nsc

publicidade

Pedro

Entrevista

Exclusivo: presidente em exercício da Teka fala sobre a situação da empresa

Compartilhe

Por Pedro Machado
27/11/2018 - 09h46 - Atualizada em: 27/11/2018 - 10h20
Decisão judicial delegou comando da empresa à gestora Fabiane Paula Esvicero (Foto: Pedro Machado)

Alçada em setembro ao comando da Teka por um período de seis meses após uma decisão da Justiça que determinou o afastamento do diretor-presidente Frederico Kuehnrich Neto, a gestora Fabiane Paula Esvicero, que acumula dez anos de experiência com consultoria na reestruturação de empresas, fala nesta entrevista exclusiva ao blog sobre a situação de uma das mais tradicionais indústrias têxteis de Blumenau, em recuperação judicial desde 2012.

Curta Pedro Machado no Facebook​​​​​​​

Leia mais notícias de Pedro Machado​​​​​​

A senhora assumiu recentemente como diretora-presidente, mas já havia entrado na Teka como gestora judicial em julho de 2017. Em que situação encontrou a empresa?

A empresa estava em uma situação bem crítica. De 2012 até 2017, o endividamento realmente cresceu. A mentalidade da antiga gestão, e isso não sou eu quem diz, e sim pessoas que estão aqui dentro, era de empurrar com a barriga tudo que dava. Neste período, a dívida extraconcursal (aquela gerada após a recuperação judicial ser concedida) aumentou em vários setores. Era pego dinheiro de fundos de investimento a taxas abusivas e nunca era o suficiente. Os pagamentos (de salários), mesmo sendo em três vezes, o que continua acontecendo, nunca ocorriam dentro do mês. Não havia controle de absolutamente nada. Se o juízo não tivesse colocado alguém aqui, não tivesse afastado o pessoal dos conselhos, não tivesse tomado essa atitude, em dezembro de 2017 a empresa não estaria aberta e não teria condições de rodar.

O que foi feito desde então para tentar amenizar esse quadro?

A primeira coisa, que atrapalhava muito a Teka, foi cortar o pré-faturamento. Faturava-se sempre para frente. Havia milhões em mercadorias já faturadas e nenhuma entregue. E sem matéria-prima para produzir. O que foi colocado, quando cheguei, é que eu viria com o intuito de fechar a empresa. Conversei com todos e disse que a atitude que o juízo tomou foi no sentido de dar um fôlego para a Teka, ver se ela é viável. O foco hoje é simplesmente social, pagar todos os funcionários. Tento colocar que a mudança tem de vir de dentro. Isso é muito mais difícil do que qualquer outra coisa. Se as pessoas não mudassem, não conseguiríamos reverter essa situação. Já passei por muitas empresas, mas na Teka verifiquei duas coisas. Quem está aqui dentro realmente ama o que faz, veste a camisa, tem conhecimento técnico e é muito comprometido. Segundo: a marca Teka pode ter se desgastado nesses anos com tudo o que foi acontecendo, mas ainda é forte. Qualidade nunca foi problema. A Teka tem tudo. Só precisava realmente organizar.

É um desafio comum em casos de recuperação judicial gerar confiança no mercado porque os fornecedores temem calote, em função da situação financeira da empresa. Como a Teka vem trabalhando nesse sentido?

Muitos fornecedores vieram até a Teka, conversaram comigo, queriam me conhecer, olho no olho. Queriam saber qual era a diferença, se era a minha palavra. Na verdade não é a minha palavra, mas um conjunto. Eles sabem que agora a Teka está pagando e cumprindo prazos. Para eles também é vantagem. Na área de recuperação judicial existe esse embate. Em todas as empresas que eu entrei, existe esse trabalho de credibilidade. Isso vai aumentando e eles começam a trabalhar como se você fosse um cliente normal, dando crédito e limites. Não são 100% dos nossos fornecedores que fazem isso, mas com os de fios e tecidos, que são a maioria, já estamos conseguindo. Tudo porque eles dão prazo e a gente paga. Desde que houve o afastamento da antiga gestão, as decisões aqui são compartilhadas. Independentemente de eu assumir a presidência, eu não tomo nenhuma decisão sozinha. Até porque temos funcionários aqui de 30, 40 anos que conhecem a empresa muito melhor do que eu. Tudo é feito a oito, dez mãos.

Na decisão de 2017 que determinou o afastamento dos membros dos conselhos fiscal e administrativo, o juiz responsável destacou que uma auditoria havia apontado um crescimento de 123% no endividamento a partir do deferimento da recuperação judicial, em 2012. Foi feita uma projeção de que o passivo em dezembro de 2019 poderia chegar a R$ 3,24 bilhões. Além disso, há relatórios apresentados pela administradora judicial referentes às atividades deste ano que mostram prejuízos operacionais mensais, uma média de R$ 15 milhões. A Teka ainda é um negócio financeiramente viável?

De agosto de 2017 em diante esse endividamento cessou, parou de aumentar. Tudo que tem dentro do mês é pago, inclusive estamos pagando algumas coisas que são extraconcursais. Havia uma dívida de fomento. Acabamos de acertar uma outra dívida de R$ 5 milhões que está sendo paga. Nada que onere o caixa da Teka. Quando chegamos aqui havia restaurante, segurança e transporte dos funcionários em atraso e colocamos em dia. São coisas pequenas, sim, porque não posso descapitalizar a empresa. Hoje há o passivo da recuperação judicial e o passivo pós-recuperação judicial. Nesse passivo pós-recuperação há tributos que têm juros e são colocados no balanço. Só de fornecedores, nosso passivo aumenta R$ 200 mil por mês só de juros.

O prejuízo que a Teka gera hoje, então, é decorrente de juros?

Exatamente. Juros, juros e mais juros. Há muitos juros de contratos abusivos que estamos colocando em ordem na contabilidade. São prejuízos do passado.

Presidente da Teka abre o jogo sobre situação da empresa
(Foto: )

A empresa fez algumas reestruturações nos últimos anos e chegou a transferir a operação de Indaial para Blumenau. O que mais foi feito para tentar diminuir custos?

Isso (a transferência) realmente foi mérito da antiga gestão, mas pela pressão que foi feita aqui dentro. Reduziu um custo muito grande. Havia fiações que nunca se permitiu fechar porque alegavam que um dia a Teka cresceria e iria precisar. Mas hoje a mentalidade é andar com o pé no chão, fazer o melhor aqui dentro para ganhar eficiência. Fechamos a fiação de Artur Nogueira, centralizando em Blumenau. Não havia a necessidade de ter as duas fiações pela quantidade de produção que nós temos. Agora em janeiro vamos migrar para o mercado livre de energia (quando uma empresa passa a comprar energia diretamente da geradora, sem receber de uma distribuidora). Isso já vai gerar uma economia de R$ 300 mil por mês. Também estamos fazendo testes com fios e melhorando a eficiência da nossa tecelagem.

A senhora comentou que há uma estabilidade da situação financeira da Teka hoje, no sentido de que novas dívidas não estão sendo geradas. Mas qual é o tamanho da dívida da empresa hoje?

Eu vou até me corrigir: não estamos gerando dívidas, porém a Teka ainda não está conseguindo pagar seus impostos. Só de impostos nós temos mais de R$ 700 milhões em dívidas. Ainda temos “Kinder ovos” por aqui. Recebemos na semana passada uma ação monitória de um fornecedor dizendo que a Teka tem uma dívida de R$ 72 milhões com ele. Ainda estamos analisando. No nosso balanço está R$ 27 milhões. E tem a (dívida) da própria recuperação judicial. De FGTS temos em torno de R$ 120 milhões. As trabalhistas ainda não conseguimos mensurar porque elas são muito espalhadas. Segundo informações do próprio sindicato, só em Indaial são mais de 500 processos que nunca foram habilitados.

O Ministério Público já se manifestou algumas vezes favoravelmente à decretação da falência da empresa. Essa é uma possibilidade considerada?

Pelo que eu sei, o Ministério Público pede a falência da Teka desde a época do doutor Osmar (Tomazoni, juiz que deferiu o pedido de recuperação judicial em 2012) por não ver a empresa como viável. A preocupação nossa é realmente com o social. A pergunta é: se hoje a Teka decretar falência, o que será de todos os funcionários? Os ativos da empresa, que são as sedes, estão todos bloqueados pelo processo de recuperação judicial. Não haveria como se pagar. O intuito aqui dentro da Teka é que ela se mantenha, que realmente consiga se reestruturar e se reerguer para pelo menos normalizar a situação dos trabalhadores internos. É essa conscientização que a administradora judicial faz junto à Justiça e ao Ministério Público, de que não se quer recuperar a empresa para os sócios, mas para todas as pessoas que aqui trabalharam por anos e anos. Se um dia a Teka realmente fechar as portas, que elas saiam com o que é de direito delas no bolso.

A situação da empresa gera angústia nos funcionários, no mercado e na própria cidade, porque a Teka tem uma história muito rica em Blumenau. O que a senhora poderia dizer a respeito do futuro da empresa?

Fizemos agora um planejamento estratégico para o ano que vem. Em 2018 nós trabalhamos, numa gestão compartilhada, para criar credibilidade no mercado. E em 2019 é colher os frutos disso. Nada mais do que trabalhar corretamente junto a clientes, fornecedores e bancos. Queremos atingir no mínimo o break even (equilíbrio entre receitas e despesas), que hoje é de R$ 22 milhões por mês. Estamos sendo um pouco mais ousados, queremos buscar essa média no ano. Fazendo o básico, a cidade, o Estado e o Brasil começam a ver que a Teka está mudando.

Deixe seu comentário:

publicidade