O centenário está batendo à porta e a Teka se movimenta internamente para tentar deixar para trás tempos difíceis, marcados por disputas internas de controle, trocas de gestão e um longo processo de recuperação judicial – ainda em curso – que arranhou a imagem da empresa no mercado. No prédio administrativo do imenso parque fabril no bairro Itoupava Norte, em Blumenau, algumas mudanças sugerem novos ares para a tradicional indústria de cama, mesa e banho, que em maio completará um século de história.
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Divisórias que antes separavam setores da empresa desapareceram, tornando o ambiente mais aberto e colaborativo. O piso está sendo trocado, o forro pintado e banheiros, restaurados. Reformas também já estão acontecendo em áreas do chão de fábrica e novas máquinas estão chegando para aumentar a capacidade de produção. Com mais tecnologia, elas vão substituir aos poucos maquinário de até meio século. Em alguns casos, com o triplo da eficiência.
Os investimentos em modernização fabril, como a coluna antecipou em dezembro, devem somar R$ 80 milhões entre 2026 e 2027. Boa parte desse valor já está contratada, mas sem endividamento com financiamentos e linhas de crédito e com negociação de prazos com os fornecedores, diz Angelo Guerra Netto, membro do comitê de reestruturação da Teka.
Guerra é um dos porta-vozes da nova fase da Teka. Por trás dela está a Alumni, um fundo de investimentos que, graças a um acordo entre acionistas, passou a dar as cartas no negócio após a extinção da antiga gestão judicial – em junho de 2024 – e está injetando dinheiro na operação. Ele, o novo diretor-presidente Rogério Marques e o também membro do comitê de reestruturação, Eduardo Scarpellini, receberam a coluna para uma entrevista exclusiva na última quarta-feira (21).
No mesmo dia, a companhia reunia na matriz uma centena de representantes comerciais para uma convenção de vendas. A primeira, segundo eles, da história secular da Teka.
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— Esse time está sendo instigado a crescer e a olhar o mercado com mais apetite — diz Guerra.
No topo da gestão, a fome também é grande. Somadas, as fábricas da Teka de Blumenau e Artur Nogueira (SP) empregam cerca de 2 mil pessoas e têm uma capacidade para produzir, por mês, cerca de 700 toneladas. A renovação de parte do maquinário deve ampliar esse volume para até 1,2 mil toneladas até 2027. Em outra frente, a companhia fechou um contrato de arrendamento, com opção de compra, de maquinário parado da Coteminas, que será utilizado para confeccionar toalhas da linha de hotelaria, segmento em que a Teka é líder de mercado.
— Temos um potencial de venda superior à capacidade instalada. Da forma que estamos olhando o mercado, acreditamos que essa produção ainda não será suficiente — observa Guerra.
Essa confiança se reflete, em boa parte, nos números atuais – em outubro a Teka registrou a maior receita mensal da história, com mais de R$ 50 milhões – e nas projeções futuras de receita apresentadas na auditoria feita pela Grand Thornton, que atesta a viabilidade financeira e operacional da empresa e embasa um novo pedido de recuperação judicial. Um dos gráficos do documento sugere um faturamento bruto de pouco mais de R$ 1 bilhão já em 2029, o que representaria mais que o dobro do resultado de 2025, que deve fechar em R$ 475 milhões.
Esse volume considera o mercado interno, onde a Teka está apostando com a abertura de lojas físicas – há pelo menos cinco no radar, com foco em outlets nas regiões Sul e Sudeste, além de Brasília – e um novo e-commerce, mas também um aumento na equipe de vendas e nas exportações para outros países. Em paralelo, a companhia está desenvolvendo uma nova linha têxtil para o segmento hospitalar, um filão que ainda pode ser melhor aproveitado, projeta Guerra.
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Renegociação de dívidas
A diretoria da Teka aguarda uma decisão final do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC) sobre o mérito do pedido para suspender a conversão da recuperação judicial em falência, que chegou a ser decretada em primeira instância em 2025 – a empresa conseguiu reverter a medida com uma liminar.
Em paralelo, a reestruturação segue em curso. Segundo Guerra, há esforços para renegociar pendências com funcionários, com acordos já celebrados em tribunais trabalhistas, e tributárias. Esse trabalho, de acordo com os dirigentes, ajudou a reduzir o passivo, que estava na casa dos R$ 3 bilhões, para algo próximo de R$ 1 bilhão. A dívida ainda é grande, admitem eles, mas se tornou mais contornável.
— O relatório da Grand Thornton contemplou a viabilidade (da empresa) já a partir da reestruturação da dívida — considera Scarpellini.
Mudança na fachada
Na matriz da Teka em Blumenau, uma mudança visual externa já chama a atenção. A fachada, agora, exibe somente o nome da empresa, sem a razão social completa – que antes incluía Tecelagem Kuehnrich, com o sobrenome da família fundadora. A nova diretoria planeja, no futuro, adotar uma nova razão social: Teka Têxtil.
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Uma outra mudança no prédio também está no radar. Há planos, revelou Guerra à coluna, para a construção de um novo prédio de 600 metros quadrados no pátio de estacionamento que concentraria o ambulatório da companhia – a edificação usada para este fim foi negociada com a prefeitura para abater dívidas de IPTU – e a estrutura de RH, além de vestiários para os funcionários.

Aliás
A Teka diz já ter nas mãos ofertas para venda de imóveis não operacionais, sem afetar a capacidade de produção e as fábricas de Blumenau e Artur Nogueira. A companhia pretende se desfazer de uma lista de bens para levantar caixa e ajudar a pagar dívidas trabalhistas.

