Santa Catarina avançou, nos últimos anos, na diversificação de seus produtos turísticos. Trata-se, em grande parte, de um esforço do setor privado, como se viu de forma mais acentuada em Urubici, na Serra, em Pomerode, no Vale do Itajaí, e em Balneário Camboriú, no litoral. Em Florianópolis, a principal novidade da última década foi o novo aeroporto internacional, sob concessão da Zurich Airport, além da reforma da Ponte Hercílio Luz.
Continua depois da publicidade
Também é positivo o movimento de articulação entre o poder público e a iniciativa privada na busca por novos mercados internacionais, com forte investimento em promoção e na conquista de novos voos. O problema de Santa Catarina não é o que oferecer ao turista. O grande entrave está em como chegar e permanecer no Estado: estradas saturadas e serviços essenciais ainda sem solução definitiva.
Veja as fotos do Ano-Novo em Santa Catarina:
O professor Tiago Savi Mondo, do Campus Florianópolis Continente do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) e coordenador da Central de Inteligência Turística de Florianópolis, lançada pelo próprio instituto, resume o cenário de forma direta: “Há 12 verões, temos o mesmo roteiro”.
Segundo o especialista em turismo:
“Em janeiro de 2014, escrevi no Diário Catarinense um artigo intitulado Que turismo é este?. Quase doze anos depois, iniciamos mais uma temporada de verão convivendo com problemas que se repetem: falta de energia em algumas praias, escassez de água em outras, sobrecarga dos sistemas de esgoto, trânsito caótico, longas filas, falhas na coleta de lixo e balneabilidade comprometida.
Continua depois da publicidade
As chuvas intensas dos últimos dias agravaram ainda mais o cenário e, embora sejam fenômenos naturais incontroláveis, seus impactos poderiam — e deveriam — ser minimamente mitigados com planejamento, inteligência e gestão adequada.
A crítica aqui não se dirige aos gestores do turismo em si, que muitas vezes operam com margens de ação reduzidas, estruturas engessadas e decisões que extrapolam suas competências. O problema é mais amplo e estrutural. Trata-se de uma gestão pública que ainda insiste em tratar o turismo como um setor isolado, quando, na prática, ele atravessa áreas como mobilidade, saneamento, energia, meio ambiente, saúde e ordenamento urbano.
É inegável que houve avanços, sobretudo no discurso e em iniciativas voltadas à promoção, à diversificação da oferta e ao estímulo ao turismo ao longo de todo o ano. No entanto, os gargalos da alta temporada permanecem praticamente os mesmos. A lógica segue sendo reativa: primeiro o colapso, depois a tentativa de correção. Planeja-se pouco, mede-se pouco e decide-se, muitas vezes, sem o uso sistemático de dados, indicadores e análises prospectivas.
A responsabilidade de liderar a ruptura desse ciclo é da gestão pública. Cabe ao Estado conduzir processos de planejamento integrado, coordenar políticas intersetoriais e estruturar decisões baseadas em evidências. As universidades podem — e devem — atuar como parceiras estratégicas, oferecendo conhecimento técnico, métodos, ferramentas analíticas e avaliação contínua de políticas e projetos.
Continua depois da publicidade
O conhecimento existe. As ferramentas existem. As experiências também. O que ainda falta é transformar tudo isso em ação pública consistente, contínua e institucionalizada. A reflexão que se impõe, portanto, não é nova, mas segue atual: até quando a gestão pública continuará enfrentando os efeitos previsíveis da temporada sem incorporar, de forma sistemática, dados, inteligência e o apoio qualificado das universidades na tomada de decisão?”
Leia Mais:
Réveillon em Florianópolis repete barbárie no trânsito e destruição de praça pública; vídeo
Placa de local impróprio para banho em praia famosa de Florianópolis reaparece após “sumiço”
Bairro de Florianópolis terá prédio de luxo com garagem inédita na porta da casa
De limousines a doleiros na rua: histórias inacreditáveis dos primórdios do turismo em Florianópolis





































