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Histórias que marcaram a infância

Senta que lá vem história: "O relógio na teta da vaca"

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Mário
Por Mário Motta
24/08/2020 - 05h06 - Atualizada em: 24/08/2020 - 05h10
Mais um causo que povoou minha infância (Reprodução)
Mais um causo que povoou minha infância (Reprodução)

Lá estava ele no meio do nada, procurando um tal Lourenço que garantiram, teria a solução para suas dores. Depois de buscar tratamento em todos os cantos possíveis, restou-lhe apenas a fé, e por ela a crença de que um benzedor pudesse dar jeito em sua coluna. E lá estava ele no meio do nada em busca do que, na sua vida, era tudo naquele momento.

Muitos quilômetros rodados mato adentro, por um trilho que lhe disseram chamar estrada e que lhe fazia pensar: "Se os buracos são tantos, de onde vem tanta poeira?" Pelo trajeto, sob o escaldante sol de dezembro atrás do tal Lourenço, cruzara com cavalos, bois e alguns poucos seres humanos.

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Até que ao parar para abrir uma porteira, a dúvida que o caminho impunha o empurrou até uma elevação, onde um velho caboclo sentado num banquinho tirava o leite de uma vaquinha escanzelada.

- Bom dia, meu senhor!

- Bão dia pru sinhô tomem - respondeu-lhe o caboclo.

- Estou procurando um tal Lourenço. Disseram que ele mora por aqui.

- Si fô o benzedô, o sinhô tá pertim. Mais duas léguas e o sítio dele fica às esquerda.

- Puxa vida, até que enfim. Já faz quase três horas que eu estou na estrada e preciso voltar logo.

- Oceis da cidade parece escravo du relógio, né mermo?

- É verdade, o Senhor tem razão. E por falar nisso, meu relógio parou, o senhor tem horas?...

E foi aí que tudo aconteceu...

De cócoras ao lado da vaquinha, o velho peão se abaixou um pouco mais, passou a mão no úbere do animal, empurrou para cá e para lá e depois de um breve espaço de tempo lhe disse com absoluta firmeza:

- Farta doze minutos prás oito horas.

Só faltava isso...

Ele, que imaginara ter visto de tudo na vida, não podia crer que a sabedoria popular iria lhe pregar mais uma peça. O que levara aquele peão, ao apalpar as tetas de sua vaquinha, afirmar com toda a segurança do mundo, que para as oito horas faltavam certeiros doze minutos?

Mesmo assim, não discutiu. Não tinha argumentos.

Ainda incrédulo, agradeceu e seguiu em busca do Lourenço Benzedor.

E agora, além da descrença de que a tal reza poderia lhe curar, em sua cabeça estava também o relógio da teta da vaca.

A benzedura fez tão bem que ele decidiu continuar o tratamento pelo menos com mais umas duas sessões.

Três dias depois, lá estava ele pela segunda vez.

E nas mesmas circunstâncias: o peão tirando leite, o cumprimento, o pedido pela hora certa, o apalpar na teta da malhada e, na mosca – de novo a hora certinha (conferida disfarçadamente, agora com o relógio devidamente funcionando) só fazendo crescer sua incredulidade.

Mais três dias e pela terceira vez de novo o cenário - ele, o peão e a vaca. Era aquele o último da benzedura que já provocara reações positivas suficientes para colocar numa sinuca de bico sua descrença de certas coisas imateriais. Sem querer buscar explicações para a fé, imaginou ser possível pelo menos tentar compreender como o velho caboclo aprendera a ver hora certa na teta da sua vaquinha malhada.

:- Olá meu amigo, tudo bem? Não quero atrapalhar a sua ordenha, mas gostaria de lhe perguntar, pela última vez, que horas são por favor?

:- Dez prás nove – disse ele, não sem antes apalpar novamente a teta da malhada.

Depois de confirmar no relógio – dez para as nove – ele não se conteve e perguntou como ele conseguia aquela maravilha? De que maneira a sabedoria popular lhe ensinara a ver com tamanha precisão as hora e os minutos pelo úbere de uma ruminante?

Foi quando o velho caboclo lhe explicou com a simplicidade dos felizes:

:- Nada disso meu cumpadi. É que se eu num tirar a teta da vaca da frente, num consigo enxergá o relógio da torre da igrejinha no povoado lá embaixo, tá vendo?

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PS: Causos como esse povoaram minha infância e ainda hoje moram no imaginário das camadas mais populares dos brasileiros.

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