A indústria têxtil catarinense está aflita – de novo. Mais uma vez o setor se vê em meio a uma queda de braço envolvendo tarifas de importação de insumos básicos usados nas fábricas. Em jogo estão custos de produção que, segundo sindicatos e associações empresariais locais, podem comprometer a competitividade e a geração de empregos no setor, além de provocar perdas na economia.
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O imbróglio envolve um pedido de proteção tarifária sobre importações de fios de poliéster texturizados da China que beneficiaria a subsidiária brasileira de uma multinacional americana, cuja capacidade não chega a atender a um sexto da demanda nacional.
Em uma espécie de manifesto que leva a assinatura de nove entidades, representantes da indústria nacional apontam o que chamam de “contradição”. Dizem que esta empresa americana já compra o poliéster parcialmente orientado (POY), matéria-prima para a produção do fio texturizado, com alíquota zero de importação. Agora, pode ser beneficiada com uma tarifa adicional para proteger o produto.
Essas entidades (veja a lista abaixo) temem que a margem de dumping – prática comercial de venda de produtos a preços abaixo de custo para minar a concorrência – apurada e que será aplicada na forma de sobretaxa chegue a 17,5%. Somada ao imposto de importação do fio texturizado, que já é de 18%, a conta chegaria a 35,5%. É um percentual superior ao de importação de malhas e tecidos prontos (26%) e praticamente equivalente ao de peças de roupa prontas (35%).
— Se aumentar o preço da matéria-prima, eu vou trazer produto pronto de fora. É uma conta simples — diz Renato Valim, diretor-executivo do Sintex, sindicato que representa as indústrias têxteis de Blumenau e região e que integra o movimento.
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O setor acredita que esse tipo de medida poderia incentivar um processo de desindustrialização – seria mais racional comprar tudo pronto de fora do que manter estruturas internas de produção –, colocando em risco uma cadeia produtiva que gera 1,5 milhão de empregos no Brasil.
Possíveis impactos econômicos citados pelas entidades no manifesto sugerem um aumento de até 11% no preço da roupa vendida ao consumidor final, além de perdas de R$ 3 bilhões no Produto Interno Bruno (PIB) e de uma redução de cerca de R$ 260 milhões na arrecadação de impostos.
Não é a primeira vez que este tipo de debate vem à tona. Entre 2021 e 2024, o governo federal rejeitou pelo menos duas vezes, após pressão da indústria nacional, a aplicação de medidas antidumping sobre fios de poliéster texturizados. O recuo foi sustentado sob a perspectiva de que a medida prejudicaria o interesse público nacional.
É este mesmo argumento que está sendo levantado agora. Em março, uma comitiva liderada pelo Sintex já havia batido na porta do então ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o vice-presidente Geraldo Alckmin, para alertar sobre o cenário.
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A decisão, agora, está nas mãos do Gecex, o grupo executivo de comércio exterior formado por membros do governo federal. Há prazo até o dia 27 de junho para a palavra final do colegiado.
As entidades que participam do movimento
- Sintex – Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecelagem e do Vestuário de Blumenau
- Sinditec – Sindicato das Indústrias Têxteis de Americana e Região
- Sindivest – Sindicato das Indústrias do Vestuário de Brusque, Botuverá, Guabiruba e Nova Trento/Santa Catarina
- Sindivestil – Sindicato das Indústrias do Vestuário, Tecelagem e Fiação de Três Lagoas-MS
- Abratex – Associação Brasileira dos Fornecedores de Matérias-Primas Têxteis
- Abicol – Associação Brasileira das Indústrias de Colchões
- Acibr – Associação Empresarial de Brusque, Guabiruba e Botuverá
- Fiems – Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul
- Sifitec – Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecelagem, Malharia e Tinturaria de Brusque, Botuverá, Guabiruba, Nova Trento e São João Batista/Santa Catarina

