As primeiras reações dos vereadores de Blumenau à Operação Happy Nation sugerem que o vereador Almir Vieira (PP), preso na última terça-feira (3) – e liberado após audiência de custódia –, não terá vida política tranquila daqui em diante. Depois de um silêncio cauteloso na sessão ordinária daquele mesmo dia, o assunto não passou batido em plenário nesta quinta (5).
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No início da tarde, antes mesmo da sessão, coube a Odair Tramontin (Novo) “abrir os trabalhos”. Acompanhado dos correligionários Diego Nasato e Bruno Win, o ex-promotor de Justiça anunciou em um vídeo publicado nas redes sociais que pediria a cassação do mandato de Vieira, sob a alegação de quebra de decoro parlamentar.
O requerimento enviado ao Legislativo reivindica a intervenção do Conselho de Ética e defende que a prisão em flagrante e o possível desvio de recursos representam “fato objetivo e grave”, suficientes, segundo ele, para a punição antes mesmo de condenação judicial. O documento será analisado pela Procuradora Jurídica da Câmara, que subsidiará os próximos passos da Mesa Diretora.
Na prática, Tramontin, mesmo sem mandato, exerceu um papel que deveria ser primeiro dos próprios colegas de Vieira: não necessariamente o de pedir a cassação – o devido processo legal precisa ser instaurado, com direito ao contraditório e a um julgamento justo –, mas de sair em defesa da imagem institucional do poder legislativo. A postura, é verdade, também veio a calhar ao próprio ex-promotor, que é pré-candidato à Assembleia Legislativa e buscou reforçar o discurso em prol da moralidade.
Horas depois, Nasato e Win repercutiriam o movimento de Tramontin na tribuna. Mas a manifestação mais contundente sobre a situação veio de Egídio Beckhauser (Republicanos), que defendeu veementemente a abertura de um processo no Conselho de Ética para apurar a conduta de Vieira.
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— Isso não é fofoca de corredor, isso não é intriga política. Isso é prisão, é investigação criminal, é vergonha! Constrangimento, desconforto — disparou.
Alvo de uma investigação policial que apura suposta prática de rachadinha, corrupção e lavagem de dinheiro, Vieira foi do céu ao inferno em um intervalo de pouco mais de um ano.
Em 2024, época dos fatos investigados pela polícia, o parlamentar vivia talvez o melhor momento político da carreira. Gozava dos poderes e da influência do cargo de presidente da Câmara de Vereadores. Essa condição inclusive permitiu que ele se sentasse na cadeira de prefeito, de maneira interina, um ano antes, em 2023, durante uma viagem internacional do então prefeito Mário Hildebrandt à Alemanha. As férias da vice Maria Regina Soar marcadas para o mesmo período não foram uma mera coincidência, mas um gesto político para prestigiar o Legislativo por meio de sua então principal liderança.
Nas eleições de 2024, Vieira triplicou o número de votos em relação a 2020 e por pouco não foi o vereador mais votado da cidade – ficou na segunda posição. A visibilidade da presidência da Câmara e da interinidade como prefeito, somada a uma bem-sucedida estratégia de impulsionamento de conteúdo nas redes sociais, ajudaram a explicar o resultado, disse à coluna uma pessoa ligada à campanha dele na época.
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O jogo começou a virar pouco depois do pleito, com o início das tratativas para a formação da Mesa Diretora da Câmara. Vieira queria mais um mandato e se lançou candidato. Mas uma chapa suprapartidária costurada por Beckhauser e Ito de Souza (PL) – que mais tarde seria eleito com 11 dos 15 votos – isolou o progressista. No dia da votação, houve clima tenso, troca de farpas e acusações de traição.
Naquela ocasião, o movimento para enfraquecer a candidatura de Vieira, inicialmente tido como favorito, já foi visto como uma reação dos vereadores à maneira centralizadora como ele conduzia a Câmara, o que provocava desgaste entre os seus pares. Algumas dessas feridas ainda estão abertas e tendem a influenciar a maneira como a Casa analisará a situação do progressista de agora em diante.

