Um dos principais articuladores do novo modelo de Ensino Médio em implementação no país, o ex-reitor da Furb e ex-secretário de Estado da Educação, Eduardo Deschamps, estará em Boston (EUA) neste fim de semana para o seminário Brazil Conference, promovido por estudantes brasileiros em Harvard e no Massachusetts Institute of Technology (MIT). O convite a falar sobre desafios educacionais do país nos próximos quatro anos tem a ver com a atuação nacional de Deschamps nos últimos anos. Ele presidiu o Conselho Nacional de Educação (CNE) e conduziu as comissões do novo Ensino Médio e da Base Nacional Comum Curricular.

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A participação em Boston ocorre no momento em que o Ministério da Educação (MEC) abriu consulta pública para rediscutir o novo modelo de Ensino Médio, que está no segundo de três anos de implantação. Essa fase do ensino passou a ser flexível para os estudantes, com parte das disciplinas optativa, e aumentou a carga horária, de 800 para 1.000 horas/aula por ano. A principal crítica às novidades é que não consideram as diferentes realidades regionais e sociais, no que acabariam acentuando desigualdades.

Na entrevista a seguir, o atual professor da Furb defendeu a discussão ampla para aperfeiçoar o sistema, mas criticou quem defende a revogação total da legislação.

O que o senhor pretende apresentar no seminário nos Estados Unidos?

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Os estudantes em Boston vão apresentar um diagnóstico socioeconômico do Brasil. E a partir de então eles vão pedir para os painelistas apresentarem propostas, soluções e projetos que podem modificar e melhorar os indicadores do país. Entre os assuntos está a Educação, e eu vou ser o membro da mesa para falar da Educação em particular. Tem vários tópicos que precisam ser tratados. Alguns dizem respeito a corrigir problemas de muito tempo, como a alfabetização. E temos questões mais recentes, como a recomposição de aprendizagem após a Covid-19 e o novo Ensino Médio. A proposta que está sendo implementada é um alinhamento com o que tem sido feito no mundo. Óbvio, é um processo, pode ser feito algum ajuste e revisão, mas não uma revogação. Porque aí voltaríamos ao modelo anterior.

Como avalia a implementação do Novo Ensino Médio até aqui?

A reforma é uma quebra de paradigma, para um currículo que tem uma parte focada na formação geral básica, a preparação para a vida, e a segunda parte, que é quando a gente flexibiliza o currículo. O estudante não precisa mais investir tanto tempo e energia no que ele nunca vai usar na vida dele. A formação geral básica está bem alinhada, mas a parte dos itinerários ficou muito solta. Tem espaço no itinerário para fazer coisas inovadoras, diferentes. Agora, é uma reforma complexa de implementar. A gente tem pelo menos duas políticas que seriam de responsabilidade do governo federal e estão atrasadas. Falta a melhor definição do Enem e a definição do Plano Nacional do Livro Didático, além da formação de professores. Acho muito difícil fazer um julgamento na metade da implementação. Se a gente tiver uma certa serenidade, vai poder identificar os pontos que precisam de ajuste.

Uma das críticas frequentes é sobre as desigualdades regionais e entre as diferentes redes de ensino… Como o novo Ensino Médio enfrenta essa questão?

Isso sempre foi um ponto nos debates, mas pra mim ele tem um viés de análise. À guisa de gerar uma igualdade, a gente tenta criar um padrão nacional e ele só aprofunda as desigualdades a partir do momento em que desestimula o estudante a permanecer na escola. Tem que ter um certo cuidado na implementação porque, por exemplo, não tenho mais turmas únicas numa escola pequena. A partir da oferta de itinerários, há sempre uma discussão de como isso poderia ser feito numa escola com menor estrutura. Mas tem também questões de desigualdade estrutural que já existiam antes, que independem da reforma do Ensino Médio. Se a gente corrigisse os problemas estruturais, o currículo antigo continuaria não dando conta das demandas da sociedade no Século 21. O currículo novo traz uma perspectiva para o estudante de diminuição da evasão.

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O aumento da carga horária não prejudica o estudante que precisa conciliar escola com trabalho?

O primeiro fator é que o percentual de alunos no Ensino Médio noturno para trabalhar de dia é menor do que as pessoas imaginam. O Novo Ensino Médio traz a possibilidade de eu computar a carga horária do trabalho, como na aprendizagem profissional. Isso é bacana porque a gente tira a lógica do trabalho pelo trabalho. E o trabalho passaa a ser parte da formação do estudante. Isso a gente pegou do modelo dual da Alemanha. A nova legislação do Ensino Médio permite isso, a antiga trabalhava com uma coisa estanque.

Há espaço para rediscutir pontos do novo sistema, como propõe o MEC sob Lula?

É um passo natural. Toda política pública, na mudança de governo, passa por um processo de avaliação. É óbvio que, no caso específico, existe toda essa manifestação de grupos mais de extrema-esquerda, que sempre se posicionaram contra de forma político-ideológica, ainda que os princípios da reforma tenham sido propostos durante o governo do PT (de Dilma Rousseff), pelo ministro Aloizio Mercadante. Mas como se deu naquele momento de turbulência, tem essa questão política. O MEC teria de fazer uma avaliação, acho sensato fazer agora. A consulta traz uma escuta um pouco mais ampla de um tema que é complexo.

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