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Crônica

Não bastar falar em Deus

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Por Martha Medeiros
27/08/2021 - 14h49
Não bastar falar em Deus
Não bastar falar em Deus (Foto: Unsplash)

Um leitor me pergunta por e-mail: “Como podes atacar um homem tão bom, um aliado de Deus?”. Não preciso dizer a quem ele defendia. A mensagem era cortês, de alguém que acredita que um político que se apresenta abraçado a Deus logicamente fará o melhor para todos. Enquanto isso, o diabo ri pelas costas dos inocentes.

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Política e religião não deveriam se misturar, um assunto é público e o outro é privado. Mas, curiosamente, são os políticos mais “polêmicos” (ah, os eufemismos) que usam e abusam de Deus como cabo eleitoral, pois sabem que a religião sempre serviu como blindagem contra críticas.

Muitos de nós buscam conforto na religião. Outros buscam conforto na natureza, na arte, na ciência, no humanismo. Tanto faz. Uma pessoa é boa pelos princípios éticos e morais, não pelos meios com que alimenta o espírito. Posso ser equilibrada, amorosa, generosa e solidária sem nunca ter colocado uma hóstia na boca e sem atribuir minhas ações a uma força divina e sobrenatural. Assim como posso ir à missa todos os domingos, crer que Deus está acima de tudo, e minha suposta benignidade ser uma fraude.

O que chamo intimamente de Deus, e o que você chama, está igualmente a serviço do bem e do mal, ou não haveria extremistas radicais, atentados terroristas, populações subjugadas em nome da fé. Adesivar o carro com o emblema “Jesus te ama” ou rezar antes das refeições têm efeito zero sobre nossa índole.

Há maneiras mais eficientes de descobrir se alguém é de fato especial. Ouça o que ela diz. Observe como se comporta. Que respeito tem pelos outros. O quanto é sensível ao sofrimento alheio. Como trata aqueles que a estão servindo. O quanto se interessa por quem não lhe é útil. O que a emociona. Em que medida se compromete com a verdade. O quanto se dedica à escuta. O tom de voz com que se comunica. Em que ela contribui para a sociedade. Qual sua predisposição em evoluir, em acompanhar as mudanças do tempo. O quanto evita causar desassossegos. Se estende a mão quando lhe pedem ajuda. Como lida com crianças e idosos. Qual a importância que dá para a beleza de uma escultura, para a emoção provocada por uma música. Se consegue compreender que miséria e vício não são escolhas, se sente compaixão por quem padece pela desigualdade social.

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Prestando bem atenção, você conseguirá perceber se essa pessoa tem valores e intenções confiáveis, ou se é uma egoísta a serviço da própria vaidade e da ambição por poder. Seja qual for o resultado da sua análise, você não terá a mínima ideia se ela é religiosa ou não.

A pessoa que fala em Deus, que cita Deus, que se agarra em Deus, pode ser um ser humano extremamente bom e justo. Mas para confirmarmos, falta todo o resto.

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Martha Medeiros

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Escritora e cronista best-seller com livros adaptados para a TV e cinema. Escreve sobre o cotidiano, o dia a dia e temas de interesse comum.

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