Por que o preço do arroz está tão caro? Entenda a “tempestade perfeita” que assusta consumidores

Saiba por que o preço do arroz disparou nos mercados do Brasil na última semana

Compartilhe:

Preço do arroz subiu nas últimas semanas. (Foto: Maykon Lammerhirt, BD)

A disparada de preços do arroz é resultado de uma “tempestade perfeita”, segundo produtores. Segundo eles, o aumento decorre de mudanças no mercado externo, com aumento das exportações, e no interno, com brasileiro comendo mais em casa durante a pandemia. O preço baixo nos últimos anos também é parcialmente culpado, uma vez que levou ao encolhimento da produção.

Continua após a publicidade

> Receba notícias de Santa Catarina por WhatsApp. Clique aqui e saiba como

A avaliação é de produtores do Rio Grande do Sul ouvidos pela reportagem. O estado é o maior produtor do país e estima semear cerca de 970 mil hectares na safra 2020/2021, aumento de 3,5% em relação à área colhida na safra anterior.

Continua após a publicidade

— Aconteceu a tempestade perfeita. Pouco produto, a pandemia, aumento de consumo, desvalorização do real. Deu a explosão na cadeia — diz André Ceolin, sócio-proprietário do Grupo Ceolin, que produz e compra o grão:

— Há anos o produtor vem se endividando e foi abandonando a lavoura porque não sobrava dinheiro no preço pelo qual era negociado o arroz.

> Por que o preço do leite está tão caro em SC?

O grupo não teria estoque até o fim do ano se seguisse vendendo na média de 80 mil a 100 mil fardos por mês (cerca de 190 toneladas), segundo ele.

Continua após a publicidade

Enquanto em 2019 o Brasil exportou 269.164,9 toneladas de arroz, segundo dados do Comex Stat, do Ministério da Economia, entre janeiro e agosto de 2020 o montante chegou a 487.428,8 toneladas.

“O arroz não dava mais lucro”

Davenir Santos, de Eldorado do Sul (RS), conta que vendeu parte da produção logo no início da safra para pagar contas, quando o preço do saco variava entre R$ 48 e R$ 52.

Continua após a publicidade

Pouco tempo depois, com a abertura para exportação, 20% da produção de 2019/2020 foi vendida à Guatemala ao preço de R$ 61 por saco.

Agora, ainda com estoque, ele consegue mais de R$ 100 por saco no mercado interno. Segundo o Cepea, na quinta (10) a cotação era de R$ 105.

Continua após a publicidade

— A gente vinha sofrendo há anos, arroz não dava mais lucro, só prejuízo. O preço está bom agora, mas o custo para produzir um saco aumentou bastante — diz.

“Quem ganhou foram os conglomerados”

Segundo Ivo Mello, diretor técnico do Instituto Riograndense do Arroz, o número de produtores no estado caiu pela metade nos últimos 20 anos — hoje, são cerca de 7.000.

Continua após a publicidade

Apesar de a produção se manter em índices semelhantes, houve ainda redução na área plantada –ação recomendada pela autarquia para garantir preços melhores.

— Quem mais ganhou com esse valor e com exportação foram os grandes conglomerados. Quando chegou a R$ 70, R$ 80, o produtor médio e pequeno já tinha vendido para a indústria — aponta Mello.

Continua após a publicidade

Raul Borges, presidente dos sindicatos rurais de Itaqui e Maçambará, avalia que o momento é bom para quem ainda tem produto e para quem já não tem estoque, porque pode balizar o preço futuro:

— O governo tirou a TEC (Tarifa Externa Comum) para importação, mas para os nossos insumos temos ainda várias TECs, em vários produtos que não podemos importar. Faz anos que reivindicamos isso no Mercosul.

Continua após a publicidade

A medida foi anunciada pelo Ministério da Agricultura para conter a alta dos preços, limitando a isenção de taxas de importação a 400 mil toneladas de arroz em casca e beneficiado até 31 de dezembro.

Abastecimento garantido

Silvio Farnese, diretor de comercialização e abastecimento da pasta, estima que o Brasil tenha ainda entre 4 milhões e 4,5 milhões de toneladas de arroz no mercado, e que por isso a retirada da tarifa deve garantir abastecimento ao país.

Continua após a publicidade

Ele diz ainda que não há previsão para retirada de tarifas para insumos e que o preço do arroz pode se manter alto pelos próximos meses.

— Depende do que vier de fora. Se os importadores trouxerem um produto mais barato (parboilizado), pode gerar tendência de redução — avalia.