Hans Prayon foi um gentleman. Muita gente que conviveu com o industrial, que morreu neste domingo aos 93 anos, assinaria embaixo desta declaração. Tive um único contato pessoal direto com ele, 16 anos atrás. Se a primeira impressão é a que fica, a experiência foi suficiente para comprovar a fama.
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O ano era 2010, meu último de faculdade. Eu já trabalhava como jornalista, mas ainda faltava o diploma. Decidi, como trabalho de conclusão de curso, escrever sobre a trajetória do Cetil, para muitos a “empresa-mãe” que deu origem ao polo de tecnologia da informação de Blumenau.
Aqui um breve parêntese. Para quem não conhece, o Cetil – sigla para Centro Eletrônico da Indústria Têxtil – foi um consórcio formado em 1969 por grandes empresas têxteis de Blumenau para processar dados, em uma época em que a informática começava a dar os primeiros passos no mundo dos negócios. Como os computadores ainda eram muito grandes e caros, a sociedade fazia sentido para as indústrias locais.
Prayon havia tido contato com a informática na Alemanha e já vislumbrava a revolução que estava por vir. Ele foi um dos entusiastas e atuou nos bastidores para a criação do Cetil, embora não tenha tido participação direta na gestão – que ficou a cargo dos então sócios Décio Salles e Ingo Greuel.
Essa história me motivou a buscar uma entrevista. Com a intermediação de alguns conhecidos, uma ligação aqui e um contato acolá, consegui um horário com Prayon, figura conhecida e altamente respeitada no meio empresarial local, com mandato na Associação Empresarial (Acib) e cargo de presidente do conselho da Hering.
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Foi a primeira vez que entrei na sede da companhia no Bom Retiro. Lembro de ter ficado admirado. A maior parte das pessoas que só passa em frente à portaria não tem ideia da grandeza da estrutura administrativa de uma das maiores empresas têxteis da América Latina.
Prayon me recebeu em sua sala, um espaço grande, mas simples e com poucos móveis, e me convidou para sentar à mesa. Assim que me acomodei, pediu licença e se levantou. Poucos minutos depois, voltou, ele próprio, já um senhor de idade na época, carregando uma bandeja.
— Você quer café com ou sem leite? — perguntou.
Nunca consegui gostar de café. Mas, diante da elegância e da autoridade de um cônsul honorário, não tive coragem de dizer que não bebia. “Forçado” pela convenção social, aceitei uma xícara. Com leite, para tentar disfarçar o amargor.
A conversa se desenrolou por pouco mais de uma hora. No final, ele ainda fez questão de me dar uma carona de volta até a portaria da Hering.
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Prayon valorizava a história. Teve a gentileza de abrir as portas e dedicar atenção a um jovem desconhecido para ele simplesmente porque gostava de falar sobre as coisas de Blumenau – talvez uma das suas maiores virtudes. Definitivamente, um gentleman.

