, né? Estavam trabalhando. Então eles não conseguem trabalhar e ser um mediador da educação digital do filho ao mesmo tempo. Outra coisa. Por incrível que pareça, a gente viu limitação de aparelhos, mesmo sendo famílias que têm filhos em escolas privadas, têm computador em casa, mas os pais precisavam do computador para o trabalho. 

Além disso, você tem uma característica intrínseca da criança pequena, que é um spam de atenção pequeno. Quando você tem a educação 100% digital, durante 10, 15 minutos eles até se concentram, mas depois eles saem andando com o computador, o celular, pela casa.

Quando a gente olha números do Brasil vê que os nossos alunos, tanto do setor público, quanto privado, têm um aprendizado muito aquém dos de outros países. O que a gente pode fazer para chegar mais perto dos resultados de países da OCDE, com notas maiores no teste de Pisa?

O melhor quartil brasileiro, isto é, grupo de 25% de estudantes, equivale ao pior quartil de Portugal no teste de Pisa (que mede conhecimento em matemática, ciências e leitura até a 9ª série). Então, o problema é muito sério! Isso bate diretamente na nossa produtividade como país, na nossa capacidade de competir com outras economias.

Eu defendo muito que para a gente sair desse cenário, a gente precisa juntar três coisas importantes, e a Somos faz isso todo santo dia. Neurociência aplicada à educação, saber como o cérebro funciona, como o cérebro aprende, quais são os protocolos que melhoram o processo de ensino e aprendizado é fundamental.

Também é preciso trazer uma gestão baseada em dados para as escolas. Normalmente, elas se baseiam muito em percepções e sem dados você não toma boas decisões dentro da escola. E, por fim, com dados trazer a inteligência artificial para ajudar o professor.

Atualmente, a educação digital permite que o professor faça a prova hoje à tarde, que no final da tarde essa prova esteja corrigida e comparada com outras dezenas de milhares de alunos da mesma idade, que têm os mesmos objetivos de aprendizagem.

Assim, a gente consegue identificar muito rápido qual é o grupo que precisa ser encaminhado para o protocolo de aceleração, de recuperação, ou, eventualmente, um grupo que está tão além daquilo que a escola está oferecendo, que precisa se engajar em projetos de aprofundamento, em olimpíadas, em outros programas. Tudo isso vai ajudar muito o Brasil a evoluir. Se tivéssemos feito tudo isso na pandemia também na escola pública...

O ensino privado brasileiro foi bem durante a pandemia, mas, infelizmente grande parte do ensino público não conseguiu oferecer praticamente nada para o aluno.

Eu entendo que, exatamente para a área pública, essas ferramentas de aceleração deveriam ser básicas. Usar neuroestimulação, em geral não custa nada, é só o professor aprender a dar uma aula de um jeito diferente, mas que vai estimular o cérebro melhor. Eu acho que a gente consegue recuperar esse gap (do Pisa), mas vai demandar muito esforço.

Na sua avaliação, o problema da escola pública é falta de dinheiro ou mais de gestão?

Não é de dinheiro. O dinheiro educacional brasileiro é mal investido e geralmente não chega aonde é mais necessário. Então, eu diria que é um problema de gestão, e é por isso que eu insisto que fazer uma gestão baseada em dados é fundamental. 

Vou te dar um exemplo. Em muitas cidades do Brasil, nós temos uma unidade escolar onde não existe mais demanda demográfica, e falta uma unidade escolar na periferia, onde há uma necessidade demográfica. Isso é dado, deveria haver dos gestores públicos, a coragem de dizer ‘oh, eu vou fechar escolas que não têm mais demandas, porque eu preciso desse dinheiro para investir em escolas onde elas são necessárias’.

Teve também um problema de falta de equipamentos. E muitos estudantes pobres não tinham internet banda larga. Como o Brasil pode suprir isso?

Esse alunos, em geral, têm o equipamento, eles não têm é um pacote de banco de dados, porque a família deles usa celular, por exemplo, no whatsapp, facebook, instagram, que não consomem pacote de dados. Acho que nós precisaríamos de um pacto nacional dizendo que plataformas educacionais não deveriam consumir dados também.

Que espécie de país a gente é quando reconhece que o whatsapp não consome dados do celular do aluno, mas a plataforma de estudo que o estado ou o município dele ofereceu consome.

Então, eu acho que existe um pacto que precisa ser feito entre os entes públicos e as empresas, por exemplo, de telecomunicações, para gente criar esse conceito de estimular o aluno da escola pública, que ele esteja conectado, mas não é para ver coisa no instagram. É para ter a utilidade educacional a sua disposição.

Eu acho que realmente falta uma coordenação nacional nesse sentido no Brasil, existem iniciativas de uma prefeitura aqui, de um estado acolá, mas as grandes operadoras de telecomunicações eu tenho certeza que elas reagiriam bem a uma coordenação nacional central nisso, tem que ser um projeto de país, não de um prefeito.

A gente deveria ter uma lei, ou o Ministério da Educação poderia decidir isso?

Eu acredito que as duas coisas. Deveríamos reconhecer por lei uma necessidade educacional para os mais pobres, de acesso a dados, deveríamos ter um programa de estímulo. Assim como temos um Auxílio Brasil, nós deveríamos ter um Auxílio Brasil Digital, senão nós não vamos digitalizar essa molecada, e não vamos acelerá-los com o que a tecnologia pode permitir. Cabe ao MEC toda a coordenação nacional de qualquer tema de educação, é indelegável do Ministério isso.

Para gente ter um ensino com resultado mais parecido com a OCDE no Brasil, a gente precisaria de quanto tempo?

De acordo com os dados do último Pisa, precisaríamos de pelo menos 75 anos para chegar na média, mas acho que isso é pré-pandemia. A pandemia deve ter causado um gap brutal, que nós só vamos saber no ano que vem. É por isso que eu acho que nós precisamos, agora, lançar mão de ferramentas aceleradoras, nada mais importante que o professor com conhecimento de neurociência, com dados para tomar decisões sábias, e com inteligência artificial o ajudando a entender aquilo que não é óbvio. 

Nós podemos acelerar, e acelerar muito rápido porque o Brasil, por outro lado, gosta de tecnologia. Nossos alunos e professores são usuário intensos de tecnologia, só não usam para a educação, o que nós precisamos facilitar.

O senhor vai falar para empresários e outras lideranças nesta quinta-feira, em Joinville. O que vai destacar na palestra?

Eu acho que minha principal lição em Joinville é mostrar que a qualidade da educação também é um problema do empresário. O maior gap que nós temos, hoje, no Brasil, é nossa diferença absurda de competitividade contra a produtividade de um americano médio, de um alemão médio, de um coreano do sul médio. 

Então, isso é um problema do empresário também, por dois motivos: porque a vítima de uma mão de obra despreparada será ele no futuro, e a segunda coisa é que existe uma onda de preocupação que se chama ESG, que é a sigla em inglês para ambiental, social e governança. Isso vai mudar completamente o mundo dos negócios. O objetivo central do ESG é que os empresários sejam co-responsáveis por aquilo que é importante para a sustentabilidade da sociedade.

Então eu vou alertá-los que seja pelo ângulo do ESG, seja pelo ângulo da produtividade, o empresário precisa estar muito focado na qualidade da educação que o município dele oferece. Ao mesmo tempo que ele tem que cobrar da prefeitura, ele tem que oferecer ajuda para a prefeitura naquilo que ele pode. Se não fizermos isso, a grande vítima será o próprio empresário daqui a algum tempo.

A participação na palestra de Mario Ghio é gratuita, mas é preciso se inscrever no link https://bit.ly/MarioGhio-Sympla

Estela Benetti

Colunista

Estela Benetti

Especialista na economia de Santa Catarina, traduz as decisões mais relevantes do mercado, faz análises e antecipa tendências que afetam a vida de empresários, governos e consumidores.

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